Robenylson de Oliveira Mota

Quando aceitei o desafio de participar do projeto, estava propondo um desafio a mim. Afinal de contas, eu não havia trabalhado com nenhum projeto de cunho antropológico, de contato direto com experiências que não fossem as minhas ou de pessoas próximas a mim. Além da dificuldade encontrada por mim, percebi dificuldade das mães para contar suas histórias. Com as redes sociais e a internet, muita gente quer aparecer, falar sobre si e dar opinião sobre os mais diversos assuntos, todavia, quando essas mesmas pessoas eram postas em uma situação em que precisavam dar o seu relato, falar sobre si e dar o seu ponto de vista para algo além de suas redes, havia um bloqueio enorme, resultando na omissão de certas coisas e em um relato contido.

É delicado comentar sobre o que não vivenciamos, desta forma, passo o meu olhar de fora, como um mero expectador de uma experiência que, biologicamente falando, não compete a mim.  O projeto me proporcionou a visão de fora, ao passo que me possibilitou um contato com a experiência materna não só de mães desconhecidas, mas de mães conhecidas das quais eu nunca havia acessado o lado mãe. Dentre as muitas coisas possíveis de serem pontuadas por meio da minha experiência no projeto, um aspecto me chamou atenção: a maioria das mães que entrevistei não planejaram suas gravidezes e/ou tiveram seus filhos com pouca idade, todavia, logo após relatar isso, tratavam de declarar o amor pelos filhos e a importância deles em suas vidas. Assim, me fez perceber a magnitude do amor materno.

A busca pelos relatos não foi instantânea, nos reunimos algumas vezes para discutir textos teóricos e literários. Em nossas discussões, o texto que mais ficou marcado em mim foi o conto Amor (1960), de Clarice Lispector (1920-1977). O conto narra a história da Ana, que está na maioria do tempo ocupada cuidando da casa e da família. Todas as tardes, quando a casa não precisava mais dela e todos os membros estavam em suas respectivas funções, a protagonista tem o seu momento, a “hora perigosa” que servia para ela refletir sobre si e sobre os caminhos que a trouxeram até ali.

De certa forma, o nosso projeto se propôs a ser a hora perigosa para nossas entrevistadas, por permitir um espaço de desabafo e reflexão da maternidade durante o período tão incerto de isolamento social. Pois, como disse acima, se houve mães que se contiveram para responder as nossas perguntas, outras falaram muito e poderiam ter falado mais.

Obra citada:

LISPECTOR, Clarice. Amor. In: Laços de Família. Rio de Janeiro: Ed. Francisco Alves, 1960.