No final da tarde do dia 09 de dezembro de 2020, Catarina relata a mim, Aline Paiva, como foi sua vivência de maternidade durante a pandemia da Covid-19 no ano de 2020. Recém-separada do pai de sua única filha, Catarina faz uma reflexão sobre a maternidade e o quanto a experiência intensa de uma pandemia a transformou como mãe, além de reconhecer o privilégio de poder acompanhar de perto a evolução dos primeiros anos de vida de sua filha. Ela tem 34 anos, nasceu em Rio Branco, no Acre, é licenciada em biologia, possui mestrado e é servidora pública. Mora com sua filha em Rio Branco e se autodeclara branca.

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Catarina inicia seu relato contando sobre como a maternidade aconteceu em sua vida, se foi uma experiência planejada ou não:

“A maternidade sempre foi algo assustador para mim. Eu nunca tive vontade de ser mãe, então não foi planejado. Mas a minha filha veio de uma forma que parece que foi planejada [risos]. Ela veio numa idade que considero boa (aos trinta e dois anos) e logo no fim do mestrado que eu estava fazendo em outra cidade. Além disso, eu estava em um relacionamento estável e financeiramente estável também. Estava numa fase muito bacana da minha vida. Foi um susto, mas eu levei numa boa, não foi algo que me impactou, foi tranquilo”.

A entrevistada também conta como é a relação com sua filha, mesmo diante dos desafios de uma separação recente. Catarina relata com tranquilidade essa experiência e todos os demais aspectos da vivência da maternidade na pandemia:

“Com a separação, minha filha mora comigo, mas dorme pelo menos dois dias com o pai, além de passear com ele praticamente todo dia. Temos uma espécie de guarda compartilhada, ainda não fomos para a justiça porque nossa relação é muito boa. Separamos porque o amor acabou, mas a relação continua sendo boa. Sobre a relação com a minha filha eu vejo como uma construção diária, como qualquer relacionamento na verdade. A cada dia eu percebo que fica um pouco melhor, ficamos mais cúmplices, mais próximas, nos conhecemos mais, nos entendemos mais. Temos uma relação muito boa e tranquila. Tenho muito orgulho de ser mãe dela, é uma menina maravilhosa.” 

Sobre a rotina antes e depois da pandemia:

“Antes da pandemia ela ficava na creche até às quinze horas. Quando eu saía às treze ou quatorze horas do trabalho, resolvia alguma coisa e depois ia buscá-la. Levava ela para passear ou comer e depois íamos para casa. Com a pandemia eu e o pai dela ficamos em home office e tiramos ela da creche. Isso logo no início da pandemia. Eu me separei, acho que me separei no fim de março ou começo de abril. Então foi uma mudança bem brusca de rotina. Mas foi uma separação tranquila, como é até hoje. E aí teve a questão das atividades domésticas que eu não estava acostumada a fazer. Tive que dar conta de limpar a casa, fazer comida e cuidar da criança o dia inteiro. Então no início foi bem difícil, sentia tristeza e desespero e pensava “quero minha vida de volta!” Mas foi coisa de um mês isso.” 

E com relação à separação do casal ter acontecido durante a pandemia, relata que foi uma coincidência:

“Foi uma coincidência, com certeza, a pandemia não tem nada a ver com a separação. Aconteceu antes de março até, mas quando eu falo separar, conto com ele ter saído efetivamente de casa, que foi no fim de março ou início de abril. Catarina relata o quanto a pandemia a transformou como mãe:

“A pandemia mudou completamente minha visão sobre a maternidade e a minha relação com a minha filha. No primeiro mês da pandemia eu pensei: “Sério que vou cuidar de uma criança o dia inteiro? Vou conseguir? O que vou fazer?” Precisava achar formas do que fazer com uma criança, porque criança não é só cuidar, dar banho e dar comida, é preciso brincar, estimular, ensinar… E a minha filha estava só com um ano e três meses. E antes da pandemia eu estava numa zona de conforto porque ela estava a maior parte do tempo na creche E então eu saí completamente de uma zona de conforto para cair mesmo na realidade de mãe vinte e quatro horas por dia. E eu estou adorando essa realidade!! É maravilhoso poder acompanhar o desenvolvimento da minha filha. Pra mim é um privilégio muito grande; porque muitas vezes, é preciso trabalhar e deixar com babá, ou com a avó, ou na escola e você perde muita coisa do desenvolvimento do seu filho. Estou vendo cada coisa legal, todos os dias é uma coisa diferente e estou podendo acompanhar tudo isso. Eu não tinha esse pensamento lá no início da pandemia. Meu pensamento no início era: “Meu Deus do céu, não vou conseguir! Eu não quero, prefiro trabalhar!”

Sobre algum tipo de cuidado especial com a saúde antes da pandemia:

“Eu e minha filha tomamos  polivitamínico. O álcool em gel utilizamos desde que ela nasceu. E os sapatos que foram utilizados na rua ficam fora até serem higienizados.”

 Ao se deparar com as primeiras notícias sobre a Covid-19 e a chegada do vírus no Brasil e no Acre pensou:

“Lembro que fiquei fanática por jornal [risos]. Ficava o dia inteiro assistindo o jornal pra ver todas as informações, porque tinha dias que eu pensava se era sério tudo isso que estava acontecendo, meio incrédula. Mas eu ainda estava muito focada na maternidade, então não cheguei a me desesperar nem sentir medo ou algo assim. Tomei os cuidados básicos e só. Quando chegou aqui [Acre] em março, eu tinha feito viagem em fevereiro e fiquei pensando se já teria pegado e nem sabia. Confesso que nessa segunda onda estou muito mais receosa e cuidadosa.

Em relação ao trabalho a entrevistada relata:

“Estou em home office desde o início da pandemia. Foram poucas vezes que precisei ir ao meu local de trabalho. Antes da pandemia eu precisava cumprir 30h semanais. E financeiramente não houve alteração”. 

Sobre a ocorrência ou não de familiares e amigos contaminados com Covid-19, e se houve falecimento:

“Em abril eu acompanhei uma tia que ficou internada durante 28 dias no hospital Santa Juliana com Covid-19. Tive que ficar isolada da minha filha, foi muito difícil.  Minha tia é idosa, tem cinquenta e nove anos, mora sozinha, por isso precisou do meu apoio, mas não faleceu e deu tudo certo. Foi bem no início da pandemia aqui na cidade, percebi que até os médicos estavam bem perdidos.” 

Pensando sobre o futuro e a vida pós pandemia a entrevistada fala:

“Eu planejo morar em outro estado, mas acredito que não seja um plano para o ano que vem. Quero passar em um concurso que tenha um salário maior, tenho planos para a minha filha que me exigem isso, que eu ganhe mais [risos]. Não quero que minha filha more aqui no Brasil, nem eu e nem o pai dela, mas isso é o que a gente quer, tem que ver o que ela irá querer. São planos. Mas para 2021 é isso, me organizar para que esses planos sejam concretizados pelo menos em 2022. Essa mudança de estado e aprovação em concurso. E em relação à vida pós-pandemia já pensei sobre isso várias vezes. Eu não sei se a vida vai voltar ao normal. Eu não consigo ter uma resposta, pra mim tudo é um ponto de interrogação ainda, então não sei te dizer”. 

E se consegue pensar em algum aprendizado que a pandemia trouxe para a vida pessoal, profissional ou até mesmo para a sociedade:

“Com a pandemia, aprendi a dar muito mais valor ao meu emprego. Me sinto muito privilegiada em ter um trabalho e por não ter tido nenhuma alteração de salário. Quando eu vi no início muita gente perdendo o emprego, toda a noite ia dormir agradecendo muito a Deus por ter o meu emprego. E nunca me vi tão agradecida como me vi esse ano. E vi isso em muitos servidores públicos que conheço, acho que essa classe está bem agradecida, ninguém pode negar que está sendo uma classe privilegiada. Muitos estão em casa, praticamente sem fazer nada e recebendo seu salário. O privilégio de poder estar mais perto dos familiares ou de poder cuidar deles. Para mim isso tudo está sendo um grande aprendizado. As pessoas falam que 2020 deve ser um ano cancelado, mas acho que não, é um ano que vai ser para sempre lembrado. Eu sei que é muito fácil eu falar na situação que estou, com saúde, comida, emprego, é muito fácil falar isso. Mas eu com certeza me tornei uma pessoa melhor com essa pandemia. Estou bem desacreditada da humanidade, então eu não sei se o mundo aprendeu alguma coisa. Mas vamos seguir tendo esperança!” 

Para finalizar o seu relato, Catarina faz a seguinte reflexão:

“Eu queria terminar com uma reflexão que lembro ter ouvido algumas vezes de mães durante esse ano pandêmico, que estavam loucas ou não sabiam mais o que fazer. E que eu tinha vontade de dizer, mas achava melhor ficar calada. Mas pensando aqui acho que deveria ter falado, pois foi uma coisa que me ajudou muito, que foi o seguinte: no início, quando eu comecei a me desesperar, querer pirar com o cansaço da maternidade, do trabalho doméstico, do lance de dar conta de tudo, do medo do coronavírus, da saudade do trabalho, da rotina, eu pensei… vou ter que usar essa pandemia a meu favor senão vou pirar mesmo e eu nem sei quanto tempo isso vai durar, pode ser um mês, dois meses, ou um ano. E olha onde estamos, em dezembro!! Quase um ano já!! E foi então que passei a me acalmar, a partir desse pensamento fui me acalmando e pensando no privilégio que é ficar em casa. Foi aí que comecei a pensar no que eu poderia fazer agora que antes o tempo não me permitia, porque eu estava sempre ocupada, sem tempo. Fiz a pandemia ficar a meu favor. E continuo aqui firme e forte sem covid!”

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