Jéssica Matias

O ano de 2020 representou um grande desafio para todo mundo, considerando o contexto social, político e econômico vivenciado em decorrência da Covid-19. Essa nova conjuntura nos obrigou a reconfigurar nossas relações sociais, assim fomos obrigados a nos adaptar a muitas restrições.

A maternidade iniciou-se em minha vida há sete anos. Desde o primeiro ano da criança eu possuo sua guarda unilateral, pois o pai reside em outro Estado. No decorrer dos anos pude sentir o impacto das dificuldades que uma mãe solo enfrenta para criar um filho, exercendo múltiplas jornadas, muitas vezes despercebidas e desvalorizadas pela sociedade.

No final do ano de 2019, veio a minha segunda gestação, e o parto aconteceu em meio a pandemia do coronavírus no mês de maio de 2020, exatamente no pico de elevação da Covid-19.

Sinto uma angústia até hoje quando lembro do dia do nascimento da minha filha. Quando começaram os sinais de que o parto se aproximava, me dirigi à maternidade Bárbara Heliodora com o meu noivo. Ao chegarmos lá, tinha um segurança na portaria informando que apenas as gestantes poderiam entrar, e que não seria permitido acompanhante na hora do parto e sequer após o parto – com exceção para o parto cesário, no qual, mesmo assim, o acompanhante deveria esperar do lado de fora até o horário do procedimento. Após a avaliação da médica, fui encaminhada para ficar em uma sala para evolução do parto para, após três horas, ser avaliada novamente. Foi horrível ter que ficar sozinha naquele momento, sem contar que a sensação de usar máscara sentido dor é a pior possível.

Após uma hora, resolvi sair e falar com o meu noivo e decidimos ir ao Hospital Santa Juliana, e lá nos informaram que ele poderia me acompanhar. O parto evoluiu e lembro que o que mais escutei dentro da sala foi: “Não tira a máscara”. No momento do parto já é complicado controlar a respiração, imagine com o uso de máscara, sensação horrível. Por medidas de prevenção o hospital estava atuando com rapidez na realização dos exames nos recém nascidos e se estivesse tudo certo já estavam liberando para irem para as suas casas, evitando uma possível exposição ao coronavírus.

Atualmente, sigo em isolamento social com as minhas filhas e tem sido complicado conciliar a jornada de mãe com a rotina acadêmica, mesmo que online. A minha filha mais nova não pode me ver com o fone de ouvido que já começa a chorar querendo colo, com a intenção de puxar o fone de ouvido, toda vez, chega a ser engraçado. Tenho a impressão de que nas horas em que preciso me conectar ao google meet elas ativam a bateria no 220, por este motivo foi bastante desafiador participar deste projeto de extensão.

O projeto “As margens da Pandemia: Relatos de maternidades” nasce a partir de debates de se pensar a vida das mulheres, mães, acadêmicas, que travam suas batalhas “visíveis” e “invisíveis” em meio a essa pandemia.

Essa ação de extensão online é de extrema importância para se pensar como a Universidade Federal do Acre vem desenvolvendo seus trabalhos, trazendo reflexões de como suas atividades podem ser flexibilizadas para atender as mulheres que compõem esse espaço.

O método do trabalho do projeto se constituiu de encontros deliberativos via Google Meet. Utilizamos este método em respeito às recomendações de distanciamento social, assim os encontros foram para a apresentação de materiais teóricos, para uma melhor reflexão sobre a proposta do projeto, e assim podermos adotar uma metodologia para usarmos na evolução e coleta das entrevistas.

Uma dessas metodologias foi a entrevista via WhatsApp. Optou-se por usar essa rede social por ser de fácil manuseio e ser uma ferramenta flexível, tendo em vista as várias responsabilidades do dia a dia das entrevistadas e da entrevistadora. Com esse aplicativo, poderíamos ter a entrevista escrita ou em áudio. Durante as entrevistas e leituras dos relatos coletados pela equipe do projeto, pude observar que, com a pandemia, as mães passaram a ter suas funções mais que dobradas, pois passaram a ter que cuidar da casa, cuidar dos filhos, mediar os estudos das crianças, em alguns casos, cuidar dos estudos da faculdade. Para as mães solo a situação se tornou mais difícil, por serem provedoras da casa não podem “se dar ao luxo de ficarem doente”, pois a necessidades dos filhos vem antes das suas e ao mesmo tempo que se cuidam, elas tendem a enfrentar os seus medos com a única prioridade de sustentar os seus filhos.

Segundo Eliane Comoli e Karen Canto (2020), com a repentina mudança no modo de vida, as famílias tiveram que adequar os espaços privativos (casa) para trabalho e estudo, o chamado home office. Nesse sentido as mulheres precisaram criar uma logística de produtividade a qualquer custo, onde muitas das vezes as horas de trabalho excedem o normal em decorrência da “facilidade” de contato.

O contexto pandêmico trouxe outros embates e discussões, percebeu-se que as atividades realizadas pelas mulheres mais que triplicaram. A ONG Gênero e Número e a SOF – Sempreviva Organização Feminista realizaram uma pesquisa com mais de 2.641 mulheres, denominada SEM PARAR: o trabalho e a vida das mulheres na pandemia[1], nos revelou alguns dados alarmantes: 50% das mulheres brasileiras passaram a cuidar de alguém durante a pandemia; 72% afirmaram que aumentou a necessidade de monitoramento e companhia; 40% das mulheres afirmaram que a pandemia e a situação de isolamento social colocaram a sustentação da casa em risco; 58% das mulheres desempregadas são negras; 61% das mulheres que estão na economia solidária são negras; 8,4% das mulheres afirmaram ter sofrido alguma forma de violência no período de isolamento. Esses dados nos possibilitam ter uma dimensão da situação enfrentada pelas mulheres nesse contexto de pandemia, e temos uma noção da intensificação da desigualdade social gerada nesse cenário.

Nossas entrevistas não fogem à regra, pois uma das dificuldades encontradas foi receber respostas diretas, sem muito desenrolar, das entrevistadas, como se tivessem medo de expressar a sua situação; percebeu-se também uma intensa tentativa de nos persuadir sobre a participação dos maridos nas atividades domésticas. As entrevistas tiveram como suporte o aplicativo whatsapp, apesar de ser uma ferramenta de uso diário, o retorno das entrevistadas acontecia de forma gradual, levando dias ou até semanas, mas quando encontraram um tempinho em suas rotinas, retornaram as entrevistas e explicaram a correria em suas residências, que eu entendia muito bem, pois eu como mãe estava passando o mesmo com uma bebê que não me deixava nem pegar no celular para responder as mensagens, que estava quase sempre em busca de mamar e que não aceitava ficar nos braços de ninguém se não fosse os meus.

Para realizar as transcrições das entrevistas, tive a madrugada como o melhor horário disponível, em algumas noites o cansaço me consumia ao ponto que não tinha forças para me manter acordada e tinha que levantar ao raiar do dia, antes das crianças acordarem para dá continuidade às transcrições, vale ressaltar que as mães alegaram que preferiam seguir com a entrevista em forma escrita, pois em áudio corria o risco de interromper o sono das crianças. Durante o período da coleta e transcrição dos relatos ainda tive um problema técnico com o meu equipamento, que teve que ser levado para a assistência técnica. Tive que esperar o reparo por algumas semanas, ocasionando atraso e dificuldades nas transcrições, então compreendo a luta diária de cada uma dessas mães. Supostamente, algumas mulheres relatam a sua vida de acordo com o que é “bem visto” pelo senso comum.

Este projeto de extensão nos possibilitou um contato mais direto com essas mulheres, dando-nos um olhar mais compreensível e ao mesmo tempo mais crítico sobre o que estamos enfrentando. Ficou evidente que há mais vozes que necessitam serem ouvidas, e suas histórias compartilhadas com o público em geral, e este projeto foi uma porta para essas vozes saírem do esquecimento e conseguirem uma maior visibilidade sobre as suas lutas diárias. Com os depoimentos esperamos que haja um maior conhecimento sobre as dificuldades que uma mulher-mãe enfrenta em nossa sociedade. E que isso possa levar a conscientização para a redução da romantização da maternidade.

[1] GÊNERO E NÚMERO; SOF SEMPREVIVA ORGANIZAÇÃO FEMINISTA. SEM PARAR: o trabalho e a vida das mulheres na pandemia. Disponível em: http://mulheresnapandemia.sof.org.br-