Profa. Dra. Camila Bylaardt Volker

O projeto “Às margens da pandemia: relatos de maternidades” foi gestado na primeira fase da pandemia. Perdoem-me a metáfora óbvia, mas o caso é que nunca pensei que trabalharia com os assuntos envolvidos nesse projeto: maternidade e pandemia. Para quem não se lembra, vou contar: a primeira fase da pandemia foi aquela em que alguns de nós ficamos assustadíssimos e presos dentro de casa, sem saber muito bem o que iria acontecer nos próximos meses. É quase como o início de uma gestação: susto, medo, dificuldade de projetar o que virá no futuro. E, ao mesmo tempo, uma sobrecarga de tarefas; não é que essas tarefas não existissem antes. Elas passam a ficar mais pesadas e são somadas a outras que surgem por causa do novo estado das coisas.

Enquanto eu estava na confusão por conta da conjunção entre maternidade e pandemia, uma amiga Ana me procurou pedindo a revisão de um texto que ela iria enviar para uma publicação sobre maternidade, pesquisa na universidade e pandemia. Junto com a revisão, ela mandou a chamada de publicação. Ao ler a chamada, fiquei pensando que eu também me encaixava naquele perfil. Afinal, eu sou mãe, pesquisadora da unversidade e também estava na pandemia. Fiz a revisão do texto da Ana, e contei para ela que faria um texto também. Era para fazer um relato.

“Tem a forma de um relato”: essa frase vem me acompanhando há meses. A única coisa que eu precisava fazer era contar a minha experiência de mãe e pesquisadora durante a pandemia. Foi muito difícil escrever o relato; foi muito difícil me expor; foi muito difícil acreditar que eu teria algo a dizer sobre esse assunto.

Nesse meio tempo, outra Ana, a Ana Fiori falou alguma coisa sobre mães no Facebook. Eu comentei. Começamos uma conversa que virou um projeto. Um projeto sobre relatos de mães na pandemia. De novo, todos os elementos reunidos: mãe, relato e pandemia; e uma Ana. Com o diferencial de, agora, ter transformado tudo isso em um projeto de pesquisa na universidade, em uma forma de ouvir outras mães.

Tem a forma de um relato. Talvez tenha sido essa forma o que mais me intrigou durante toda a pesquisa. Se antes eu tinha sofrido para escrever um relato, agora eu via como era difícil propor para as mães a confissão de um. Essa pode ter sido uma das razões que nos levou a um perigoso campo híbrido entre o relato e a entrevista. Preocupados em conduzir a conversa com as mães de maneira a abrir um espaço de fala, de confissão, de reconhecimento da própria situação − dificuldades que eu mesma tinha experimentado meses antes, quando fiz meu próprio relato −, produzimos um roteiro de temas a serem abordados: antes da pandemia, aceitação/não aceitação da maternidade, divisão de tarefas no lar, saúde dos familiares…

Confesso que a nossa preocupação em ajudar os relatos a serem feitos, acabou, algumas vezes, conduzindo os relatos para um lugar conformado; o lugar conformado às mães na nossa sociedade: muitas vezes submissas, compreensivas demais, exalando um amor excessivo a situações aparentemente sofridas, e um tanto quanto inconscientes do próprio poder de escolha, e do seu papel absolutamente fundamental para o funcionamento dos núcleos familiares e da própria sociedade. Depois de tantos relatos que enalteciam o amor incondicional aos filhos, a falta de auto cuidado em prol do cuidado do outro, a necessidade de agradar, a resignação e a subserviência ao papel esperado da mulher e da mãe, eu só lembrava do Álvaro de Campos, no Poema em linha reta (pensando bem, a linha daqueles versos nem é tão reta e nem tão óbvia assim): “Quem me dera ouvir de alguém a voz humana/ Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia”.

Como é que se faz, então, para relatar? O que é, afinal, um relato?

Para pensar sobre isso, não consigo deixar de ser eu mesma, e preciso me firmar em algum terreno (que eu considero) sólido (mas lembremos que as etimologias são sempre falsas, como diria o Hammacher). Relatus, -us. Como substantivo é a ação de relatar, um relato, uma exposição, uma narração. O substantivo veio do particípio passado (ou seja, uma ação concluída) do verbo refĕro, trazer de novo. Entregar, restituir. Remeter. Restaurar. Reproduzir, repetir, representar, renovar, responder, replicar, referir, transcrever, pôr, incluir. O prefixo re- traz ordinariamente a acepção de repetição de uma determinada ação. Combinado com o verbo ferō, cujo particípio passado é lātum, os significados são: levar, trazer. Trazer no ventre, estar grávida. Produzir. Sofrer, tolerar, suportar. Dar uma opinião, levar uma notícia. Contar, expor. Empurrar. Roubar.

Acho que passamos por todos esses significados. Tanto na execução do projeto como nos produtos que alcançamos. De princípio, queríamos trazer e trouxemos notícias de experiências de maternidades para um público mais amplo. Levamos opiniões, fatos e produções para as mulheres que ouvimos. Contamos, nos expusemos, demos vários “empurrõezinhos” para que os relatos saíssem. Gestamos esse projeto, esses relatos. Poderia-se dizer, até, que roubamos confissões de mulheres.

Já em um “re-“, trouxemos o que nos foi trazido. Produzimos de novo os relatos quando os transcrevemos, restauramos, renovamos. E as mulheres também: representaram, tanto o papel que espera-se delas, quanto trouxeram de novo o que está presente em suas vidas; repetiram histórias, replicaram queixas, renovaram princípios de vida. Responderam com “sim” e “não” perguntas para as quais esperávamos respostas que realmente relatassem situações. Produzimos, sofremos, toleramos e suportamos (nós da equipe e as mulheres entrevistadas) todas as dificuldades e as delícias que envolvem trazer de novo algo vivido.

O “re-” é tão potente, ainda mais combinado com o ferō e o lātum, que tivemos diversas discussões sobre a transcrição e a restauração dessas vozes maternas. Alguns membros da equipe transcreviam quase todas as falas das mulheres, fazendo pequenas renovações através de um discurso direto. Outros, produziam de novo (reproduziam?) o que tinham ouvido, incluindo (mais uma acepção de refĕro) a própria mediação na forma restaurada. Por vezes, li relatos em que as vozes das mulheres só apareciam referidas, em discurso indireto, o que não deixa de ser uma forma de trazê-las de novo. Pois incluir, referir, representar e renovar também não são ações possíveis dentro do refĕro?

Tem a forma do relato, eu pensava, a forma do refeito, não do refazer. Mas que forma é essa? Quem conta já não é quem viveu, pois contar implica trazer para o presente da fala (ou da escrita) algo que não está aqui. Quem conta o que lhe foi contado (uma espécie de re- refĕro, o relatus), também já não é mais aquele que ouviu e precisa reelaborar a experiência de ouvinte de confissão, de ouvinte de relato. Contar a experiência implica em diferença; deve-se reelaborar o vivido, rememorar, construir de novo, criar. Assim, nosso projeto esteve o tempo inteiro às voltas com as significações do refĕro e do relatus. Em dupla, ainda por cima: a forma do relato e a forma do relato relatado.

Eu diria que alcançamos a forma do relato, quando mulheres se dispuseram, mesmo que em momentos específicos considerando o todo de um relato, a conduzir a própria voz em torno da própria experiência. Espero que tenhamos sabido valorizar esses momentos, reproduzindo-os tout court.

Por outro lado, eu diria que não alcançamos a forma do relato, ou atrapalhamos o relato de acontecer, pois, ao tentar trazer, pôr ou incluir a voz dessas mulheres, funcionamos como intermediadores, numa espécie de “o homem que viu o homem que viu o uso”, como diria o Juan José Saer. São relatos de relatos, que revelam também a nossa própria tendência de conformar as mães em um determinado registro. Ainda sim, acredito que o relato do relato também é uma forma de um relato, e aprendemos muito lidando com ela.

Assim, em uma série de acasos muito felizes, numa forma inicial que se gestava (no início do texto e no início da pandemia), sem voz e confusa, eu consegui fazer o meu relato, que saiu em um livro cheio de relatos, depois de revisar o relato da primeira Ana. Quando me juntei à voz da Ana, a Fiori, conseguimos elaborar o projeto e reunir as vozes de seis alunos: Aline, Keyth, Natan, Robenylson, Jessica e Halanna. E as nossas vozes mobilizaram mais quarenta vozes em torno de nós. Foram muitos relatos. De repente, reconheci que estava envolta em um monte de relatos, não só os do projeto. Eu entrava nas redes sociais e me deparava com relatos de parto; relatos de relacionamentos (sempre abusivos); relatos de quarentena. Tem a forma de um relato: é a escolha, ao contar, da forma que daremos às experiências; a escolha da nossa forma de suportar.