Wauana Sheeva Costa Silva Manchineri tem 26 anos. Nasceu no dia 15 de abril de 1994 em Rio Branco, no Acre, mas atualmente mora em Brasília com o marido e uma filha. Se autodeclara indígena e é formada em Gestão de Agronegócio. Na tarde do dia 30 de outubro de 2020, conversou comigo, Aline Paiva, através do aplicativo Whatsapp, sobre os desafios da maternidade na pandemia. Wauana relata os medos e angústias que a fizeram mudar até mesmo de moradia, além de ter se deparado com o retorno de algumas lembranças de experiências na maternidade antes da pandemia. Mas se mantém esperançosa quanto aos planos e objetivos para o futuro de sua família e profissional.

Covid-19. Maternidade na pandemia. Manchineri. Gravidez não planejada. Terapia.

Wauana inicia seu relato se apresentando e contando como a maternidade aconteceu em sua vida, se planejada ou não e como se deu o processo de entender-se como mãe:
“Meu nome é Wauana Sheeva Costa Silva Manchineri, sou indígena do povo Manchineri, tenho 26 anos, uma filha de quatro anos, uma menina. Sou de Rio Branco no Acre, sou gestora de agronegócios formada agora no ano de 2019.
A maternidade aconteceu na minha vida; ela não foi planejada. Eu estava na universidade, tinha acabado de entrar. Entrei em 2014, em julho, fiquei um ano na faculdade e na minha turma conheci meu atual marido e nós começamos a namorar, e tivemos a Luna. Ela nasceu em 2016. Como não foi planejado, passamos por uns dilemas na vida, mas conseguimos ficar juntos e estamos até hoje. O processo de entender a maternidade é muito complexo. Quando você tem a ideia de maternidade na cabeça ou como é demonstrado para as meninas que a maternidade é algo muito nobre, necessário, lindo, glamoroso e, na verdade, a maternidade não é só isso. Ela tem sim seu lado bom, seus momentos amorosos, mas a maternidade é um momento de se doar, de estar ali para uma pessoa que depende muito de você. Então nessa doação você acaba se anulando muito, deixando muito de si. Principalmente eu que minha filha nasceu com um problema nas pernas que chama displasia de quadril e ela passou por um tratamento muito intensivo, muito rigoroso durante o primeiro ano de vida dela e acabou fazendo com que eu me aproximasse muito mais do meu marido e nos fortalecemos como casal. Ainda bem! Porque acho que passar pelo que nós passamos não seria para qualquer casal, não que sejamos um casal perfeito, mas batalhamos muito durante o primeiro ano de vida dela. Íamos muito ao hospital, tínhamos consulta com muita frequência e ela passou por um procedimento cirúrgico pequeno, então isso nos abalou e marcou muito a gente. Mas principalmente eu, porque me sentia muito incapaz de dar amparo para ela, e isso não é dito na maternidade. Sentia muito cansaço!

Como era a rotina da família antes da pandemia e sua relação com sua filha?
“Bom, minha rotina com ela tinha muita atividade antes da pandemia, no período da tarde ela tinha aula, ia para a escolinha e no período da manhã, segunda e quarta ela fazia natação, sexta ela fazia aula de música, terça e quinta eram para ela ficar em casa com a gente. Então antes da pandemia conseguíamos seguir nossa rotina, trabalhar com ela e sempre reservava um período para estar com ela. A nossa relação é muito boa com ela, porque tínhamos o momento de ficar só com a gente, ou conseguia ficar só comigo, porque isso é muito importante [risos], a mãe ter um tempo para ela. Então eu conseguia ter meu tempo, conseguia trabalhar, porque enquanto eu ainda estava na faculdade eu usava o período que ela estudava ou estava em alguma atividade para trabalhar e conseguíamos revezar, eu e meu marido, o tempo com ela em alguma atividade. Porque ela ainda tem quatro anos, ela é pequena, não tem como mandar ela para fazer uma atividade, tem que sempre ter alguém acompanhando, então conseguia conciliar bastante essa questão.
Quando chegou a pandemia suspendeu tudo, então morávamos num apartamento e não estava dando mais, porque ficamos presos aqui em Brasília, onde eu moro atualmente. Fechou tudo, então ficamos trancados dentro de casa com uma criança de quatro anos. A frustração dela e nossa, o nosso medo de uma doença nova que não conhecíamos. Isso mexeu muito com a gente, a minha relação com ela. Minha filha, como toda mãe vai falar, é maravilhosa, mas minha filha é muito compreensiva, então ela tem essa parte que nos ajuda muito, principalmente a mim. Porque ela gosta de ficar muito comigo! Então acabamos nos mudando porque eu não estava mais dando conta de ficar naquele lugar com ela, não conseguia mais meu espaço e meu tempo, estava me deixando doida [risos]. Então acabamos nos mudando para uma casa, um pouco mais afastada do que onde nós morávamos e ficamos melhores.
A nossa rotina foi melhorando porque aqui para onde viemos é um condomínio fechado então conseguia passear com ela, ter esse tempo para a gente, o que foi muito bom. Porque se eu tivesse continuado no apartamento com certeza eu teria ficado doida. E a minha relação com ela é muito boa, graças a Deus mantemos a relação amistosa. Eu e meu marido adotamos a educação não punitiva, então procuramos conversar com ela, procuramos ter diálogo com ela, explicar para ela sobre as coisas. E acho que isso está trazendo um momento muito bom na nossa relação. Ela fez quatro anos então agora ela vai entendendo melhor as coisas, acho que esse jeito de levar a educação dela está sendo muito favorável para a gente.”

E com relação às tarefas domésticas e a divisão dos afazeres da casa e com a filha?
“Com a questão da Luna temos as atividades dela bem separadas, os horários, porque nós dois estamos trabalhando em casa, então conseguimos separar bem o horário dela em casa. As atividades domésticas, ele [marido] faz muita coisa, mas criei um hábito, porque virei mãe [risos], eu já tinha isso, já gostava muito das coisas organizadas e limpas, depois que me fui mãe isso intensificou. Então eu tenho um problema com limpeza, que eu gosto das coisas bem organizadas principalmente as coisas da Luna, acaba que as tarefas domésticas que são relacionadas à Luna ficam comigo, cuidar da higiene pessoal dela, cortar unha, lavar cabelo, cuidar da roupa, sapato, levá-la ao médico, vacinas. Mas conseguimos dividir o que não é relacionado a ela, mas acaba que fica aquele sessenta a quarenta por cento, sessenta por cento das coisas relacionadas a casa [comigo] e ele fica com quarenta por cento.
Ele [marido] não é perfeito, mas pelo menos faz a parte dele, que separamos para ele fazer, tanto que fazemos terapia de casal também [risos], não por conta disso, mas por conta do tratamento da Luna, tivemos que ir os dois ao psicólogo para entender como estávamos naquele momento em relação à Luna e fazemos até hoje. A nossa psicóloga é a nossa melhor amiga [risos], ela que faz a nossa relação funcionar. Porque ela mostra no que estamos errando, porque nós dois somos cabeça dura e tivemos uma cabeça durinha como filha, então a nossa psicóloga ajuda muito a gente. Eu indico terapia de casal para todo casal que eu vejo, terapia de casal é a melhor coisa, realmente é, acho que todo mundo precisa de uma terapeuta [risos]. Mas ela ajuda muito a fazermos essa separação, para ninguém ficar sobrecarregado, ela fala se estamos errados ou não. Então acho que a nossa relação é bem dinâmica, quando estamos disfuncionais temos a maturidade de sentar e conversar sobre o que está acontecendo. Eu, principalmente com ele, sento e explico o que está fazendo de errado, ele tenta melhorar, mas é daquele jeito [risos]. Mas graças a Deus conseguimos separar essa atividade diária de casa e ele faz a parte dele porque não é ajuda, estava fazendo o dele porque está morando naquela casa também. Eu detesto quando alguém fala que meu marido é bom porque ele me ajuda, eu falo não, ele é bom porque faz a parte dele, é bom porque ele está vivendo em sociedade dentro da nossa casa e nós somos uma sociedade e ele tem que fazer a parte dele. Então a nossa relação é boa por causa disso, graças a Deus ele é uma pessoa muito mente aberta, quanto a essa separação e também se não fosse não estaria casada com ele até hoje, porque para mim isso é primordial numa relação.”

Como eram cuidados com a saúde? Havia algum outro tipo de cuidado antes da pandemia?
“Antes da pandemia tínhamos os cuidados com ela [filha] que tínhamos com bebê, então higienizávamos tudo, limpávamos bem as coisas que ela ia pegar, deixava a casa limpa. Mas não é igual ao cuidado que estamos tendo agora, que é higienizar as compras quando chegamos a casa. Não pegá-la com roupa suja de rua. Tivemos que redobrar ou triplicar os cuidados, principalmente eu, que fiquei muito neurótica com isso. Então tudo que eu pensava que ia chegar perto dela tinha que limpar, agora está melhorando bastante. Porque eu estava muito, muito apreensiva com isso, mas com o acompanhamento da psicóloga fui melhorando, fui entendendo que tomando os cuidados certos, poderia reduzir de pegar a doença ou ela [filha] pegar.
Porque eu tinha muito medo dela pegar, por causa da vivência de hospital que já tínhamos. Então acho que isso me afetou muito e me pegou muito desprevenida, porque durante o tratamento dela passamos por, “Ah! Ela está melhorando”, com três meses, chegava numa consulta e do nada, “Ah! Ela não está melhorando”, era preciso intervir com outra coisa. Começamos com outro tratamento, “Ah, não, ela está melhorando”, de repente, “Não, ela não está melhorando”, “ela vai ter que passar por uma cirurgia”. Então isso me pegou muito desprevenida, porque estava começando a me curar desses sentimentos de que as coisas com ela uma hora davam errado.
Então, isso me matou, porque eu fiquei muito neurótica com ela, praticamente a coloquei numa bolha. Meu marido falava: “Você colocou ela numa bolha, não é saudável para ela!” E realmente não estava sendo. Acho que também afetou todos os pais e mães, então a pandemia mexeu muito comigo, o meu senso de proteção com a minha filha que já era exagerado por conta do início de vida dela, ficou pior. E com a ajuda da psicóloga fui entendendo isso, fui entendendo os meus sentimentos. Eu tinha muito medo de perdê-la, como até hoje tenho, só que estou conseguindo controlar mais. Mas a higiene agora triplicou o que tínhamos, estamos com vários cuidados com ela, mas hoje eu consigo, ela voltou para a natação, com todos os cuidados, é claro. Mas hoje estou mais tranquila de levá-la na natação, que é uma atividade que ela gosta muito. “No início eu não pensaria nisso de jeito nenhum, mas hoje já consigo.”

Quais as impressões com as primeiras notícias sobre o Covid19 e a chegado do vírus ao país?
“Nossa, num primeiro momento eu não acreditei que viria com a força que veio, eu não consegui visualizar que ia ter esse impacto que teve, mesmo vendo notícias na televisão. Porque quando você vê notícias acaba se vendo muito distante daquilo, a televisão te distancia, você não consegue se vê naquela realidade que está sendo transmitida na notícia. E quando começou a fechar realmente foi quando começou a “cair a ficha”, nossa, vamos ficar de quarentena até não sei quando, vamos ter que ficar em casa. E se para casais ou qualquer pessoa que não tenha filhos ou crianças do lado já é difícil, imagina com criança! Como que faz para explicar para ela que toda aquela rotina que ela tinha não vai ter mais? Então, num primeiro momento eu fiquei mais tranquila e depois que veio essas notícias, veio o impacto do fechamento das cidades e de tudo, dos aeroportos. Tanto que eu pensei em ficar nos meus pais, viajar para Rio Branco e ficar com eles, mas o aeroporto fechou e me deu um desespero. Acho que eu me vi num filme de terror e isso mexeu muito comigo.”

O que foi mais difícil com as medidas de isolamento e com elas o confinamento?
“A parte mais desafiadora da pandemia foi à convivência e todo mundo ficar trancado em casa. Acho que a relação das pessoas tem que ter um intervalo [risos], porque todo mundo precisa de um momento só para si, ficar sozinho, entender você enquanto pessoa. Acho que essa foi a pior parte, porque você sai e espairece, tem outra atividade e vê outras pessoas, acho que ficar em casa foi bem difícil.

Ocorreu alguma perda de trabalho, de oportunidade, ou queda no rendimento financeiro da família? Tentou receber o auxílio emergencial fornecido pelo Governo Federal durante o período pandêmico?
Sobre a questão do trabalho não mudou muita coisa, porque como tínhamos acabado de sair da faculdade não tínhamos um trabalho formal. Meu marido está estudando para passar num concurso e estamos fazendo matéria especial no mestrado, então já estudávamos e trabalhávamos em casa. Estamos fazendo consultoria, estou trabalhando para uma organização chamada MATPHA [organização Manchineri que desenvolve trabalho com indígenas no contexto urbano e nas comunidades] que é do povo Manchineri, estou fazendo algumas pesquisas para eles, mas sobre essa questão de trabalho fora de casa não mudou a nossa rotina. O ponto negativo é que estávamos passando por um processo seletivo que ficou estagnado, estávamos indo bem no processo, começou a pandemia e parou. Então isso foi bem frustrante, porque sair da faculdade e conseguir um trabalho formal é o que almejamos e infelizmente ficou estagnado. Só estamos trabalhando com essas consultorias, bicos [risos]. Eu pedi o auxílio emergencial [fornecido pelo governo federal durante o período pandêmico] para nos ajudar nessa retomada e entrada no mercado de trabalho, para poder passar por esse período de pandemia.”

Algum familiar, parente ou amigo pegou covid19 ou até mesmo faleceu?
A minha avó tem um problema de saúde e ela precisou ficar internada no início do ano, ela tem 76 anos. Meus tios e minha mãe tiveram que ficar fazendo revezamento no hospital com ela. Com isso os meus tios, quatro deles, pegaram Covid-19, mais uma prima; felizmente eles não desenvolveram a forma grave da doença. Eles ficaram de cama, ficaram em isolamento e ruins, mas felizmente não desenvolveram o lado pior da doença, então ninguém teve que ficar internado graças a Deus. E pelo menos na minha família não houve nenhum falecimento, mas eu tive amigos que tiveram pessoas da família que infelizmente vieram a morrer.”
Consegue pontuar algum tipo de aprendizado em decorrência da pandemia, para você e para a sociedade como um todo?
“O que eu tirei de aprendizado dessa pandemia e dessa nova realidade que estamos vivendo, é que apesar de estarmos juntos, estamos muito separados. Acho que o isolamento social foi bem severo com as pessoas, ficar longe da família, das outras pessoas e parentes, foi bem complicada essa parte de não poder ver os meus sogros e os meus pais, não ter a certeza se vou a Rio Branco vê-los. Tenho medo de viajar, de ir aos lugares que gostava, acho que esse isolamento puniu bastante as pessoas, porque antes não dávamos muito valor com o contato que tínhamos com os nossos familiares e amigos também. Acho que esse isolamento social me trouxe de aprendizado isso, que temos que ficar próximos das pessoas que amamos. E quanto à sociedade fica uma dica sobre precisar tratar as pessoas como seres humanos e que muita gente ficará com sequelas emocionais dessa doença, desse isolamento social e desse novo modo de viver.”

Consegue pensar sobre o futuro? O que almeja para você e sua família?
De futuro eu quero poder trabalhar com a minha carreira, poder me estabelecer no que sou formada, que é gestão de negócios rurais. Ajudar meu povo, os Manchineri. Acho que o principal que eu almejo é poder ficar mais tempo com a minha família, poder ver minha filha crescer, porque não é todo trabalho que nos permite isso. Não é todo pai que consegue estar presente na vida do filho como eu, graças a Deus, consigo. Quero aumentar minha família [risos], quero que a Luna tenha um irmão. E eu quero me realizar profissionalmente, como eu tive a Luna na faculdade, não me deixei abalar e não tranquei em nenhum momento e nem desisti de qualquer matéria, fui até o final. Quando ela nasceu, tive muita ajuda dos meus sogros, pois meus pais não moravam aqui em Brasília, mas em Rio Branco. Então o apoio deles foi fundamental, mas eu encarei esse desafio e fui até o fim, então acho que ter como prioridade a minha família não vai me impedir de ter a realização dos meus sonhos. Uma vez que eu tenho um companheiro que contribui muito, faz a parte dele [risos], então acho que é isso, no futuro eu quero estar realizada profissionalmente, quero poder ficar com a minha família, ter meu tempo sozinha e quero poder ajudar o meu povo.”

Observação: O áudio abaixo contém apenas a fala da entrevista.

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