Profa. Dra. Ana Letícia de Fiori

Em seu doutorado sobre histórias de mulheres mortas e vivas no curso da epidemia de Ebola em Serra Leoa, a antropóloga Denise Pimenta nos apresenta a categoria de “cuidado perigoso”. Durante uma epidemia de enormes proporções em um país que também emerge de uma guerra civil, em meio a agências e ingerências de órgãos internos e internacionais, a linha de frente do cuidado continua a ser as mulheres da família: mães, avós, tias, irmãs, esposas, filhas e noras que adoecem ao cuidar dos doentes, que se desdobram sem muitas vezes receber a reciprocidade ou mesmo o reconhecimento de seus cuidados, naturalizados nas diferentes formas de “romantização” da feminilidade e da maternidade que naturalizam estes papeis.

Estas mulheres, poucos ouvidas por planejadores e implementadores de políticas de saúde pública, recuperação econômica e outros tecnocratas, hoje não apenas estão às margens da pandemia, testemunhando seus efeitos caudalosos varrerem o mundo, mas são as próprias margens, os limites e as fronteiras que conectam o público e o privado, o coletivo e o individual, o político e o íntimo. Mulheres que artesanalmente costuram seus modos de cuidado, com um olho nos canais de (des)informação oficiais e/ou que circulam nas redes sociais online, e outro nos corpos e gestos dos seus, acompanhando febres, tosses, apetites, sonos, conhecendo a história de cada um desses elementos em cada uma dessas pessoas. Trocam receitas e filtram informações, experimentam, oferecem amor e paciência, raiva e impaciência. Transformam suas cozinhas, armários do banheiro e cabeceiras da cama em pequenos laboratórios, persistindo nos saberes e práticas que historicamente se tentaram delas expropriar, como a historiadora Silvia Federici narra em “O Calibã e a Bruxa”. E, prestando atenção e escutando os habitantes de seus universos cotidianos, tais mulheres muitas vezes também pouco podem se escutar. Às vezes, esquecem que é preciso se escutar.

Para muitas dessas mulheres, o isolamento social não é novidade. Viveram esta experiência no resguardo da gravidez, nas mudanças de tratamento ao tornarem-se mães – e apenas mães – na lida com muitos daqueles que reduzem a complexidade de suas pessoas a este papel e função, isolando-as e alienando-as de si mesmas. Em relações conjugais que se transformam em relações de cuidado, mais do que de companheirismo. Na exigência de amor e felicidade da “realização” de ser mãe, calando a solidão de muitas até o desenvolvimento de certas autocensuras, que alguns dos relatos coletados por este projeto traem.

Em sua discussão sobre “Relatar a si mesmo”, a filósofa Judith Butler indica como este modo de enunciação de si advém frequentemente de um registro acusatório. É preciso defender-se de um juízo, uma culpa, uma acusação que recai sobre si e, por isso, é preciso narrar sua vida, seus atos. Abundam acusações na experiência da maternidade, alter ou autodirigidas. Acusações sobre ser mãe, sobre querer ou não querer ser mãe, sobre ser uma mãe ruim. E, em um acelerado movimento de desmonte das redes de proteção social, redobram-se as atribuições das mães no interior das famílias., redobram-se as acusações diante de condições objetivas de vida cada vez mais áridas. Porém, nos indica Butler, relatar a si mesmo traz consigo a dimensão ética de perceber-se vulnerável ao outro, e de levar em consideração esta vulnerabilidade que nos é constitutiva enquanto sujeitos.

“Às margens da pandemia: relatos de maternidades” experimenta com estas vulnerabilidades, das mães que nos ofereceram relatos, da equipe do projeto se defrontando com uma miríade de experiências que também desestabilizam as nossas próprias, e, desejosamente, do público que vier acessar a este sítio e que poderá também praticar um exercício de leitura e escuta das vozes dessas mães, em suas reservas ou franquezas, constrangimentos ou liberdades, medos e alegrias. Que possamos ouvir estas cuidadoras também com o devido cuidado.

Referências:

BUTLER, Judith. Relatar a si mesmo: crítica da violência ética. Belo Horizonte: Autêntica, 2015.

FEDERICI, Silvia. O Calibã e a Bruxa: mulheres, corpo e acumulação primitiva. São Paulo: Elefante, 2017.

PIMENTA, Denise Morais. O cuidado perigoso: tramas de afeto e risco na Serra Leoa (A epidemia do ebola contada pelas mulheres, vivas e mortas). Tese (Doutorado em Antropologia Social) – FFLCH/USP. São Paulo, 2019.