Na tarde chuvosa do inverno amazônico, em 4 de dezembro de 2020, Valquíria conversa comigo, Aline Paiva, através do aplicativo Whatsapp sobre os desafios que a pandemia impôs a ela, seu marido e suas duas filhas. Nascida em São Paulo, capital, no dia 28 de fevereiro de 1970, é bióloga, mestra em Recursos Florestais. É professora no ensino superior. Se autodeclara parda e reside em Rio Branco, capital do Acre, no bairro Tropical.

Maternidade na pandemia; Covid19; Home-Office; Internet; 

Valquíria inicia seu relato falando sobre a maternidade em sua vida e descrevendo sua relação com as duas filhas:

“As minhas duas gestações foram planejadas, eu quis ter as minhas duas filhas. Para os padrões acreanos eu sou uma “mãe velha” [risos], pois fui mãe depois de já ter feito o mestrado, estava trabalhando e já tinha certa estabilidade. Estava com meu marido há três anos quando nasceu a minha primeira filha, e agora está com quatorze anos, vai fazer 15 em fevereiro. Depois de cinco anos nasceu minha segunda filha, e também foi super desejada. E então eu já era professora na universidade e estava mais tranquila. As minhas duas gestações foram ótimas, as meninas nasceram através de partos normais e humanizados. Fui atrás dessa história de parto humanizado, porque eu queria garantir que não só a gestação fosse legal, mas que o parto também fosse uma experiência muito boa, tanto pra mim quanto pra elas. O primeiro parto não foi simples, foram 57 horas de trabalho de parto, mas seguindo todos os meus instintos e tudo o que eu queria era ter o parto normal e eu consegui. Elas foram amamentadas, a mais velha até um ano e três meses e a mais nova até dois anos e meio. Não é fácil ser mãe, no sentido do que é essa disponibilidade, muitas vezes a perda da individualidade, acho que isso é muito claro. Eu sempre fui muito consciente do momento que eu queria ser mãe, então nunca tive problemas, porque era um desejo ser mãe. A não ser que eu não tivesse um companheiro, eu não me via sem ser mãe, sempre desejei ser mãe. E sempre desejei ser mãe de meninas. E estou muito feliz por isso, a mais velha já tinha seu nome antes mesmo dela nascer, eu já sabia que iria tê-la. Os nomes das minhas duas filhas têm uma ligação com músicas e que sempre fizeram parte das minhas histórias e eu gosto muito dos sons dos seus nomes. Eu nunca tive medo de ser mãe, acho que meu maior medo agora, é ser mãe de adolescentes. Esse é o medo que estou enfrentando agora, porque é quando o mundo chega de uma forma muito abrupta às vezes, e temos que dar conta desse mundo. Sou uma mãe muito amorosa, nós temos uma relação de muito amor. Sou uma mãe bastante carinhosa, mas também sou bastante brava quando tenho que ser e tento deixar claro os limites. Tento ao máximo incentivá-las e também a entender a questão do feminino, do ser mulher. Penso na autonomia delas, que elas precisam aprender a serem autônomas em todos os sentidos da vida, e devem ter a prática do cuidado: de cuidar de onde nós vivemos, de cuidar das coisas delas e de cuidar de si mesmas. Incentivo a criatividade, a percepção da natureza… a gente tenta ao máximo (ou o que é possível) despertar essa percepção em relação ao mundo, às coisas exteriores, ao que o mundo pode nos proporcionar de bonito. Somos muito musicais em casa, o que eu acho bem legal. Tem muita coisa que eu tento trazer para elas de experiências, de coisas boas. Não é um mar de rosas, eu tenho os meus limites, defeitos e erros, obviamente. E muitas vezes já pedi desculpas quando eu senti que havia errado e tive a humildade, até mesmo sofrendo por falar: “Sim eu errei, não sou perfeita! Como todo mundo acerta e erra, não é porque sou mãe que sou perfeita”. Mas acho que temos uma relação bem legal. Busco ser amiga, mas, como já disse para minha filha mais velha, eu vou ser sua super amiga, mas tem uma hora que a mãe vai ter que ser muito mais forte, porque é a mãe que vai trazer o limite. A amiga não tem essa coisa do limite, de falar: Isso tá errado e você não vai além disso! Pelo menos por enquanto a mãe vai estar muito mais presente em alguns pontos. Eu tenho vontade de mostrar tudo de lindo desse mundo, do que nos cerca, através dos detalhes, no cotidiano, acho que é coisa de bióloga… Mas, muitas vezes a gente não consegue, porque chega muita coisa que não é boa para nós, através dos jornais e da internet, das redes sociais. Temos que ir digerindo isso juntos e aprendendo, e acho que faz parte também. Espero estar sempre junto com elas acompanhando até onde eu puder ir.”

Em seguida a entrevistada relata sobre a rotina familiar e a divisão de tarefas domésticas antes e durante a pandemia:

“Sempre tivemos alguém que nos ajudava/ajuda, pois nossa rotina antes era muito mais intensa, com horários e atividades. Esse ano as meninas estavam experimentando ficar mais tempo na escola. Três dias na semana elas ficavam o dia todo na escola. Mas os dias das duas não coincidiam, então, na verdade, todos os dias da semana nós tínhamos o compromisso, eu ou meu marido, de levá-las para a escola e buscá-las no intervalo do almoço e levá-las novamente para a escola. Eu também estava muito mais presente, com diferentes atividades na UFAC. Meu marido trabalha na rodovia Transacreana, na Comissão Pró-Índio, uma ONG que fica bem distante de casa e dos nossos itinerários. Então, a mobilidade e os horários eram bastante complicados. Todos estavam muito mais ocupados com essas atividades externas e, por isso, sempre precisávamos muito de uma pessoa que nos ajudasse. Bom, durante a semana a gente sempre contou com essa pessoa, mas claro que sempre existiram coisas que competiam somente a nós [família]. E cada um tinha/tem a sua responsabilidade. Alimentar os cachorros, limpar os cocôs dos cachorros [risos]… as meninas dividem esse cuidado com os cachorros, é responsabilidade delas. Também arrumar a cama à noite ou pela manhã, fazer o lanche da noite. Já nos finais de semana distribuímos ainda mais as atividades entre nós. Eu e meu marido temos, além da casa, temos as compras em supermercado, acompanhar as meninas nas tarefas, nos estudos. Sempre tem coisa para fazer, não falta! A pessoa que trabalha para nós obviamente tem um limite, o resto compete à nossa organização pessoal e não à pessoa que está trabalhando conosco. Com a pandemia ficamos quase sete meses sem que ela viesse em casa, porque tomamos todos os cuidados mesmo. E foi nesse período que participei do processo de seleção para o doutorado, então eu estava estudando e fazendo tudo, organizando as tarefas e tentando dividir as tarefas diárias. Eu sou a maior responsável por dividir as coisas, a administração era/é mais minha e, embora as pessoas estivessem ajudando, quem estava vendo quem tinha que fazer o quê e quem tinha que cobrar muitas vezes era eu. Ficamos seis meses, quase sete, vivendo o que vivíamos nos finais de semanas com muito mais intensidade, lavar roupa, pendurar, dobrar, guardar, fazer almoço, arrumar a cozinha, quem vai lavar os banheiros, as áreas, tudo isso tinha que ser dividido… A parte chata de ficar cobrando, de mostrar que não fez a sua parte, ou tá faltando isso ou aquilo, ficou para mim, o que é bastante cansativo. Existia uma rotina, certa divisão de tarefas e na pandemia essas atividades se intensificaram. Mudou muito, tivemos que reorganizar tudo, cada um teve que entender que tinha mais, ou diferentes responsabilidades. Afinal, não sou a única moradora da casa, dividimos o mesmo espaço, cada um tem que ser responsável pelo bem estar de todos nós e do espaço coletivo. As meninas começaram as aulas remotas, todas as manhãs. Nesse momento em que ficamos sós, nós mudamos drasticamente. Continuamos pagando e mantendo o vínculo empregatício [referindo-se a pessoa que a auxiliava nas atividades domésticas]. Mas posteriormente tivemos que mudar, estabelecemos protocolos de segurança, para que essa pessoa pudesse voltar ao trabalho, com menos riscos, tanto para ela, como para nós. Porque já estava todo mundo meio que pedindo arrego, infelizmente, e minhas aulas de forma remota também iniciaram. Ou mudávamos para uma casa menor, o que simplificaria a vida, só que temos sete cachorros. Diminuiria o trabalho, diminuiria tudo mais, mas, na verdade, não tinha como. Eu tenho as minhas atividades dentro do doutorado e meus compromissos na UFAC, meu marido continuou trabalhando em home office e as meninas estudando… Teve uma hora que estávamos muito cansados de tudo isso, da rotina de muito mais trabalho e de uma cobrança sempre por muito mais, um estresse. Engatamos uma rotina “de tenho que fazer”, a duras penas. As pessoas precisam entender que tarefas domésticas existem (e não tem fim) e tem que fazer e pronto. Quanto mais simples e organizados formos, e se cada um fizer sua parte, menos estresse e menos trabalho será para todos. Esse é o grande aprendizado: existem essas tarefas, e não vamos acabar com elas; existe um espaço que é coletivo, compartilhado por todos e que precisamos dividir essas tarefas. Um grande aprendizado do dia a dia, que é preciso haver um grande esforço por parte de todos. Tem tanta coisa que é preciso lidar em casa para que tenhamos bem estar e qualidade de vida. É um grande dilema, esse tempo que às vezes a gente acha que tá jogando fora, mas de qualquer forma é bom estar numa casa, estar num lugar que é organizado, limpo, tranquilo. É muito importante, pelo menos para mim, tem pessoas que possuem outros padrões ou percepções, mas para mim é muito importante. Eu consigo trabalhar num lugar assim, mas, se a casa está bagunçada eu nem consigo trabalhar, eu vou primeiro organizar para depois trabalhar. E acho que nesses espaços coletivos a gente precisa fazer esse esforço para ficarmos bem. Ninguém reclama quando está organizado [risos], mas quando está sujo ou desorganizado, talvez alguém não se importe tanto, mas talvez outras pessoas ficarão incomodadas e acho que a qualidade de vida não é tão legal quando não temos um espaço limpo e minimamente organizado. Acho que são vários aprendizados, entender o nosso lugar e espaço, como nos sentimos bem nesse espaço, como que dividimos a organização desse espaço. Essa responsabilidade compete a todos, realmente foi essa grande mudança, um grande aprendizado do conjunto familiar e a casa, estar em casa juntos. Quando a pessoa que nos ajuda/trabalha em casa voltou, ela retomou o seu trabalho com menos tarefas, e continuamos dividindo as tarefas com ela. Diminuiu o tempo que ela fica na nossa casa (e ela usa máscara o tempo todo que está em casa). Quando ela retornou, o meu marido se retirou mais, porque ele está com mais responsabilidades no trabalho dele, mais do que eu, pois estou “apenas” com as atividades do doutorado. E isso não quer dizer que eu não tenho as minhas responsabilidades. Mas ele se retirou um pouco mais dos trabalhos domésticos, ficando mais responsável pelas compras, principalmente, por fazer as tarefas mais externas… quase não saímos de casa, e quem sai mais de casa é ele. E deixo também algumas atividades para as meninas, elas ainda continuam com responsabilidades. Mas ainda acho que ficou um pouco mais pra mim, e ainda continuo na função de realizar divisão e a parte bem chata de cobrar as tarefas. E em relação ao acompanhamento das tarefas escolares, eu estive sempre mais presente, por exemplo.”

Com relação a como suas duas filhas estão passando por esse momento e toda a mudança em decorrência da pandemia:

“Elas sentiram muito. Temos uma casa com quintal, então isso é muito legal. Moramos perto de uma matinha, a gente está num cenário doméstico que é muito tranquilo, bonito… fico pensando em criança que mora em apartamento, que não tem quintal, que não tem verde por perto, é muito mais estressante para a criança que está sozinha e não tem irmão e não tem bicho. Então aqui temos essas coisas que amenizam toda essa situação. Quanto à internet tem dois lados, é muito ruim, porque foi absorvendo tudo, com tudo online. Mas também tem o lado bom, porque propiciou a conversa entre elas e seus amigxs, principalmente minha filha mais velha. Mas a menor também conversa e se encontrou virtualmente com as amiguinhas, agora menos, mas fez bastante isso. Já trocaram ideias e brincadeiras, até mesmo brincaram pelo aplicativo Whatsapp. A rotina se tornou, de repente, aulas online, e muito tempo no celular, vendo TikTok [aplicativo de celular que se popularizou entre crianças e adolescente durante a pandemia] e joguinhos, ou conversando com as amiguinhas, alternando com a  TV e computador, entre algumas tarefas domésticas. Por mais que tentássemos incluir outras atividades, todos, no final fomos capturados, passamos muito mais tempo em frente às telas, e isso é uma perda. Foi muito ruim o processo de adaptação às aulas para elas. Elas até se adaptaram, mas sentiram muito a falta da escola, a falta de interação com as crianças. Muitos problemas de acesso, principalmente minha filha mais nova que saía da conexão e não conseguia voltar. Elas sentem falta desse convívio, porque afinal ficamos apenas elas e nós [mãe e pai]. Elas têm uma diferença de idade considerável, a mais velha já é adolescente. A mais nova deu um salto devido estar convivendo mais com a irmã. Elas estão sentindo muito porque o convívio social passou a ser o da internet. Por um lado foi o que deu uma anestesiada e por outro invadiu a nossa casa, todo mundo muito na história da internet, e de várias outras formas de comunicação. Elas estão cansadas e estão sentindo falta [da escola, dos amigos]. A duras penas foram se adaptando e conseguiram cumprir o ano letivo, estão fechando as provas do quarto bimestre. O resumo de tudo é que elas sentem falta de estar junto com as pessoas, de estar junto com outras pessoas, adolescentes e seus amigos.”

A entrevistada faz uma reflexão sobre a atuação da internet para ela e sua família:

“Estou com bastante dificuldade, eu acho que a internet para mim está sendo um dos grandes problemas em casa. Falando em manter as relações saudáveis. A internet está sendo muito vilã, tendo um papel forte nesse sentido de nos afastar. E está sendo bastante difícil porque quando a gente quer trazer as pessoas para um convívio maior, temos que fazer um esforço para que haja esse convívio. Antes não tinha que fazer esforço para o convívio e agora muitas vezes fica muito ligado às tarefas, não tem outra atividade mais legal, mais atraente. O convívio real perdeu muito espaço, é necessário um esforço para que aconteça, antes era mais natural, agora não.  Acho que gostaria de dar esse destaque aos dilemas da internet, o que ela nos proporciona e o que ela nos retira. As inclusões e exclusões, tanto em relação ao âmbito familiar, quanto ao âmbito social. Estamos vivendo algo que está sendo naturalizado, e estamos anestesiados. Estão acontecendo profundas mudanças na forma de nos relacionarmos, de nos comunicarmos, de aprendermos, de sentirmos. E ainda não temos a verdadeira dimensão dos efeitos colaterais de tudo isso. A pandemia contribui imensamente para a aceleração desse processo e o que sinto é que não estamos dando conta disso e estamos exaustos.”

Sobre as primeiras notícias e impressões com relação à Covid-19 e sua chegada ao Brasil:

“Quando começamos a ouvir sobre a Covid-19, eu não imaginava que chegaria a esse ponto e que seria dessa forma, ou atingiria as proporções que atingiu aqui no Brasil. Não imaginava que seria isso e por tanto tempo. Não acreditamos que os governos não tomaram as providências que deveriam ser tomadas em relação ao isolamento para que não fossemos atingidos ou menos atingidos. Porque estava tão óbvio tudo o que estava acontecendo em outros países e porque não foram tomadas as medidas cabíveis para que não chegasse até nós dessa forma? Eu acho que foram muitos problemas de condução pelos governos e também o comportamento das pessoas. Vivemos um contexto de negacionismo, um momento político que contribuiu ainda mais para a situação que chegamos. Por isso que nos causa mais espanto, já que poderia ser evitado e muito mais amenizada toda essa situação. Talvez, se a gente tivesse em um outro contexto, tanto político quanto social, a forma como a sociedade está reagindo e se portando diante de tudo isso, causa espanto, indignação e dor!. Enfim, não tínhamos a menor noção de que seria isso, de que seria tão grave e duraria tanto tempo. Quando percebemos que a questão estava bastante séria, decidimos que as meninas não iriam mais para a escola, antes mesmo da escola oficializar que as aulas presenciais não iriam mais ocorrer. Eu também tive essa clareza maior quando os meus próprios alunos me alertaram sobre o que estava acontecendo e as possibilidades de adoecermos todos e até mesmo morrermos. Porque até então eu achava que tudo ainda estava meio distante, um dia antes [no dia 15 de março] tivemos uma reunião de amigos, fomos num aniversário; foi a última vez que nos encontramos com os nossos amigos. O vírus ainda não tinha chegado aqui, mas de repente chegou e quando percebemos a seriedade, já nos trancamos e nos isolamos. Mas acho que muitas coisas teriam sido amenizadas e não teriam ganhado essa proporção, se tivéssemos vivendo um outro momento político e as pessoas tivessem mais educação no sentido de entender profundamente a situação.”

Com relação a algum tipo de cuidado especial com a saúde:

“Os meus sogros exigem cuidados constantes e eu tenho crises de bronquite e isso me assustou um pouco. Mas eu fiz um tratamento preventivo que ajudou muito e tive apenas uma crise e que foi antes desse tratamento. Depois disso, não tive mais.”

Caso de algum familiar ou amigo se contaminou com a Covid-19:

“Familiares pegaram a Covid-19, mas graças a Deus ninguém apresentou sintomas graves, da família do meu marido. Eu não tenho família aqui e ninguém da minha família (que mora em outras cidades) pegou. Alguns conhecidos pegaram e alguns chegaram a falecer.”

Sobre o trabalho, alguma perda ocasionada pela pandemia ou queda no rendimento financeiro da família:

“Graças a Deus não tivemos perdas nesse sentido (dos nossos empregos). Mas com certeza afetou o rendimento intelectual. Trabalhamos em home office e, no meu caso, coincidiu com o pedido de afastamento para o doutorado. O processo seletivo foi em maio, então, no início da pandemia eu tive que combinar os estudos e a reelaboração do projeto, com toda a carga emocional e adaptação à nova rotina. Foi uma grande luta interna para poder dar conta.” 

Para o futuro:

“Em relação a nós, como família, tínhamos, mas talvez ainda tenhamos a perspectiva de mudança daqui do Acre para ficarmos quatro anos em São Paulo. Meu doutorado é na ESALQ-USP em Piracicaba, onde eu fiz o meu mestrado, e é para onde eu voltaria agora com a minha família. Mas desejo principalmente que eu possa fazer o que eu planejei no meu doutorado, meu trabalho de campo com as populações tradicionais, com os Quilombolas, os Caiçaras e com os Guarani. No meu doutorado preciso estar interagindo com todos eles, visitando as comunidades, então estou rezando para que tudo dê certo e essa vacina dê certo, e que possamos ter essa mobilidade, que eu possa realizar minha pesquisa! Esperei por muito tempo para poder fazer o doutorado, estou há onze anos na universidade e somente agora eu consegui e quero muito ter essa oportunidade de voltar para minha terra, voltar às origens e mesmo sendo Piracicaba, é São Paulo, e quero oferecer outras experiências, cenários para as minhas filhas. Os planos mais imediatos seriam esses, de conseguirmos concretizar o que venho planejando já há um tempo.”

Quanto aos aprendizados que a pandemia trouxe:

“Temos os aprendizados pessoais, da família e da sociedade(?) Acho que já falei isso um pouco anteriormente. Quanto ao aprendizado familiar, tivemos que aprender várias coisas nesse sentido de estarmos juntos, de cuidar do nosso espaço; [de fazer] os próprios trabalhos domésticos. As meninas aprenderam a fazer algumas coisas de comida, fizemos bolos, aprenderam a fazer arroz, macarronada [risos], não vão passar fome se eu não estiver em casa [risos], coisas que não faziam antes e passaram a fazer. Aprenderam a fazer coisas dentro de casa [risos] que eu acho importante, só que as pessoas não dão valor a isso, acho que sabem se virar, fazer comida, arrumar a casa, lavar um banheiro, por exemplo. E parece bobo, mas é um aprendizado sim e deve ser valorizado também. Aprender a respeitar mais os espaços e o  coletivo e dar bastante valor às coisas que temos. Deixamos isso muito claro: o quanto temos, alguns pequenos (grandes) privilégios frente à muitas pessoas. Ficamos mais atentos à fragilidade da vida, valorizamos a vida. A consciência de o quanto é ruim toda essa situação, mas também o quanto é bom termos as condições que temos e a proteção que temos de alguma forma, a fragilidade que é a vida. Acho que é isso um pouco da nossa reflexão de casa. Algumas vezes as meninas questionam as religiões; não temos nenhuma religião definida, mas fiz questão de deixar claro que existe uma diferença entre religião e espiritualidade. Enfim, percebemos o valor da mobilidade e dá certa liberdade que temos, acho que esse valor foi dado, e as pessoas começaram a ver de uma forma diferente. As meninas começaram a ver como as pessoas são irresponsáveis e desprezam a questão da coletividade, elas ficam bastante perplexas com isso. Quando elas questionaram a religião, uma das frases foi: “O que adianta ir para a igreja, falar que acredita em Deus e fazer o que estão fazendo com a natureza? Fazer tudo o que está sendo feito que a gente tá vendo e sentindo?” Isso é uma noção de realidade delas muito legal, então esse é um ponto para trazer como aprendizado também dentro desse âmbito familiar. Acho que não chegamos nessa consciência de realidade como sociedade, já existem várias pesquisas e vários artigos escritos mostrando que essa pandemia tem uma relação direta com a forma, como nós estamos habitando o planeta e usando os recursos. Muitos vírus estão presentes nas florestas que estão sendo devastadas, e eles podem “pular” para a espécie humana justamente pelo fato de estarmos devastando as florestas e aumentando o contato com esses vírus. E nesse sentido a forma de produção animal (grandes rebanhos e desmatamento vinculado) é também um ponto importante para a transmissão de determinados vírus e isso implica diretamente em nosso consumo de carnes, a demanda por esse alimento. E eu imaginei que conseguiríamos ter um pouco mais de consciência da nossa relação com o ambiente, com o planeta. Mas parece que está todo mundo anestesiado, tudo está naturalizado… a forma de produção animal, a forma como nos alimentamos, a forma como ocupamos os territórios. Fruto de um capitalismo absurdo, que visa o lucro pelo lucro e que nos consome, somos seres que estamos sendo formatados para consumir e ao mesmo tempo estamos sendo consumidos. O quanto que a gente conseguiu nesse momento refletir sobre a questão do tempo que nós usamos para o trabalho? Trabalhar para ter, ter e ter e esquecemos de ser. O quanto a pandemia nos obrigou a olhar para o ser, quem somos, o que somos, o que estamos fazendo aqui. Mas não sei se as pessoas têm a chave para o caminho para fazer essas conexões e para fazer essa reflexão. Então não sei o quanto de fato isso vai mudar, porque percebemos que mesmo em situações de extrema vulnerabilidade e complexidade social as pessoas ainda atendem “ao comando” de uma “Black Friday” para comprar coisas supérfluas que não estão usando e que não vão usar! Tudo tem a ver com o consumo de tudo, de onde vem e para onde vão as coisas que consumimos e que somos induzidos a consumir, e a enorme quantidade de resíduos produzidos. Se deixamos de produzir determinados resíduos durante a pandemia ou produzimos menos, mas por outro lado estamos produzindo máscaras e que estão indo, com todo os plásticos, parar nos oceanos da mesma forma. É bastante difícil falar sobre futuro, acho que uma das coisas que temos como aprendizado na sociedade é que cada vez mais está tudo inconstante, cada vez mais não temos certeza de muitas coisas e não sei o quanto consigo ser otimista, apesar de saber que tenho que acreditar, justamente pelas minhas filhas. Mas eu não tenho certeza, na verdade, de nada, cada vez mais a gente consegue planejar menos. Recentemente eu tive contato com a obra de Bauman [foi um sociólogo e filósofo polonês] e ele é o cara da atualidade. Gostei muito do que ele fala sobre a modernidade líquida, eu acho que é bem isso que estamos vivendo. Acho que só sei que nada sei, tinha mais esperanças e talvez agora tenha um pouco menos nessa mudança da humanidade, mas isso não quer dizer que eu tenha parado de acreditar totalmente. Porque eu continuo fazendo, não parei de fazer as coisas que acredito e que possam provocar mínimas mudanças. Ainda continuo na busca e acredito que a educação é um caminho extremamente importante para tudo isso. E como educadora preciso acreditar que ainda é possível fazer coisas, que tem a ver comigo, com minha família e eu como professora, na formação de pessoas e de profissionais mais responsáveis, mais sensíveis, para talvez amenizar ou reverter as incertezas todas desse futuro. É bem complexo, na verdade, temos que acreditar muito no humano, em nós como humanos; o que há de mais humano em nós, que é inclusive a nossa fragilidade, a consciência da impermanência. E o que há de mais humano em nós é o amor. Precisamos buscar isso de todas as formas, nos reconectando com nós mesmos. Entendendo a nós mesmos, a partir das nossas famílias e casas, que isso vai reverberando junto com a nossa responsabilidade e papel social. Então é necessário uma profunda consciência e conhecimento de tudo isso – que fazemos parte de um todo, de uma reflexão e de uma ação, para que tenhamos mais esperança. Temos uma grande lição de casa a cumprir e de várias formas.”

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