No dia primeiro de dezembro de 2020, Silvana Ramos da Silva, nascida em Rio Branco, no dia 22 de dezembro de 1996, permitiu que eu, Jessica Matias, coletasse o seu relato. Silvana conta como o seu sonho de menina se transformou em uma desilusão e como está sendo a sua rotina de mãe solo durante a quarentena. Ela também relata a sua experiência de ter trabalhado em uma unidade de atendimento a pessoas com o Coronavírus.

Profissional do sistema de saúde; maternidade solo; Bolsa família

Bom, me chamo Silvana Ramos da Silva, tenho 24 anos e me considero parda. Me casei ainda na adolescência e fui morar na zona rural e acabei desistindo de estudar, não cheguei a concluir nem o ensino fundamental. Durante alguns anos tentei engravidar, mas nunca deu certo, e eu me sentia frustrada, pois eu queria muito ser mãe. Após alguns exames e consultas, descobri que tinha dificuldades para engravidar e teria que fazer um tratamento para poder ter filhos. Como eu morava na zona rural, não tinha como ficar indo e voltando constantemente, então acabei não realizando o tratamento. Passados alguns anos veio uma gestação, ela não foi planejada, para falar a verdade, ela foi uma grande surpresa. Eu já tinha desistido e imaginava que nunca iria ser mãe, então quando veio o positivo foi um misto de sentimentos, fiquei radiante de alegria e ao mesmo tempo uma preocupação me consumia por completo: não sabia se iria conseguir ser uma boa mãe, se teria condições de criar uma criança, comecei a sentir medo do futuro. 

Mas aos poucos fui deixando o medo para trás e só imaginava a chegada do meu bebê; desde muito nova eu pensava em casar e ter filhos, pensava em formar uma família grande, envelhecer ao lado do meu esposo, era um sonho de menina mesmo, e parecia que o meu sonho estava finalmente se concretizando com a chegada do meu filho. Mas a vida não ocorre exatamente como imaginamos; após o nascimento do meu filho me separei e fui morar na casa da minha mãe durante um tempo. O homem com quem imaginei construir uma família me abandonou, e também abandonou o seu papel de pai.

Passei um longo período com uma tristeza profunda, pensei em muitas vezes em desistir de tudo, mas quando olhava para um ser que dependia exclusivamente de mim, eu tirava forças para seguir, e graças a Deus segui, o meu filho é o maior motivador da minha vida, não importa o quanto as coisas estejam difíceis eu sei que irei conseguir pelo o meu filho. Assim que o meu filho começou a tomar mingau eu fui em busca de trabalho, já trabalhei em diversas coisas: babá, garçonete, atendente, diarista, auxiliar de limpeza… O serviço que aparece estou fazendo, não reclamo de trabalhar, dando para sustentar o meu filho está bom. Até hoje não tenho uma relação amigável com o meu ex marido e ele não procura saber do nosso filho e nem ajuda na criação, simplesmente vive como se a criança não existisse. Mas assim, eu amo ser mãe, eu nem sei explicar como é maravilhoso ser mãe, mesmo com todas as dificuldades que enfrento. Eu me sinto realizada com a maternidade, sou uma mãe bem carinhosa, me considero uma mãe coruja. Ele é uma benção em minha vida e nem faço questão da presença do pai na vida dele, aliás o meu filho está bem melhor sem ele. 

O meu filho é uma criança muito extrovertida e super agitada, então tá sendo muito difícil mantê-lo em isolamento social, ele sente falta dos coleguinhas da escola, dos primos, dos avós, sempre pede para levá-lo para passear, mas não dá, sabe? É muito complicado fazer uma criança seguir todas as orientações de higienização. Então ele vive inquieto, sempre de um lado para outro dentro de casa, brinca, desenha, assiste, mas nada parece o satisfazer. Mesmo em casa, sinto-me exausta, não tenho tempo para descansar, pois estou sempre arrumando e cuidando do meu filho que, aliás, está sempre com bastante energia para gastar. Também não tenho como sair para espairecer a mente devido a pandemia, a única coisa que faço é conversar com os meus familiares através das redes sociais. No início isso parecia até animador, imaginava que seria algo temporário e logo estaríamos juntos novamente, mas agora está tudo tão desanimado, só quero que tudo isso acabe e eu possa voltar a se reunir com a minha família e com os meus amigos.

 Quando penso no antes da pandemia, só posso dizer que a vida não era fácil, mas eu vivia sem esse sentimento de medo 24 horas por dia. Podia conviver com os meus amigos e familiares sem nenhuma restrição; o meu filho tinha iniciado os estudos em uma escola infantil aqui próximo de casa e estava bem empolgado e eu podia ir em busca de emprego com mais frequência, tudo seguia dentro da normalidade. Sei que pode soar estranho o que vou dizer, mas espero que entendam, para mim a  pandemia teve o seu lado bom, eu estava desempregada há meses, só fazendo umas diárias aqui outra ali, dava mal para o sustento básico de casa. Quando começou a pandemia o Intoacre (Instituto Nacional de Traumatologia e Ortopedia do Acre) foi readaptado para atender as pessoas infectadas pelo coronavírus e precisou ampliar o quadro de funcionários da unidade, foi então que recebi a proposta para trabalhar como auxiliar de limpeza, e após muitos meses desempregada finalmente tive a oportunidade de emprego. Eu trabalhei durante seis meses até que o meu contrato expirou. Trabalhar naquele local era exaustivo, além de correr o risco de contrair a Covid-19, tínhamos que estar sempre intensificando os cuidados na higienização e alertando os familiares dos internados que se encontravam angustiados, alguns até desesperados, e acabavam esquecendo das medidas de prevenção. O mais difícil era ver tanta gente indo a óbito; uma coisa era ver as notícias na televisão, outra era estar ali próximo àquelas vítimas do coronavírus, era uma pressão psicológica enorme. Apesar de ter  trabalhado em um local com exposição a Covid-19, graças a Deus, eu não cheguei a contraí-la, e sempre estou tomando os devidos cuidados e tenho ingerido bastante chá de limão com alho para ajudar nos cuidados da minha imunidade. 

Tenho consciência que o isolamento social é para o bem de todos, mas tem sido tão difícil passar esse tempo todo sem poder me reunir com os familiares… Na minha família tem bastante idosos e é por este motivo que tenho procurado tomar todos os cuidados necessários, não quero perder ninguém, não estou preparada para perder ninguém. Só quero que tudo volte ao normal, quero poder estar perto da minha família; tenho uma avó de 94 anos e desde que começou a pandemia que não a visito, apesar de ela não morar muito longe da minha casa, prefiro não arriscar, quero todos vivos quando essa pandemia acabar. 

Atualmente moro só eu e o meu filho (de quatro anos) e resido no bairro Calafate em um apartamento alugado. Estou desempregada e a fonte de renda para o sustento da minha família tem sido o programa social Bolsa Família. Por ser beneficiária deste programa, recebi o auxílio emergencial automaticamente, e graças a isso tenho conseguido pagar o aluguel, luz e manter a alimentação do meu filho. Agora, com o fim do auxílio emergencial receberei apenas R$117,00 do Bolsa Família e não terei condições de seguir com a quarentena. Precisarei ir em busca de emprego para pagar ao menos o local em que moro. Tenho passado noites em claro pensando nessa situação, mas é necessário, terei que dar um jeito e que Deus me guie e me proteja.

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