Rosa Sena nasceu no Amazonas em 04 de abril de 1987. Eu, Keyth Melo, conversei com ela através de mensagens. Mãe de dois filhos, um menino de 24 anos e uma menina de 5, mora com eles e o marido no bairro Santa Inês. Rosa está em sua segunda faculdade, porém, não possui o ensino superior. Se autodeclara parda e “do lar.

Medo. Gravidez não planejada. Medo. Futuro.

Rosa começa falando da maternidade bem antes da pandemia. Diz que sua gravidez “não foi bem planejada”. Passou boa parte do casamento evitando filhos, e quando realmente quis ter, durante o período de um ano,  não conseguia engravidar. Conformada com a possibilidade de não ter filhos, Rosa engravidou e alega ter sido um período difícil: 

“Tive medo. Me perguntava porque eu colocaria uma criança nesse mundo? Eu já tinha me conformado em não ser mãe. Então tive que repensar tudo, mas de uma outra perspectiva, já que eu não queria mais ter filhos e minha cabeça estava focada nos meus estudos. Então, foi o medo que me acompanhou durante toda a gravidez e ainda me acompanha. Não vivemos em um mundo tranquilo”.

Rosa me fala sobre o exercício da maternidade na pandemia e revela outros sentimentos que se aliaram ao medo:

Mais medo ainda. Tanto medo de minha filha adoecer, de meu esposo adoecer… Não encarei de forma tranquila o início da quarentena. Tive crises de ansiedade, ficava depressiva, estressada, me machucava… não tinha com quem falar porque sabia que não era só eu que estava angustiada e não queria sobrecarregar meu esposo e nem meu filho. O tempo passou e tudo foi ficando mais difícil. Não tenho problemas em estar em casa, até prefiro, mas tenho problemas em ser obrigada a ficar em casa. Tínhamos que distrair minha filha de várias maneiras e eu não tinha energia e nem criatividade para isso. Ninguém aqui tinha. Foi bem difícil”.

Sobre ajuda com as tarefas domésticas e com os filhos, Rosa diz: 

“Meu filho me ajuda, meu esposo tenta, mas eu me estresso porque para mim há uma ordem a ser seguida para realizar as atividades. A ordem dele é no tempo dele e isso me irritava, me irrita ainda. Portanto, conversamos e eu cuidava da casa junto com meu filho e, enquanto isso, ele ficava distraindo a minha filha. Ele tem a paciência que eu não tenho com ela. Sobrava muito tempo livre, então, o mais velho também ajudava a cuidar da menina. Nas minhas crises de ansiedade, prefiro cuidar das coisas da casa, porque me distrai. Acaba que eu cuido mais da casa do que eles”.

Acerca da relação familiar, de trabalho e psicológica, ela diz: 

Tive crises de ansiedade, ainda tenho. Mais fracas, menos constantes, mas tenho. Tive apoio da minha família. Respeitavam meu tempo para lidar com as mudanças e também o meu silêncio. Assim, nossa relação familiar cresceu, não que fosse ruim. A gente se conhece no silêncio. Minha filha é a que mais me distrai, por ser criança, e por ter decidido que ela não deveria sentir as minhas angústias e medos, não agora. Então, chegamos ao momento que brincamos mais, jogamos, fazemos as atividades da escola dela. O que é bem difícil, porque me falta a paciência materna. Tenho sempre que me policiar para não fazer disso uma atividade enfadonha. Não trabalho. Meu filho e esposo sim, mas fizeram home office e isso foi a parte mais tranquila da quarentena, o home office”.

Falamos sobre os desafios da pandemia e Rosa afirma que seu maior desafio é ser criativa, manter a sanidade mental e ter paciência. Agora, estão em processo de mudança para outro município e isso tem a afetado.


É tudo novo, precisamos mudar porque o trabalho do meu esposo exige essa mudança. Mas temos medo de não estarmos fazendo a escolha certa. Exatamente esse tipo de mudança que afeta meu psicológico, não tenho estado bem. Sei que é por causa disso. Ele tenta me acalmar e eu tento seguir em frente. Não dá para parar agora. Os prós são maiores que os contras”. 

Sobre o que a maternidade trouxe de novo nesse período, Rosa diz: 

“Conhecimento das minhas limitações como mãe. A falta de paciência não era por causa da vida corrida, é porque ela não existe mesmo. Busco melhorar nesse sentido todos os dias e acredito estar conseguindo”. 

Quando falamos dos planos para o futuro, Rosa fala que :

“Não busco fazê-los. Enfiei na minha cabeça que esse período é de dois anos. Dois anos de pandemia. Portanto, para mim é mais sadio eu não fazer planos que podem ser frustrados, alterados por forças maiores. Eu meio que reservei a minha vida para minha família. Essa parte mais planejada, deixo para meu esposo. Ele compartilha as vontades e eu digo se sim ou não (ela ri). Sou ótima em contra argumentos. E assim vamos vivendo bem”.

Sobre a vida da sua comunidade e país no pós pandemia:

 

Minha comunidade vive como se não existisse pandemia. Aqui reina uma teimosia… Perdemos pessoas próximas a nós para a Covid-19, mas vejo que, para minha comunidade, é só estatística. É o que percebo no pouco que saio de casa. O país não muda muito não. Parece que não está acontecendo nada, apesar do número de mortes. Eu sei que a minha família vive de forma diferente e vai viver assim, com hábitos de higienização maiores e não sabendo se haverá um dia que sentiremos conforto ao não usarmos mais máscaras. Está tudo muito diferente e será mais. Creio que o medo será nosso amigo para sempre!”

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