No dia 21 de dezembro de 2020, eu, Jessica Matias, iniciei uma conversa com Simone Dimas. Nascida em Rio Branco no dia 03 de dezembro de 1983, ela relata como tem conciliado a maternidade e o trabalho durante a pandemia.

profissional do sistema de saúde

Meu nome é Simone Dimas, eu me considero morena e tenho 37 anos. Sou casada há dezenove anos, e dessa união tenho dois filhos (um de 18 anos e outro de 2 anos). Resido no bairro Novo Horizonte. Sou formada em segurança do trabalho e atualmente trabalho como técnica de saúde bucal. Meu esposo possui o ensino médio completo, e passou a sua vida inteira trabalhando como vendedor, mas atualmente está desempregado. Na verdade, está com mais de um ano desempregado, ele sempre busca emprego, mas o que encontra é apenas temporário, e agora devido a pandemia está impossível arrumar qualquer coisa na área. Antes da pandemia ele podia sair para deixar currículos com mais frequência e tínhamos bastante contato com os nossos amigos e familiares… Meu esposo sempre recebia indicações de lugares que estavam recebendo currículos, hoje em dia raramente isso acontece, o emprego tá difícil e quem sabe de algo guarda para si; o meu filho estudava e por ser jovem sempre estava circulando pela cidade com os amigos, acredito que tínhamos uma rotina familiar normal. 

Em relação à maternidade na minha vida, lembro-me que tinha acabado de concluir o ensino médio quando descobri que esperava o meu primeiro filho. Na época eu ainda não era casada, só após o nascimento dele que me casei. No início foi bem difícil se adaptar com a chegada de uma criança, era um mundo desconhecido, cheio de incertezas, mas com o passar do tempo eu amadureci e compreendi que para ser mãe temos que abrir mão de muita coisa, mas no final tudo vale a pena. Na minha primeira gestação eu tive que deixar de lado a formação de um curso superior para me dedicar somente aos cuidados do meu filho, e só quando ele começou a frequentar a escola de ensino infantil que comecei a trabalhar e voltei a estudar. Já na segunda gestação, eu tive que parar de trabalhar após o nascimento dele, e quando ele completou o seu primeiro ano, eu voltei a trabalhar. Como ele já era maior, podia ficar aos cuidados de seu irmão em casa. O meu esposo sempre trabalhou com vendas e conseguia manter o nosso sustento, mas de uns tempo para cá, ele não conseguiu mais nenhum emprego, e a nossa renda está sendo bem limitada para não passarmos por muitas necessidades. 

Simone comenta sobre o seu emprego e como a família tem dividido as funções domésticas em sua residência. Como principal responsável pelo sustento da família, ela conta como se sentiu quando soube que teria que parar de trabalhar devido a pandemia do coronavírus. 

Com o decorrer da quarentena, fiquei dois meses sem trabalhar, e foi um verdadeiro sufoco, eu tive que vender alguns bens materiais para poder nos manter, pois a minha família não conseguiu receber o auxílio emergencial. Graças a Deus, já voltei a trabalhar, porque não sei o que estaríamos fazendo para nos manter. Como passo o dia no trabalho, as tarefas domésticas do dia a dia ficam por conta do meu esposo e filho. Eles dividem os serviços domésticos, já os cuidados com o meu filho menor, apenas o pai é responsável em cuidar dele, nos finais de semana eu lavo as nossas roupas, porque é a única coisa que eles não conseguem fazer de jeito nenhum, pelo menos não do jeito que deveriam. Como trabalho em contato com outras pessoas, intensifico os cuidados com a higienização e sigo todas as medidas de prevenção, pois há sempre a possibilidade de atender um paciente com a Covid-19. Até hoje tem dado tudo certo, eu e os meus familiares não contraímos o vírus e se Deus quiser vamos ser imunizados sem pegar o Coronavírus. Há um grande risco em trabalhar em meio a pandemia, mas é necessário, pois é o único modo da minha família ter o que comer. Quando soube que iríamos entrar em quarentena fiquei bastante preocupada, principalmente pelo fato de ter que ficar sem trabalhar, como o meu esposo está desempregado, sou eu que estou sustentando a família, então bateu um certo desespero pela possibilidade de ser dispensada do serviço; o consultório odontológico no qual eu trabalho ficou fechado durante dois meses, mas depois reabriu e eu voltei a trabalhar. 

Neste trecho da entrevista, Simone relata como se sente distante dos seus filhos, transparecendo a sua tristeza através da utilização de vários emoticons tristes. 

Sabe, eu sinto falta de passar mais tempo com a minha família, muitas vezes chego em casa do trabalho e os meus filhos já encontram-se dormindo e quando saio para trabalhar eles ainda encontram-se dormindo, praticamente eu não tenho tempo com eles. Percebi que o meu filho menor está mais apegado ao pai e ao irmão, as vezes me sinto como uma estranha para ele, queria poder ter um período maior para me dedicar aos meus filhos; com a quarentena passei um período sem trabalhar e pude me fazer presente na vida deles, pude ver o meu filho descobrindo novas coisas, aprendendo a falar e muitas outras coisas, percebi que estava perdendo uma fase muito especial. Queria ter uma boa condição financeira para estar sempre presente e acompanhá-los em tudo, mas infelizmente as condições da nossa família não permitem, eu necessito de trabalhar. Não vejo a hora de estarmos imunizados e poder sair para passear com a minha familia, eu preciso de um tempo de lazer com eles, respirar mais aliviada. Acredito que eles também estão ansiosos para passear, pois estão dentro de casa desde o início da quarentena, estão todos estressados e entediados, no máximo ficam na rua em frente de casa e já estão saturados desta situação. Quando pudermos socializar com segurança e tranquilidade quero levá-los para um piquenique no Parque Chico Mendes, precisamos respirar um ar mais puro. 

A minha família já está cansada de ficar em casa, eles veem as pessoas deslocando-se por aí normalmente e ficam reclamando o porquê de continuar dentro de casa. O mais trabalhoso é manter o meu filho adolescente dentro de casa, ele é o mais estressado no momento, vive se queixando que queria dar uma volta com os amigos, que não pertence ao grupo de risco e etc… De uns tempos para cá, ele tem ficado bem rebelde, gosta de estar sempre rebatendo as coisas que eu falo, mas o meu esposo tem controlado a situação, ele tem pulso forte e o nosso filho o escuta mais. O fator importante para o meu filho seguir a quarentena tem sido o meu esposo, ele me compreende e me apoia em relação ao isolamento social e controla tudo enquanto estou no trabalho. Eu não concordo com a flexibilização da quarentena, as pessoas não estão ligando para a própria vida, imagina se vão se preocupar com o próximo… É capaz de estarem com a Covid-19 e continuarem saindo por aí como se nada estivesse acontecendo. Eu perdi um grande amigo há três meses, e ele era adepto à ideia de flexibilização do isolamento social, acabou contraindo a Covid-19 e não resistiu e devido a isso fiquei bastante rigorosa com o meu filho. Não permito e não concordo que a minha família saia de casa sem uma extrema necessidade. Se eu pudesse estaria em casa também, mas alguém tem que trabalhar para podermos sobreviver. Eu sigo todas as medidas de prevenção. A minha família toma vitamina c e zinco diariamente. Eu tenho muito medo dos meus filhos contraírem o coronavírus, estou fazendo o possível para que eles permaneçam livres desse vírus, prefiro pecar pelo excesso do que chorar no leito de um hospital ou algo pior. Quero todos saudáveis e seguros em casa, o meu futuro é junto a minha família, nem quero pensar em perdê-los. Só digo para termos paciência e fé, que isso irá acabar e vai dar tudo certo no final, e que vamos realizar muitos sonhos juntos.

 

 

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