Profa. Dra. Ana Letícia de Fiori

O projeto de extensão Às Margens da Pandemia: Relatos de Maternidade foi concebido a partir de um desejo convergente de professoras e estudantes de refletir sobre os dilemas, desafios, angústias e alegrias das mães durante a pandemia de Covid-19, de duração incerta e cumulativos efeitos em seus muitos cotidianos. As redes sociais permitiam vislumbres de algumas experiências de maternidades que eram narradas por mães, em busca de informações, de conselhos, de trabalhos que pudessem conciliar com o isolamento e as suas muitas atribuições, de companhia, ou apenas desabafando. Entre crianças em casa, tensões domésticas exacerbadas, desemprego em alguns casos, adoecimentos em outros, e até mesmo partos originando novos filhos e novas mães, emergia uma perspectiva crucial sobre o cotidiano da pandemia, revelando certas nuances que os boletins diários de infectados e mortos não seriam capazes de expressar. Não obstante, era fácil deduzir que as falas das mães que chegavam eram uma pequena parcela das experiências de maternidades na pandemia, pois haveria um sem número de mães que sequer seriam ouvidas, margens silenciosas de uma pandemia caudalosa, avassaladora.

Ao formular o projeto de extensão Às margens da pandemia: Relatos de Maternidades, um dos pontos mais sensíveis era justamente a definição de uma metodologia para a coleta dos relatos que buscasse alcançar mães em diferentes contextos. Nosso objetivo inicial era focar em mães em situações de vulnerabilidade diversas: mães solo, mães periféricas, mães que perderam seus empregos e fontes de renda, mães indígenas e ribeirinhas, mães do chamado “grupo de risco”. Se, por um lado, as precauções sanitárias nos impediriam de percorrer casas e ruas, indo ao encontro presencial dessas mães, por outro lado a todo instante emergem discursos de como certas redes sociais estão por toda parte, acessadas por aparelhos celulares que mal acessam a internet para além de certos aplicativos. Se este acesso precário, limitado, configura um novo modo de segregação digital e informacional, também nos dá uma via de acesso segura, desde que cheguemos aos números dessas mães e que elas consintam em conversar com a equipe.

Por isso, o projeto trazia como proposta metodológica a utilização da técnica de amostragem por “bola de neve”. Como o nome sugere, parte-se de alguns informantes-chave iniciais, que seriam as “sementes”. Começamos por contatar mães que os membros da equipe já conheciam e poderiam conversar sem muito embaraço. Ou seja, no nosso projeto, a própria equipe atua como “sementes”. As primeiras mães indicariam outras pessoas, que indicariam outras pessoas e assim sucessivamente até atingir um “ponto de saturação”, ou seja, quando os relatos já se teriam tornado diversificados e recorrentes o bastante. A ambição inicial do projeto, com duração prevista para quatro meses – contando com leitura e debate de textos, preparo de um roteiro de entrevistas, entrevistas-testes, a coleta dos relatos, transcrição e edição, montagem do sítio e publicação – era alcançar 40 relatos.

Autores e manuais de metodologia de pesquisa que debatem a técnica de amostragem por bola-de-neve indicam este método não-probabilístico sempre que se trata de alcançar uma população de difícil acesso, ou quando o tema de uma pesquisa for delicado o bastante para exigir que os informantes sejam alcançados por uma rede de relações de confiança. Isto dá um sentido forte ao termo “redes sociais”, que designa não apenas os aplicativos de conversação pela internet (no caso de nosso projeto, o Whatsapp), mas as redes de relações das pessoas que participam da pesquisa. Tendo a própria equipe como sementes, algumas limitações em termos de representatividade e diversidade dos relatos não são inicialmente superadas. Ainda que as duas professoras e as seis estudantes participantes se inserissem em redes diversas em virtude de seus contatos com colegas estudantes, professoras da universidade ou de cursos outros, prestadoras de serviços, frequentadoras dos mesmos espaços religiosos, familiares e de vicinalidade, ainda assim o raio de alcance inicial era um pouco limitado. Uma das professoras da equipe disponibilizou vários contatos de mães suas conhecidas para que as estudantes pudessem realizar as entrevistas. Uma professora e uma aluna recorreram às suas respectivas igrejas. Muitas dessas mães eram, de modos diferentes, “amigas”, o que não configura um viés ruim, se o objetivo é a construção de um espaço de partilha.

Para as estudantes, em sua maioria tendo a primeira experiência como realizadoras de entrevistas, havia também o desafio da timidez, uma hesitação respeitosa em abordar mulheres sobre temas sensíveis, de fazer falar pessoas que nem sempre estão acostumadas a falar de si, de insistir sem perturbar, apenas para criar este pequeno ponto de interrupção do fluxo dos dias para que a conversa pudesse acontecer. Uma das estudantes da equipe escreve: “No início achei que seria fácil entrevistá-las, mas descobri que nem sempre o povo quer falar sobre o que acontece em sua vida, não se você perguntar. E isso independe da intimidade que você tenha com ela ou não”. Outra estudante quis interromper seu papel na coleta de relatos, preferindo ficar na discussão dos relatos coletados.

Por outro lado, redes de contatos que pareceriam óbvias e frutíferas para a pesquisa nem sempre o foram. Uma das estudantes do projeto conta que comentou do projeto em um grupo de mães do whatsapp. Muitas manifestaram interesse, mas apenas uma seguiu a entrevista inteira, outras entrevistas iniciadas não foram finalizadas. A justificativa da “correria” e do “esquecimento” em responder às perguntas deixava entrever outros aspectos. A aluna escreve: “Percebi que as mães que iniciaram e desistiram no meio do caminho da entrevista exatamente na parte relacionada ao planejamento e realização da maternidade, talvez elas não estivessem preparadas para falar do assunto.” Esta estudante notou que as mães preferiam lhe responder por texto, e não por áudio, para não atrapalhar o sono das crianças. A aluna, também mãe, comenta: “para mim faz sentido”.

Se, em algumas das reuniões da equipe, expressavam-se frustrações por entrevistas negadas ou interrompidas – percalço de toda e qualquer pesquisa – também se partilhava a satisfação por ter conseguido um relato interessante, ponderações sobre mães que falam “pouco” ou que “contam toda a vida”, reflexões sobre como melhorar a abordagem e as perguntas, como preservar a identidade das mães que não quiseram ser identificadas, como editar os relatos preservando as vozes das mães e abrindo o diálogo com a própria equipe.

Ao final da duração prevista para o projeto, chegamos quase aos quarenta relatos inicialmente previstos, mas tendo o horizonte de manter as coletas, conforme novos contatos forem feitos, e tornar o próprio sítio do projeto também uma semente, convidando mães que queiram relatar suas experiências na pandemia a nos contatarem.

Para uma reflexão sobre a amostragem em bola de neve, sugere-se a leitura de:

VINUTO, Juliana. A amostragem em bola de neve na pesquisa qualitativa: um debate em aberto. Temáticas, Campinas, 22, (44): 203-220, ago/dez. 2014. DOI 10.20396/temáticas.v22i44.10977