Eu, Robenylson de Oliveira, entrevistei Lilian de Lima Oliveira no dia 14 de dezembro de 2020 pelo WhatsApp. Ela nasceu no dia 19 de dezembro de 1984, na cidade de Rio Branco, no Acre. Ela tem 3 filhos (uma menina de 8 anos e dois meninos de 14 e 18 anos), atualmente vive com os dois filhos, trabalha como funcionária pública e se autodeclara preta. Por meio do seu relato – concedido enquanto estava confraternizando com algumas amigas – conta que perdeu uma pessoa querida para a Covid-19, mas não perdeu a esperança em dias melhores depois que tudo isso passar.

Covid-19. Gravidez na adolescência. Relação boa com os filhos. Home office. Perda da amiga.

 

Lilian começa contando como foi o processo da maternidade, se houve planejamento e como é a sua relação com os filhos:

“É que eu casei quando tinha 15 anos. Eu era muito boba e não escolhi uma maternidade, entendeu? Engravidei, né? Mas eu gostei muito, fiquei muito feliz e tudo… E o relacionamento com os meus filhos é muito bom, graças a Deus. Eles me ouvem muito e eu acho isso muito importante”.

“O filho que foi planejado foi a Ester, né? Porque eu queria muito engravidar de uma menina e eu só tinha uma chance, já que eu já tinha tido duas cesarianas e, eu sabia que a terceira seria a última. Então, foi bingo, graças a Deus deu tudo certo”.

Pergunto se há divisão do trabalho em casa. Lilian responde:

“Sempre existiu a divisão do trabalho doméstico. Lá em casa é assim: sentou no vaso e colocou o pé no chão, já pode lavar uma louça [ela ri no final do áudio]. Funciona assim: a Ester sempre lava o banheiro, coloca o lixo para fora e arruma as camas; o Gabriel lava a louça e limpa a casa. Sempre foi assim e permanece na pandemia, só que durante a pandemia eles ficaram muito preguiçosos por estarem muito dentro de casa, né? Então… a enrolação é maior, mas eu distribuo as tarefas antes de sair de casa”.

Peço para ela me contar como era a rotina da família antes da pandemia e se havia algum membro da casa precisa de cuidados constantes. Ela responde:

“Os meninos iam para o trabalho comigo, essa era a rotina. Acordavam, iam para o trabalho comigo, iam para a escola deles, almoçavam comigo onde eu trabalho, né? A gente sempre providenciou o almoço… aí eles iam para a escolinha deles. Na hora da saída da escola, eu saia do meu trabalho, passava para buscar eles e ia para casa”.

“Quanto a preocupação de saúde, sempre foi comigo, né? Devido a minha imunidade baixa e tal, mas não é aquela preocupação [risos], mas eu tenho meus cuidados porque tomo meus remédios”.

Pergunto como foi a reação quando ela soube que o mundo estava enfrentando uma pandemia? Como ela ficou sabendo? Quais eram as expectativas? De que forma ela se preparou?

“A primeira vez que eu ouvi falar sobre pandemia foi no Jornal Nacional. Eu não entendi bem… eu não liguei a palavra à situação, a grandiosidade da situação. Quando ouvi falar o nome pandemia e que os governos não queriam aceitar isso, por uma questão econômica e isso era no mundo inteiro… ninguém queria aceitar que era uma pandemia. Então eu fiquei assim… até comentei com a minha amiga, que se tratava de uma pandemia e tal. Assim, eu não quis acreditar, quis ignorar e acreditei que não chegaria aqui no Acre, né? Mas chegou e não houve uma preparação, porque eu não acreditei que chegaria, sabe? Todos os dias eu acordo com aquela sensação de: meu Deus, como pode uma situação dessa ter nos afetado da forma que afetou?”

Ao ser indagada sobre as mudanças advindas da Covid-19 na rotina doméstica, nos responde o seguinte:

“A pandemia trouxe o álcool em gel. As compras são higienizadas com álcool e as sacolas também. Isso é regra! Quanto às visitas, passaram a usar álcool em gel na entrada de casa e tirar os sapatos”.

Então você não deixou de receber visitas ou deixou de receber durante um tempo e já voltou a receber?

“Durante um tempo, sim. Depois de um tempo… quando mudou de faixa, passamos a nos reencontrar”.

O que eles faziam para se entreter durante o isolamento social?

“Sim, eu e os meninos inventamos umas brincadeiras. Sempre conversamos muito, eles reclamam, mas tentamos ser felizes”.

Como anda a situação escolar das crianças?

“Assim: os professores fizeram um grupo. Como ela está no segundo ano, eu tenho que acompanhar mais a rotina dela de atividades do que a do Gabriel que está no nono ano. O Gabriel, que está no nono ano, dá conta do recado, graças a Deus. Eu só dou uma acompanhada, vejo se ele está precisando de alguma coisa ou alguma ajuda, se ele fez mesmo. Eu tenho o controle pelo meu celular. Com a Ester eu tenho um pouquinho mais de dificuldade, porque eu tenho que sentar com ela e ensinar, porque a professora dá a apostila, eu vou lá e busco, tem que fazer as atividades nos dias programados e às vezes eu não consigo, então, eu acumulo duas ou três atividades. Aí eu que lute ‘pra’ resolver, né? Eu acho isso horrível, para mim é horrível, eu tenho um terceiro turno sem querer ter, porque às vezes eu trabalho o dia inteiro… assim… então é bem difícil pra mim, porque sou eu mesmo. O meu filho de quatorze anos ajuda, só que ele não domina tudo. A obrigação é minha, então eu que lute”.

Alguém da residência contraiu a Covid-19?

“Da minha casa não, graças a Deus… mas a minha amiga que faleceu em julho, nós estivemos juntas dez dias antes dela contrair o vírus… então quando ela disse que estava com o vírus e ela começou a ficar ruim, causou na minha mente uma preocupação muito grande, porque eu estive com ela dez dias antes e eu pensava: meu Deus, será que eu também? [pausa] Mas, de qualquer forma, eu nunca imaginei que seria o motivo para o falecimento dela, não pensava isso… pensava que ela fosse sair dessa. Aí ela foi internada, entubada e faleceu. Ela era uma amiga de estar comigo aos finais de semana, gostávamos de nos reunir para assar uma carninha, conversar bobagens, ouvir uma música, tomar uma cerveja.  A gente era muito próxima… Da minha família, eu não conheço ninguém que teve… tem uma prima minha que teve, mas eu não tenho contato com ela, mas foi leve o que ela teve, entendeu? Teve, foi confirmado, deu positivo e tudo… só essa que eu sei, dos demais eu não ouvi falar. A minha avó tem 88 anos, é super saudável, a gente tem super cuidado com ela. Quando vou visitá-la, fico da grade olhando pra ela, ela conversa comigo pela grade da casa deles e eu não entro porque tenho medo. Minhas tias tomam todo cuidado com ela”.

Devido a apreensão de ter tido contato com a amiga que faleceu, houve uso de algum medicamento ou chá por ela ou membro da casa?

“Eu não fiz uso de chá, fiz um tratamento recentemente, porque outra amiga minha testou positivo para Covid, estivemos juntas uns três dias antes, antes do teste dela sair, o que significa que ela já tinha quando nos vimos. Eu senti umas dores de cabeça, fiquei nervosa… fui no INTO fiz exame e iniciei o tratamento, mesmo dando negativo”.

O tratamento foi feito por conta própria ou os medicamentos foram dados pelo INTO?

“Foi pelo INTO. Fui lá, fiz o teste e iniciei o tratamento. Quando eu fui lá estava sem febre, mas estava com falta de ar, o negócio da respiração estava tudo muito [pausa]. Mas acho que muito de nervoso, porque essa doença tem o poder de mexer com o psicológico da gente. A gente fica bem preocupado, com muito medo de morrer, porque você não sabe como que o seu organismo vai lidar com esse vírus… então… é muito complicado… a minha amiga que faleceu tinha 32 anos, super ativa, jovem, muito saudável… a gente nunca sabe como ele vai agir no corpo, né?”

Alguém da família ficou grávida ou teve bebê?

“Da família não, ninguém ficou grávida, mas sei de algumas pessoas que eu conheço, como: a professora lá da escola que eu trabalho, a moça que cuidava da minha filha…acho que foram essas que eu conheço”.

A entrevistada sofreu alguma alteração no vínculo empregatício ou conhece alguém que sofreu?

“Eu me mantive no emprego. Conheço algumas pessoas que perderam o emprego em loja, porque foi fechada e os comerciantes ficaram sem pagar, sem ter como pagar… tenho amigos comerciantes que tiveram que diminuir o pessoal”.

Precisou ou conhece alguém que precisou fazer uso do auxílio emergencial?

“Sobre o auxílio emergencial: a minha mãe é autônoma e conseguiu. Já recebeu sete parcelas, porque ela não recebeu desde o início”.

Lilian conta como funcionou o isolamento das crianças e idosos na sua família:

“As crianças ficaram isoladas em casa… o que mudou foi que deixaram de ir à escola, pracinha, deixei de levá-los ao meu trabalho. Elas ficam em casa. Sobre os idosos: eu tenho a minha avó, que tem 88 anos e eu vou vê-la às vezes pela grade. Agora, ela está na casa da minha tia. Quando ela me ver, ela quer me abraçar, né? Aí eu não gosto de ir lá porque é muito difícil essa parte de não poder abraçar, não poder beijar, sentir o calor… a gente gosta muito disso. A minha avó diz que eu sou uma das preferidas dela [risos]. Dizem que não tem netos preferidos, mas tem sim. Eu sou uma das que ela mais tem afinidade, então quando ela me vê, quer muito me abraçar”.

Como foi o trabalho em home office?

“Fiquei por um tempinho, mas já estou indo para o trabalho físico, né? Mas está sendo tranquilo o home office. A dificuldade era a internet, mas deu bem certo, porque eu consegui colocar internet aqui e atender as demandas da secretaria”.

E os planos para o futuro, quais são?

“Amigo, a meta é sobreviver, né? [risos] Meus planos para o futuro são cuidar da minha família, ver meus filhos bem, ficar bem psicologicamente, manter a fé e ir adiante. Não tenho muitos planos traçados… eu planejo ver minha família bem, assim como meus amigos, minhas amigas que eu gosto muito, quero ver todo mundo bem e com saúde”.

Quais os aprendizados deixados pela pandemia?

“Ai, amigo… o tanto que a gente é frágil, né? A gente aprendeu bastante como somos muito frágeis. Não temos estrutura, conhecimento suficiente. Eu digo de primeira… quando acontece uma coisa dessa, ninguém está preparado. Eu acredito que aprendemos muito sobre a vida. Questão de não poder abraçar quem a gente ama ou abraçar se arriscando. Sobre as perdas que a gente teve, né? A gente perdeu muita gente. Se você não perdeu alguém, conhece alguém que perdeu. Sempre tem a presença de morte muito mais comum do que o normal. Eu aprendi o quanto a vida é frágil, o quanto estamos despreparados”.

Há algum agradecimento ou consideração que gostaria de fazer?

 

“Eu agradeço você por ter me dado a oportunidade de falar sobre esse assunto tão importante. Agradeço a Deus pelos cuidados com minha família e amigos”.

 

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *