Keyth Rose Albuquerque Pinheiro Melo

A proposta deste projeto é colher relatos de mães sobre suas experiências durante essa pandemia que nos assola. É fato que todos nós sofremos com as mudanças provocadas em nossa rotina, porém, creio que o exercício da maternidade é o mais afetado, desafiador e cansativo durante este período. Bom, em minha casa a rotina mudou. Eu acompanhava as notícias da evolução da Covid-19 na China e até imaginava que chegasse ao país, porém, quando chegou, eu não acreditei até o decreto da quarentena. É certo que eu amo ficar em casa, mas não gostei de ser obrigada a estar em casa. Primeiro, tenho uma filha de 5 anos, 4 anos na época da quarentena. Ela estudava, tinha uma rotina, eu tinha minha rotina na faculdade, meu esposo também. Então tudo mudou e não porque eu quis, ou foi planejado. Nos primeiros meses tive crises de ansiedade nas quais cheguei a me machucar. Meu esposo me ajudava, mas não acreditava no poder mortal dessa doença. Eu tinha muito medo pela minha filha. Medo dela adoecer e eu não poder estar com ela, ou se eu adoecesse como seria a vida dela, de nunca mais vê-la. Exercer a maternidade nesse período foi mais difícil, porque eu ainda tinha que lidar com meus medos.

A rotina muda, todo mundo faz um pouco nessa casa, não que sejam os ajudantes do ano, mas ajudavam. Moro com meu esposo, minha filha de 5 anos, e um filho adotado que tem 23 anos. Eles ajudavam, meu esposo e o meu filho?! Sim, ajudaram e ajudam cuidando da casa, fazendo comida, lavando a roupa. O serviço da casa não é meu forte, particularmente eu odeio. Então, esse fardo eu não carreguei só. Creio que diferente das mães entrevistei, que os esposos e pessoal da casa pareciam ser muito solícitos, aqui meio que rolava umas chantagens para o negócio fluir. Com minha filha, foi difícil para mim porque não sou a pessoa mais paciente do mundo, mas para eles era mais fácil, então ajuda era maior e não precisava de chantagem. Sempre brincávamos, fazíamos atividades da escola, e é estressante demais essa fase de alfabetização.

Perdemos pessoas próximas para doença, mas, graças a Deus, não fomos acometidos pela doença. Zelamos muitos pela higienização das coisas. É álcool para todo lado. Precisei de apoio psicológico por causa das crises de ansiedade, mas não procurei ninguém. Só conversar em casa mesmo e expor o que me incomodava. Estou bem. Não trabalhava e o meu esposo fez Home Office. A pandemia nos ensina muita coisa. A nos cuidar, a valorizar mais a família, o tempo, os afazeres fora de casa. É bem possível que eu veja a vida com outros olhos, entretanto, serão olhos ainda mais assustados com a sociedade e a mania de acharem que são inatingíveis.

Consigo pensar que meu relato, acima descrito, não difere em muitas partes dos relatos que colhi para o projeto. Primeiramente, buscar relacionar as mulheres que conhecia com as especificidades que o projeto requeria não foi tão fácil como imaginava. O processo de pesquisa é cansativo, mas o resultado é prazeroso. Encontrei mães dispostas, envergonhadas, com necessidades relacionais extremas. Foram momentos de aprendizado. De aprender a ver o outro e pensar nele, no que ele sentiria quando lesse sobre si em um site.

A jornada de trabalho em meio à pandemia é deveras estressante. Home Office não torna o processo mais ágil. A conversa por meio de aplicativos de conversa, ora em áudio, ora em texto, demanda muito mais tempo e paciência. É um tempo que realmente não depende do entrevistador, mas do entrevistado. Quando a entrevistada aceita os termos do projeto começam a aparecer empecilhos. São os horários que não batem, quando batem, a conversa não flui tão bem quanto fluiria se estivéssemos em uma entrevista presencial. Foi preciso romper com as cadeias da timidez para tornar a conversa mais real.

Certamente a pandemia interferiu nas nossas vidas de maneiras significativas. Mesmo que algumas entrevistadas tivessem dito que não, quando pergunto sobre a necessidade de apoio psicológico durante esse período, foi-me possível perceber a necessidade de uma ajuda para elas. Certas vezes, sentia a carga da situação que muitas mães enfrentam durante essa quarentena. A apatia dos esposos nas atividades domésticas era perceptível. O esforço que algumas delas fazem para encobrir que estão sós, numa casa cheia de gente, é de tirar o fôlego. Uma mãe, em fase de puerpério, tinha a ajuda do esposo e do filho mais velho, mas sentia que estava em falta com o esposo, com a família e chegou a ficar depressiva por causa disso. A sociedade inculca tantas coisas desnecessárias…

Participar deste projeto foi enriquecedor. Enriquecedor como mãe, como esposa, com pessoa, como aluna. Pude participar de alguns lares, através dessas entrevistas, durante essa pandemia. Senti também que não estava sozinha com minhas angústias e lamentações. Ah, e também não me sentia só nas madrugadas, pois soube que parte da equipe usava as madrugadas para tentar abafar as vozes de nossas cabeças. Cabe agradecer a oportunidade de fazer parte deste projeto, as orientadoras que foram pacientes e sempre muito solícitas e a equipe de bolsistas que se empenharam ao máximo para cumprir prazos estabelecidos. E fica registrado o desejo de poder colher novos relatos, mas em pós-pandemia.

Obrigada!!!