No dia primeiro de dezembro de 2020 iniciei uma conversa com a Dona Eliane. Ela nasceu em Rio Branco no dia 08 de julho de 1976 e tem três filhos. Ela contou para mim, Jessica Matias, a sua realidade durante este período de pandemia.

Covid19, Gravidez na adolescência, avó

Sou Eliane Gomes, tenho quarenta e quatro anos, me considero parda e sou moradora do bairro Ilson Ribeiro, Calafate. Sou casada e tenho três filhos, duas moças e um rapaz. Dois já são maiores de idade (27 e 26 anos) e apenas a caçula de dez anos mora comigo. Meu esposo é pedreiro e atualmente eu trabalho como secretária do lar e também sou revendedora de cosméticos. 

Antes de entrarmos em quarentena podíamos sair com tranquilidade e nos divertir com os amigos; minha filha ia para a escola, brincava e passeava com as amigas; o meu esposo sempre estava realizando algum serviço; eu trabalhava como cuidadora de idosos. Quando íamos trabalhar, deixávamos a nossa filha na casa dos avós; e sempre ia visitar os meus filhos e netos, era uma rotina tranquila. 

Com o isolamento social as coisas complicaram, fui dispensada do emprego, por segurança e prevenção, a família decidiu por eles próprios cuidarem dos idosos durante a quarentena, e o meu esposo teve redução nos serviços e, consequentemente, as contas foram acumulando, então para ajudar nas despesas de casa comecei a revender cosméticos. 

Logo no início da quarentena a minha família contraiu a Covid-19, meu esposo e minha filha apresentaram sintomas leves, como eu tenho rinite alérgica os sintomas foram mais fortes. Nos primeiros dias nem imaginamos que se tratava do coronavírus, mas com o passar dos dias fiquei muito ruim, era uma febre que não passava, tosse, falta de ar e um cansaço horrível. Me dirigi a UPA e realizei o teste (Teste RT-PCR), e o resultado do exame diagnosticou a Covid-19. Segui com o tratamento em casa e graças a Deus nos recuperamos sem nenhuma sequela. 

Após a recuperação, resolvi ir em busca de um emprego e foi bem difícil de encontrar. Passei três meses desempregada até que consegui, atualmente trabalho em uma residência em que os moradores já contraíram a Covid-19. Acredito que por este motivo se sentiram confortáveis em contratar alguém. Com a necessidade de trabalhar, preciso deixar a minha filha sozinha em casa, antes ela ficava aos cuidados dos avós, mas devido a pandemia decidimos por ela não frequentar mais a casa deles, por prevenção mesmo, morro de medo de levar o vírus e contaminar os meus pais. Antes de sair para o trabalho, deixo a comida pronta e separada para ela se alimentar durante o dia, saio cedo e ela fica dormindo. Sem as aulas presenciais, ela fica cada vez mais tempo no smartphone assistindo vídeos, e no decorrer do dia ela faz as atividades escolares que são mandadas pela professora diariamente no horário das treze horas. Como ela fica o dia inteiro em casa, comecei a designar pequenas tarefas domésticas a ela, como lavar a louça e arrumar sua própria dormida. Meu esposo, quando chega do trabalho, faz algumas coisinhas dentro de casa, mas sou eu que realizo praticamente todas as tarefas domésticas. Sou bastante tranquila em relação a isso, já estou acostumada. 

No decorrer da quarentena a minha filha engordou bastante, está bem deprimida, apesar de ter apenas dez anos, recentemente veio a primeira menstruação dela e está com a autoestima baixa, não quer mais sair de casa para nada. Eu e meu esposo tentamos sempre conversar, esclarecer as dúvidas dela, e sempre demonstrar afeto para que ela se sinta acolhida e amada. Quando estamos todos em casa sempre fazemos pipoca e assistimos filmes juntos, são momentos aconchegantes e nem que seja por um pequeno período de tempo acabo esquecendo de todas as dificuldades, gostaria de passar mais tempo com a minha família, mas a necessidade de trabalhar não permite. 

Não planejei minhas duas primeiras gestações: quando engravidei pela primeira vez tinha dezessete anos, não tinha muito conhecimento sobre os métodos anticoncepcionais, tanto que engravidei novamente alguns meses depois do nascimento da minha primeira filha. Só após a minha segunda gestação que comecei a fazer o uso do anticoncepcional. Cheguei a concluir o ensino fundamental, mas quando tornei-me mãe tive que interromper meus estudos, e quando os meus filhos estavam maiores a minha prioridade era trabalhar para não faltar nada a eles. Já a minha terceira gestação foi planejada, queria muito ser mãe novamente, com o crescimento dos meus filhos fui me sentindo sozinha e logo imaginei que eles constituíram famílias e iriam embora de casa, então eu e o meu esposo decidimos por mais uma criança. 

Hoje em dia, os meus filhos maiores de idade já constituíram famílias, um mora no interior e está sendo difícil não poder ir visitá-lo, estou com tanta saudades, mas ele não quer que eu me arrisque e vá até ele e estou aqui esperando tudo se normalizar para ir vê-lo. A outra mora aqui na cidade mesmo, mas devido a esta pandemia não posso visitá-la com mais frequência como eu gostaria. Ela perdeu o esposo alguns anos atrás em um acidente de trânsito e está cuidando das crianças sozinha, eu a ajudo sempre que posso. Posso dizer que meu maior medo atualmente é falecer e deixar os meus filhos e principalmente os meus netos que não têm mais o pai e precisam muito da minha ajuda. Apesar de todas as dificuldades que tenho que enfrentar, me considero uma mulher forte por não ter desistido de tentar dar o melhor de mim para a minha família e, sem sombras de dúvidas, sou muito feliz por ser mãe e avó. 

Eu imaginava tanta coisa sobre a maternidade, só coisas positivas, é claro, mas quando tornei-me mãe a realidade foi bem diferente, me vi diante de tantas dificuldades e preocupações, abdiquei de coisas, parei de me cuidar para cuidar apenas dos meus filhos. Imaginava que com o passar dos anos e com o crescimento das crianças poderia retomar os planos que tinha para a minha vida, que poderia me cuidar, mas a vida me mostrou que não é bem assim. Com o passar dos anos as prioridades foram mudando, o que eram planos a longo prazo foram perdendo espaço para o que era necessário a curto prazo. Posso dizer que não existe mais o eu, não sei quanto tempo faz que não faço e nem penso em algo apenas voltado para mim, o eu se perdeu no meio da jornada de mãe, agora só existe o nós, sempre penso na família, para a família; mas não me arrependo de nada, pude cuidar dos meus filhos e agora posso ajudar a cuidar dos meus netos, que são tudo na minha vida e isso é o que importa. 

Quando tudo se normalizar, e espero que seja logo, quero programar uma viagem para um lugar que tenha praia, quero ir com o meu esposo, filhos e netos conhecer o mar, acredito que vai ser um momento especial para todos nós e pretendo realizar esse sonho. Eu como mãe sou bastante apegada a meus filhos, queria poder estar sempre junto a eles, queria que todos ainda estivessem morando comigo. As mães que ainda tem a oportunidade de estar com seus filhos devem aproveitar cada segundo junto a eles, infelizmente não viveremos para sempre, mas podemos eternizar esses momentos nos nossos corações. Agradeço a Deus por ter me dado a dádiva de ser mãe e por estar me abençoando com saúde para continuar junto a minha família.

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