Eu, Keyth Melo, contactei Rosemira em 1º de dezembro para propor essa entrevista. Após saber como funcionaria o projeto, ela aceitou e iniciamos no dia seguinte, pela parte da noite. Rosemira nasceu em 07 de abril de 1980 , no Amazonas. É solteira, mãe de 3 filhos (duas meninas e um menino de 9 anos), dois cachorros e uma gata. Possui o ensino médio completo, é designer no ramo da beleza, moradora do bairro Santa Inês, e se autodeclara preta.

Maternidade Solo. Covid-19. Pânico.

A princípio, Rosemira revela sua reação ao saber da pandemia:

“Logo quando eu soube da pandemia ela ainda estava em outro país, tipo na China, nos primeiros países. E aí, eu achei que era quase impossível chegar aqui. Mas logo que chegou no Brasil, eu não vi as pessoas morrendo, ouvi falar, comecei a assistir os jornais e tudo, muitas pessoas morrendo. Com o tempo, entre os meus familiares, umas três pessoas foram infectadas. Eu fiquei com medo porque como eu vou lidar com uma situação dessa? Três filhos para cuidar, cada um com um pensamento diferente… E logo parou tudo, os estudos. O governo não deixou mais ter aula, ficou na confusão de ia ter aula on-line  e eu pedi sabedoria a Deus:  “meu Deus, me dê sabedoria como eu vou conseguir controlar meus filhos, para fazer de tudo para que eles não saíssem muito de casa?” Eu pedi sabedoria do Senhor para isso, porque meus filhos tinham uma rotina, como eu também tinha uma rotina de trabalho, igreja, saía para onde queira, meus filhos também tinham os estudos, a igreja, também os coleguinhas. Cheguei ao ponto de não deixar meus filhos brincarem, pelo menos assim o Eduardo, o mais novo, porque eu tinha medo dele se contaminar. A Jéssica com as amizades, a Jennifer e as amizades, que eu tinha medo de elas trazerem para casa as pessoas até os próprios parentes. Eu já não chamava muita gente para cá porque eu sou desse jeito, eu gosto do meu cantinho, de sossegar. E aí que foi muito difícil e a situação de eu ir trabalhar”.

Rosemira sempre teve o cuidado de recomendar que seus filhos não chegassem perto das pessoas quando precisassem sair. Cuidados que ela mesma tinha que ter: 

“No meu trabalho eu não chegava muito perto das clientes e colegas. E aquele medo… por que, nas primeiras mortes, eu fiquei um pouco em pânico. O medo terrível que eu tinha dos meus filhos se contaminarem e olha que meus filhos já tinham reduzido muito de trazer pessoas para casa, de estar conversando um com outro, de estar escolhendo as pessoas de quem poderiam chegar perto”.

 

Ela revela o pânico que tomou conta dela quanto ao trabalho e ao sustento dos filhos e as decisões que precisava tomar, independente do Decreto Governamental: 

“Eu já estava em pânico mesmo, evitava mais ainda as minhas colegas. Nesse período de pandemia a gente sente muita falta de conversar, se abraçar… e, com minhas clientes, de conversar até mesmo sobre nossa vida. Não podia mais ficar assim… chamar para casa. Minha rotina foi totalmente afetada. Eu parei quase um mês de trabalhar, como eu não tinha de onde tirar, eu tive que voltar. E o medo que eu tinha de falar, de postar nas redes sociais, porque eu não podia chamar a atenção das clientes. Eu apelei para a fé, para eu tivesse clientes, porque eu precisava sustentar minha família. No primeiro mês tive sacolão, no segundo mês as clientes começaram a voltar e aí foi melhor. Teve o impacto das mortes que assustaram a todos. Eu ficava sem saber o que fazer, só recorrendo à fé, porque as contas não deixavam de chegar, os aluguéis, a luz, foi difícil!”

 

Nesse período, Rosemira contou com a ajuda da família:

 

“Só moro eu e meus filhos e é minha mãe e minha irmã que têm cuidado dos meus filhos, que têm alimentado quando eu não estou ou quando saio com pressa e não tinha tempo de deixar algo preparado. E muitas vezes, na pandemia, eu estava sem dinheiro para comprar as coisas dentro de casa e minha mãe, irmã e padrasto nos acudiram e estão sempre de olho neles”.

 

Em casa, quem ajuda nos afazeres são suas filhas, a mais velha tem 24 anos, e seu filho mais novo.

 

“A minha relação familiar… Estamos bem assim. A gente se uniu de certa forma. A gente tenta ajudar um ao outro. Depois que a  minha prima  e a Jennifer [minha filha] pegaram Covid-19, a gente tá sempre assim conversando, tentando ajudar uma a outra. Cuidar também, sempre ‘tô’ falando para se cuidar ‘né’, sempre avisando de alguma coisa isso tipo a contaminação”.

 

Acerca de como ficou seu psicológico nesse período, Rosemira fala que: 

“O psicológico, no começo, a pandemia afetou demais. Como te falei, eu fiquei meio neurótica, com medo. Principalmente por causa dos meninos, meu pai que é idoso, minha irmã que é obesa. Meus familiares quase todos se contaminaram, mas graças a Deus, todos se curaram, nenhum morreu não”.

 

Seu maior desafio na pandemia é: 

“Meu maior desafio é na área dos estudos dos meus filhos porque eu acho que eles se acomodaram muito porque saíram da rotina. Por mais que venha, eu vou lá pegar as provas, os testes, exercícios, mas eles estão bem acomodados nessa parte também. Um dos meus maiores desafios é que eu tenho que ser professora, principalmente do Eduardo. A Jéssica e a Jennifer se viram pesquisando as dificuldades delas nos estudos, e  tenho que ensinar o Eduardo. Não posso desgrudar dele, ficar no pé e isso até me irrita, porque eu tenho muita coisa na cabeça, tenho que ir para um canto e para outro. Mas Deus tem sustentado, porque para eles também é difícil”.

 

Sobre o que a pandemia trouxe de novo: 

“Conversar a gente conversava, a gente tem uma relação boa entre eu e meus filhos. O que tinha se perdido um pouco era ficar em casa mais,  cuidar das coisas eu mesma, entendeu, eu deixava muito para as meninas, principalmente. Agora eu estou tendo mais tempo com eles. Depois que eu comprei a moto, chego em casa logo, não gasto tanto tempo na rua, de ônibus e eu chegava muito estressada por depender de ônibus. Isso me estressava extremamente porque me tirava o sossego, a paz, ficar no terminal. E com isso o governo liberou o auxílio, eu comprei essa moto, tirei minha carteira, infelizmente foi numa situação ruim, mas pra mim foi muito bom e ajudou muito na minha relação com meus filhos. Não chego muito estressada, ajudo nas coisas da casa, faço a janta para eles que antes eu não fazia, eles comiam qualquer coisa. Foi isso, a ajuda que auxílio nos trouxe e meus filhos têm um hábito maior de lavar as mãos, se preocupando mais com isso”.


Quanto aos planos para o futuro, Rosemira pensa em investir em estudos para os filhos:


“Os meus planos são investir mais em cursos tanto para mim quanto para os meus filhos, principalmente para eles e ajudá-los a ter uma vida melhor e pretendo continuar instruindo eles a melhorar a higiene e limpeza”. 

 

Sobre o futuro de sua comunidade pós pandemia, Rosemira diz:

Acredito tanto que não só a nossa comunidade, mas o Acre e o mundo,  ‘vai’ melhorar sobre se cuidar mais, principalmente, se importar mais com  a saúde. Eu ouço de todos que isso é uma lição muito grande, sobre o relacionamento com os familiares, com os filhos, em olhar mais dentro da casa e cuidar mais dos filhos”.

 

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