Maria Emília relata a mim, Aline Paiva, no início da noite de 04 de dezembro de 2020, sua experiência de maternidade na pandemia. Além de sua intensa e emocionante vivência como mãe, Maria Emília conta a angústia de estar longe de seu companheiro que se contaminou com a Covid-19 e a apreensão por estar longe da família, sendo a única responsável por sua filha nos primeiros meses de pandemia, tendo que conciliar os compromissos profissionais e os cuidados com a sua filha.

Nascida em São Paulo no dia 19 de julho de 1978, atua como jornalista e indigenista. Cursando uma pós-graduação, se autodeclara branca e reside no bairro Floresta Sul, em Rio Branco, no Acre.

Covid-19. Gravidez de risco. Home office. Maternidade na pandemia. 

“Meu nome é Maria Emília e vou começar esse relato contando um pouco sobre como a maternidade aconteceu na minha vida. Ela aconteceu de forma muito forte e intensa, porque eu tive uma primeira experiência, um dia fui mãe e tive uma filha que faleceu com quatro dias. A minha experiência foi muito forte porque fui para o hospital e depois fui embora sem a minha filha, isso marcou a minha vida, foi a minha primeira filha. Três meses depois eu engravidei novamente da minha filha, que hoje tem seis anos. Então essa minha primeira gravidez não foi planejada e tive esse acontecimento trágico, sem respostas, não soube exatamente qual foi o porquê. Tenho algumas suspeitas do que aconteceu, mas os médicos não deram um diagnóstico fechado e três meses depois engravidei novamente, não planejado também. Mas foi uma benção, mesmo sendo uma gravidez difícil, pois era de risco. A minha primeira gravidez não foi de risco, até então eu não tinha identificado que foi de risco, porque pode ter acontecido alguma coisa que eu não cuidei e por isso que a minha primeira filha veio a falecer.

A segunda gravidez, que é da filha que tenho hoje, tive diabetes gestacional, o que tornou [a gestação] de risco e foi muito difícil porque eu ainda estava com o luto da primeira filha. Foi quando também caiu a ficha de que a morte da minha primeira filha pode ter sido por uma diabetes gestacional não identificada. Então, sem entrar muito em detalhes, a experiência de ser mãe para mim foi muito forte desde o início por conta desse acontecimento. Que acredito na verdade a minha… [nesse momento a entrevistada se emociona ao lembrar de sua primeira filha. Pergunto a ela se gostaria de interromper a conversa e continuar num outro momento, mas a mesma afirma que tudo bem em continuarmos]. Mas é um pouco isso, de momentos muito difíceis, que foi entre os anos de 2013, quando tive a primeira filha, e o ano de 2014, quando eu tive a minha segunda filha. Então tive um parto natural; a minha primeira filha foi cesárea. Nesse parto natural eu sinto que renasci, porque essa experiência de ter perdido a minha primeira filha me fez envelhecer dez anos num sentido metafórico. Senti que renasci depois que pari, depois dos primeiros meses, que minha segunda filha ficou bem, e está aqui conosco até hoje. Eu me descobri mãe de uma maneira muito forte e intensa, até mesmo visceral”.

“Bom, a relação com a minha filha é super intensa também, somos muito apegadas uma à outra. Acho que por conta de tudo isso que eu passei como mãe, essa experiência traumática também, sou muito preocupada, carrego um pouco esse trauma. Então estou sempre muito atenta e preocupada. E ela é muito parecida comigo, tem um jeito que parece comigo e temos essa relação muito forte e intensa. Ela [minha filha] está sempre querendo a minha atenção, é uma criança muito agitada e quer sempre brincar, o que demanda muito de mim. Mas temos essa relação muito forte, talvez tudo isso que vivi de alguma maneira tenha deixado essa relação mais intensa. E também teve um momento nesse ano que eu contei para ela o que tinha acontecido, então eu não sei se ela sente isso também, de ter tido essa irmã [mais uma vez a entrevista se emociona ao falar dessas lembranças e momento delicado que viveu]”.

“Em relação às tarefas domésticas, sou casada e tenho uma relação estável com o meu marido, pai das duas filhas. Então temos uma ligação muito forte também, depois de tudo que a gente viveu, nesses anos todos. Eu tenho oito anos de relacionamento com meu companheiro, temos uma rotina, sempre procuramos estabelecer uma rotina com a nossa filha, com hábito de dormir cedo, para acordar cedo e manter os horários das refeições, com todos juntos à mesa. Essa coisa de ter criança acaba levando os adultos para uma vida com rotina sistemática, porque isso é saudável para a criança, então sempre preservamos e cultivamos muito isso antes da pandemia”.

“Ano passado eu estava em Brasília, fui fazer mestrado e meu marido ficou em Rio Branco. Fui sozinha com a minha filha e tinha que dar conta de tudo, do trabalho, do mestrado, das aulas que estava fazendo na universidade e do cuidado com a minha filha. Essa rotina era rigorosa, levar a criança na escola, pegar para o almoço, depois levar de volta e buscar de novo, ficávamos um pouco juntas à noite e íamos dormir umas oito e meio. Mas eu ainda tinha um terceiro turno para ler algum texto e dormia de fato onze meia a meia. No outro dia às seis e meia da manhã já estava de pé. Aqui em casa temos uma rotina de acordar cedo por conta da minha filha que sempre acorda cedo, pelo fato de nós cultivarmos o dormir cedo e acordar cedo, almoçar nas horas corretas. E a escola e as atividades que aconteciam presencialmente ajudavam muito a definir essa rotina familiar nossa: na hora em que ela estava na escola, era quando tínhamos mais concentração para trabalhar. Eu há muitos anos sou consultora, jornalista, mas indigenista também, trabalho para organizações não governamentais e trabalhando em casa. Essa rotina de deixar o filho na escola e voltar para casa e se concentrar para trabalhar. Sempre contamos com alguma funcionária em casa para ajudar nessa questão de limpeza e cozinhar, durante a semana toda ou três vezes para ajudar nesses afazeres mais domésticos. Só no ano passado em Brasília que eu tinha uma pessoa só uma vez por semana, porque o apartamento era menor e eu também estava tendo mais gastos e não podia ter uma pessoa muitas vezes na semana”.

E pontua as mudanças que ocorreram durante a pandemia:

“Durante a pandemia virou tudo um caos, a rotina em caos também. Acho que a pandemia teve várias fases, no começo dela foi aquele isolamento total e eu dispensei a moça que trabalhava aqui em casa, eu estava com duas faxineiras que se revezavam nos dias, dispensei as duas. Meu marido estava fora, como é antropólogo, estava viajando, fazendo um trabalho que ficaria alguns meses fora de Rio Branco e a pandemia nos pegou nesse distanciamento. Então eu me vi sozinha numa casa enorme, porque moro numa casa grande, com três quartos e vários outros cômodos, uma varanda grande e no meio do mato com cinco cachorros [risos]. A criança parou de ir para a escola, eu estava num esquema de fazer um mestrado mas, como eu disse, trabalho com povos indígenas e a pandemia começou a afetar os povos indígenas, fui chamada por uma organização indígena da Amazônia que é a COIAB [Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira] para trabalhar num plano emergencial de combate à Covid-19.A partir desse momento eu comecei a ter que trabalhar em casa, já trabalhava em casa, mas esse trabalho se intensificou, pela própria questão da pandemia, pois estava atuando numa situação de emergência; mesmo sem precisar sair de casa, o trabalho pela internet estava muito intenso. E pelo fato de a criança ficar sem a escola, tive que dar conta de tudo, tanto dar atenção para ela, fazer a comida, arrumar a casa e trabalhar. Foram algumas semanas até que começou a ficar caótico demais e eu consegui que uma das pessoas que fazia faxina aqui em casa viesse e ficasse comigo em isolamento. Foi quando deu uma força e eu conseguia trabalhar: ter alguém cuidando da casa e também ajudando, até mesmo com a filha que ela tem fazendo companhia para a minha filha. Esse esquema durou pouco tempo, um mês aproximadamente, mas depois eu me vi novamente sozinha tendo que dar conta de tudo de uma casa, limpeza, arrumação, cozinhar. E o que dificultou na escola da criança foi que não só sem a aula presencial, mas a escola virar online exigiu mais uma demanda, um tempo meu para acompanhar as aulas e ensinar a ela. Porque sabemos que esse aproveitamento das crianças de ensino a distância não é o suficiente, então tem que acompanhar e ensinar, fazendo o papel também de professor em casa com os filhos. Depois consegui que uma amiga minha viesse ajudar, mora perto e é minha vizinha, abrimos um pouco a nossa bolha com essa minha amiga vindo a minha casa com frequência para me dar uma força até meu marido conseguir voltar. Foram quatro meses que ele não conseguia voltar, ficou em Roraima onde estava fazendo um trabalho, então nesse período de quatro meses tive que dar conta de tudo sozinha. Quando meu marido voltou as coisas melhoraram com certeza, porque conseguimos dividir as tarefas, mas vieram outras questões. Porque ele também tem que trabalhar, então sempre ficamos nessa tensão de tentar conciliar as agendas, porque ele tem os compromissos dele e eu tenho os meus. Ficamos sempre nessa negociação de quem vai fazer o quê. Também teve um momento quando as coisas se flexibilizaram um pouco. Tem dois meses que a moça que trabalhava aqui voltou a vir três vezes na semana, dando uma aliviada. Mas a questão da rotina no começo foi muito difícil, porque começamos a dormir mais tarde, as refeições eram em horários diferentes. Foi difícil manter aqueles horários que tínhamos antes da pandemia, só pouco a pouco que conseguimos fazer uma nova rotina dentro da pandemia”.

Sobre a saúde antes da pandemia:

“Nenhum cuidado especial em relação à saúde de alguém, tenho minha mãe que é mais velha, que mora em São Paulo, mas ela não tem nenhum problema de saúde. Sou uma pessoa que tem uma tendência a ter diabetes por causa do meu pai, então há três anos modifiquei minha alimentação. Mas ninguém tem um problema sério de saúde na família”.

Com relação as notícias sobre o vírus e chegada dele ao Brasil:

“As primeiras impressões foram terríveis, eu acho que essa questão da pandemia foi algo que nunca ninguém viveu na nossa geração. Um momento único para todo mundo e foram muito alarmantes as impressões. Teve um primeiro momento que fiquei muito preocupada, ficamos com muito medo, uma coisa muito nova e que eu tinha medo que acontecesse alguma coisa comigo sem minha família aqui, pois são de São Paulo. Meu marido também não estava aqui, então eu me cuidei muito porque se acontecesse alguma coisa comigo ou com a minha filha ia ser muito ruim. Principalmente porque se acontecesse alguma coisa comigo, eu estava sozinha com a minha filha. Mas, por outro lado, o que me confortava muito era justamente eu estar na minha casa, que eu construí, um lugar que tem quintal, vegetação, animais. Teve essa sensação sobre as escolhas que fizemos anteriormente: ter construído essa casa, estar nesse lugar e não num apartamento na cidade, fez com que víssemos que foram escolhas certas. Isso me deixou muito confortável. Num primeiro momento me deu muito medo, uma sensação muito ruim, mas ao mesmo tempo uma sensação de que eu estava protegida por estar nessa casa, nessa possibilidade de estar protegida e confortável na minha casa”.

“Outra coisa que aconteceu acho que foi a sensação de impotência, de ser algo que não pode ser controlado e também de ter a liberdade roubada. Não poder sair, não poder fazer aquilo que sempre fiz, passei a refletir e a dar valor para pequenas coisas cotidianas, como encontrar os amigos, dar uma volta na cidade. Essa mudança da forma como se vive no dia a dia foi muito impactante para mim. Sou uma pessoa que sempre trabalhou em casa, então isso não mudou muito, mas não ter essas outras coisas externas, não ter a escola da criança, não poder sair para encontrar amigos, não poder ir fazer uma compra no supermercado… Ter essa sensação de estar correndo risco simplesmente por ir comprar alguma coisa é muito ruim. Eu tive alguns problemas burocráticos de banco e isso foi ruim também. Lembro-me da primeira vez que saí e fui ao banco, fiquei muito tensa. Tinha ficado um mês e meio em casa, sem sair do bairro, só dando umas voltas de bicicleta com a minha filha, o que eu também vejo como privilégio de estar morando numa zona mais afastada da cidade, com poucas casas. Quando fui ao banco, lembro que foi muito tenso e esse dia me marcou, estava muito apreensiva, mas eu tinha que resolver, não conseguia de outra forma. Ficava apreensiva com as pessoas que chegavam perto de mim e não estavam usando máscaras, então acho que esse foi um pouco do começo, depois as coisas foram mudando”.

Abaixo Maria relata como foi quando seu companheiro se contaminou com a Covid-19:

“Meu marido se contaminou com a Covid-19 lá em Roraima, quando ele estava lá trabalhando. Eu comecei a ficar muito apreensiva porque estava aqui em isolamento e ele longe trabalhando, não estava em isolamento. Então eu alertava que ele poderia se contaminar, fiquei angustiada, mas foi inevitável, ele se contaminou. Ainda bem que não foi grave, ele teve sintomas leves. Porém, foram duas semanas difíceis também para mim, porque fiquei muito apreensiva”.

“O trabalho, na verdade, só aumentou. Como sou jornalista, essa questão da comunicação ficou muito evidente e mais estratégica do que já era, por conta do próprio isolamento. As pessoas têm que trabalhar de casa, mas querem as notícias dos fatos que estavam acontecendo. Então, no meu caso, o trabalho aumentou. Acabei conseguindo um trabalho novo na pandemia e por conta da pandemia, para implementar todas as ações e atividades estratégicas de comunicação do movimento indígena da Amazônia de enfrentamento a Covid-19. Todo mundo que trabalha nesse meio da comunicação indigenista disse que estava trabalhando muito mais. Essa questão de ficar em casa e tudo junto, faz com que não se separem as horas do lazer com as do trabalho, dos afazeres domésticos. Tudo começou a se sobrepor, acho que foi essa sensação de estar trabalhando mais, de estar fazendo mais reuniões e eventos, essa coisa de estar muito tempo no computador. Eu já trabalho no computador há muitos anos, mas eu acho que isso se intensificou. Não tive um prejuízo, tive sim mais trabalho”.

Maria faz uma reflexão sobre os aprendizados que a pandemia trouxe e o que pensa para o futuro:

“Eu acho que essa pandemia trouxe muitos aprendizados para todos nós, para mim e minha família e acho que para as crianças. Acompanhamos também como as crianças vêm lidando com isso, acho que as mães não tem só essa preocupação de estar bem, mas de manter seus filhos bem. Proporcionar e dar as condições para que eles fiquem bem; acho que o grande desafio é a gente conseguir resiliência nesse momento. Eu vejo que as crianças são mais resilientes. Uma coisa que eu me preocupei muito, que acho interessante expor aqui, nessa relação da minha filha com a escola foi justamente de tentar entender o lado dela, no sentido dessa nova adaptação de uma educação online. Esse novo formato foi um desafio para todos, para professores, pais e crianças. Não devemos gerar aquelas expectativas que geramos quando estávamos em outra situação, a presencial. Em termos de ensino e conteúdo, entendermos que os aprendizados desse período, nesse novo formato, estão além do conteúdo passado. O que eu tentei muito foi respeitar as vontades e esse processo de adaptação da criança não estar em convivência e não estar interagindo com os colegas, professores; a forma online é cansativa para a criança. A minha filha é uma menina muito brincalhona e com muita energia, muito ativa e ela teve dificuldade de se concentrar durante as aulas e querer aprender nessa situação e formato. Tivemos várias fases, teve a que era a da novidade da criança em estar assistindo as aulas pelo computador. E depois uma recusa e falta de vontade de estar cumprindo essa agenda de aulas on-line, ao invés de acordar e brincar e estar em casa com os pais”.

“As crianças ficaram muito nesse dilema: o que eles mais querem é estar com os pais e agora os pais estão o tempo todo com eles em casa. Então gerou uma expectativa na criança de estar junto com eles brincando e fazendo atividades recreativas, ao mesmo tempo tiveram que lidar com a frustração, porque os pais estavam em casa, mas não estavam disponíveis. Todos esses outros afazeres domésticos e profissionais dos pais geraram certo conflito. Nessa relação e convivência de tentar explicar que precisávamos cada um respeitar o espaço do outro e a vontade do outro nessa situação, como cada um se sentia com essas mudanças”…“O desafio é essa convivência, é lidar com os próprios sentimentos dessa perspectiva de não saber quando tudo isso vai acabar. É muito importante, pensando no pós-pandemia, continuarmos a ter planos; minha filha ainda sonha e planeja tudo o que ia e vai fazer. É muito resiliente da parte da minha filha não deixar de sonhar e se planejar, querer fazer as coisas depois que o corona acabar. Estamos muito nessa perspectiva de continuar sonhando e planejando, porque muitas pessoas acabaram entrando numa depressão por conta dessa falta de perspectiva, de não poder se planejar por não saber quando tudo isso vai acabar e agora que vivemos essa segunda onda, por mais que exista um horizonte de vacina, não temos ao certo definições de como isso vai acontecer de fato e quando poderemos voltar à normalidade. Até porque quando entramos na discussão de uma nova normalidade algumas pessoas vêm falando, na verdade, que essa pandemia pode ser simplesmente o início de várias outras pandemias que podem surgir das mudanças climáticas, da própria ação do homem sobre o meio ambiente e as consequências disso. Para concluir acho que o aprendizado é cultivarmos a paciência, saber lidar com essa situação de estresse; que busquemos atividades onde tenhamos um desenvolvimento pessoal! Que em cada momento possamos gerar gentileza, mais consciência e controlar as próprias ansiedades e preocupações exacerbadas com o futuro incerto que ainda temos que lidar. Com certeza sairemos mais fortalecidos, a nossa família, desse momento pós-pandemia, temos algumas situações de pessoas que tiveram uma ruptura com as relações que chegaram ao extremo. E o aprendizado é isso também, lidar com as novas situações que a própria pandemia causou, em trazer questões em relações que não estavam saudáveis e que a pandemia possibilitou que isso ficasse mais evidente, mais forte e intenso. Lidar com essa intensidade de emoções, acho que é um aprendizado pessoal e familiar. Acho que como mãe aprendi a valorizar a própria convivência com a família, no sentido de aproveitar melhor esses momentos juntos. Por exemplo, eu aprendi a fazer bolo [risos], que era uma coisa que eu nunca tinha feito e foi muito legal, porque fiz alguns bolos junto com a minha filha. Com certeza foram momentos importantes para estarmos juntos. E compartilhar amor e coisas simples que são importantes”.

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