Aline Cristina Paiva de Oliveira

Eu, Aline Paiva, faço a seguir um relato de maternidade durante a pandemia do coronavírus e a experiência como bolsista no projeto “Às margens da pandemia: relatos de maternidades”. Sou acadêmica do quinto período no curso de Ciências Sociais na Universidade Federal do Acre.

A maternidade acontece na minha vida de forma não planejada e, logo após o término de um relacionamento, foi realmente assustador me deparar com o fato de que seria mãe e responsável por outro ser humano. A vivência é de maternidade solo, mas com uma rede de apoio composta por meus pais e amigas próximas, que sempre tornam a jornada um pouco mais leve. Há nove anos me sinto desafiada todos os dias, não só pela responsabilidade de prover, mas também de educar e criar uma criança, pela formação de outro ser humano. As várias fases na vida de uma criança, que já se apresentaram a mim através da minha filha, muitas vezes me deixaram sem saber o que fazer, ou como agir. São vivências que tornam a rotina extremamente cansativa. Minha vida não era mais apenas para mim, não pensava mais individualmente. A partir da maternidade, era tudo em função da minha filha e a vida se adequando às necessidades dela. Assim, vivo essa experiência intensamente praticamente vinte quatro horas do meu dia.

Sinto que nossa relação vai sendo construída dia-a-dia, com diálogo, cumplicidade, muitas ordens, repetições dessas muitas ordens, e, claro, muito amor. Na maior parte do dia sinto-me exausta, física e mentalmente, mas também tenho dentro de mim o maior amor que acredito ser possível sentir. O amor de uma mãe para seu filho é certamente imensurável e inexplicável, ouso dizer que o mais forte que possa existir, com isso extremamente complexo.

Mas a maternidade não é o que me define, na verdade não deveria ser o que define nenhuma mulher. Ser mãe ou não é apenas uma das tantas facetas que uma mulher pode ser, mas nunca a principal ou a que irá determinar seu papel dentro da sociedade, o que nem sempre é acolhido por todos. A mãe é observada e julgada, seja pelo seu vestir, falar ou agir. Além de precisar administrar todos os sentimentos que passam a habitar dentro de si, existe a pressão externa para um enquadramento do que a mãe deve ser.

Ao pensar sobre a vivência de maternidade na pandemia é possível perceber o quanto se evidenciou o papel fundamental da mulher na sociedade, principalmente se ela for mãe. O trabalho não remunerado e muitas vezes invisibilizado desempenhado pela mulher em prol da sua família traz à luz essa discussão tão pertinente que é a desigualdade de gênero nos vários setores da sociedade. Principalmente no que tange a sobrecarga de trabalho imposta às mulheres durante o período pandêmico causado pela Covid19, que acarretou no acúmulo de trabalho dentro e fora de casa para as mulheres, em sua maioria mães. A elas couberam os cuidados com a família, os afazeres domésticos e ainda as demandas profissionais, pois o que era trabalho externo veio para dentro de suas casas. Tornou-se ainda mais difícil a distinção dos horários de trabalho, transformando a jornada dupla em tripla, interferindo diretamente no rendimento profissional dessas mulheres, além da qualidade de vida, metal e física.

Para mim, que já trabalhava em casa, a pandemia causou poucas, mas significativas, mudanças na rotina, como, por exemplo, minha filha ter as aulas presenciais interrompidas e com isso a responsabilidade da educação escolar tornou-se ainda maior. Assim como também minhas aulas presenciais na Universidade Federal do Acre foram interrompidas e, após um tempo e muita relutância por parte da maioria do corpo discente e docente, tornaram-se virtuais.

Com isso, as medidas de confinamento causadas pela pandemia me deram a sensação de uma volta aos primeiros meses de vida da minha filha. Pois esse início da maternidade é, acredito, um dos momentos mais intensos e solitários, em que a mãe precisa administrar toda a sua atenção para com a criança e os demais aspectos de sua vida. Então, o isolamento social e o confinamento, a meu ver se assemelharam aos meses de licença maternidade tão característicos na vivência como mãe. O não poder sair de casa sempre que se quer e da maneira que se quer, o medo de que algum familiar, amigo, ou conhecido se contamine e venha a falecer, as notícias de tantas mortes diariamente e a incerteza do que esse vírus pode de fato causar trouxeram uma nova e diferente perspectiva para a vida como um todo. Mesmo que com mudanças pontuais na rotina, foi inevitável a transformação causada na mãe, mulher e ser humano que sou. Saber administrar todas as informações que surgem diariamente e repassar de forma acessível ao entendimento de uma criança, certamente tornou-se mais um dos tantos desafios que a maternidade me ocasionou.

Diante disso, eu, uma mulher em constante transformação e, estudante de humanas, me vi envolvida nessa reflexão tão pertinente que é a maternidade e a vivência dela num dos maiores acontecimentos históricos da atual geração. Estimulada por uma das professoras que admiro, passei a buscar o conhecimento científico para aquilo que já fazia parte da minha vida por algum tempo e que é uma potencial área de pesquisa. Há quatro meses integro esse grupo de pesquisa sobre maternidade na pandemia, buscando ouvir as vozes de diferentes mães e visibilizar as diversas vivências que a maternidade pode ter. Tanto como pesquisadora, como mulher e mãe, foi enriquecedor ouvir as onze mães que se disponibilizaram a conversar comigo, abrindo seus corações e suas vidas ao compartilhar as experiências de maternidade. Mas foi preciso me despir de qualquer tipo de julgamento ou pensamento pré-concebido que poderia ter, e ouvir com atenção e paciência tudo o que essas mulheres tinham a dizer. Com realidades e escolaridades diferentes, cada uma com uma percepção diferente do que a maternidade representa em suas vidas. Para algumas, a maternidade foi desejada e planejada, como uma grande realização de vida, enquanto para outras acontece de forma abrupta e repentina, necessitando se adaptar rapidamente à nova realidade que se configurava em suas vidas. Esta diferença interferiu significativamente na maneira como suas histórias foram sendo construídas até o momento e implicitamente se intensificando durante a pandemia.

Sejam elas conhecidas ou não, as mulheres e mães que me cederam seus relatos de maternidade contribuíram valiosamente para o projeto como um todo. Afinal, não seria possível pesquisar ou estudar sobre os impactos da pandemia causada pelo Covid19, sem tantos relatos e visões diferentes para quem teve a vida modificada significativamente. A percepção de que essas mulheres e mães se sentiram desafiadas a enfrentar uma nova rotina. Sentiram-se ameaçadas por um vírus invisível e que poderia lhes causar tanto mal, o medo das incertezas e apreensão para que nada faltasse a elas e aos seus. Mulheres e mães que descobriram a força que poderiam ter em momentos de crise e que também se redescobriram como mães, crescendo e amadurecendo na relação com seus filhos.

Certamente a coleta dos relatos e poder ter contato com tantas mulheres fortes e intensas, cada uma a sua maneira foi uma das partes mais prazerosas de participar desse projeto. Além disso, foi extremamente interessante poder me aprofundar na maternidade para além da minha própria experiência e me deparar com os mesmo sentimentos e pensamentos que os meus. Perceber, ao ouvir essas mulheres e mães, que temos em comum mais do que a maternidade, mas a mesma angustia, aflições, preocupações, medos, dúvidas, exaustão, certezas, força e amor. E assim, a possibilidade de exercitar o ouvir e acolher, ser ouvida e acolhida, incitando a reflexão de toda a sociedade para a vivência de maternidade que em sua maioria é tão solitária, mas que não deveria ser.