Eu, Ana Fiori, entrevistei Soleane Manchineri no dia 04 de dezembro de 2020. Em uma tarde chuvosa, com a casa movimentada e acompanhada da filha, Soleane me contou suas experiências de mulher indígena Manchineri nascida e morando na capital, Rio Branco, bem como o projeto de ir morar na aldeia e aprender a língua materna. Soleane tem 35 anos, é formada em história, acadêmica de Ciências Sociais e acaba de defender um mestrado no programa de Linguagem e Identidade da UFAC. Soleane estava trabalhando com questões administrativas, mas foi aprovada no processo seletivo para professora indígena. A conversa está transcrita abaixo quase na íntegra, apenas retirando algumas palavras e inícios de frases incompletas, de modo a facilitar a leitura. Esta forma de apresentação visa explicitar a relação de familiaridade e confiança entre entrevistada e entrevistadora, que são aluna e professora.

Covid-19. Responsável pela casa. Mãe indígena. Manchineri.  Adoecimento na família. 

ANA: Bom deixa eu te explicar um pouco, Sol. Eu e a professora Camila Bylaardt, do curso de letras, estamos desenvolvendo um projeto chamado As Margens da Pandemia: relatos de maternidade. A ideia é conversar com pessoas que são mães e que sentiram que a vida de algum jeito mudou nos últimos meses e que querem contar essa experiência e compartilhar um pouco da sua vida. A nossa meta é buscar pelo menos 40 relatos de mães acreanas ou que vivem aqui, e esses relatos vão fazer parte de um site na internet. E podem aparecer de duas formas: como áudio, então a gente vai juntar esses áudios que a gente está trocando por Whatsapp, e como texto. Você pode escolher se você quer só o texto ou se quer o áudio. Você pode escolher se seu nome aparece ou não. E ao longo da nossa conversa a gente pode fazer pausas, se você quiser, a gente pode mudar de assunto, se a gente for tocar num assunto que você achar mais delicado, mais difícil. E se você tiver alguma coisa para fazer, a gente pode ir fazendo essa conversa aos poucos. Se alguma parte da nossa conversa você não quer que vá para o site, a gente pode editar essa parte. E, se você quiser também, a gente pode te mandar o arquivo do texto e o áudio para você ouvir antes disso ir pro ar. Por enquanto a ideia é que só eu, a professora Camila e os alunos e bolsistas tenham acesso aos arquivos da gravação, até sua autorização para ir para o site. Mas a gente acha assim, em geral, com essa experiência que a gente tá tendo, as pessoas que conversam com a gente gostam de participar, veem isso como um momento de partilha e de acolhimento, até porque algumas estão isoladas, passando por vários tipos de dificuldade. Então eu estou te contando tudo isso para você entender o projeto, porque eu preciso que você me diga se você concorda ou não e quais os termos que você concorda.

SOLEANE: Então, professora Ana. A pandemia pra mim foi um divisor de águas. [ruídos e vozes ao fundo]. Tá um barulho aqui em casa porque está acontecendo uma movimentação. Antes da pandemia eu não tinha tempo para quase nada. Eu pegava um monte de trabalho pra fazer, embora eles não fossem remunerados, mas eu pegava, para poder estar me refazendo enquanto pessoa, aprendendo. Eu sempre tive essa motivação de lidar com várias coisas. E aí eu vejo que tive duas consequências: eu não tinha tempo para minhas filhas e nem tinha tempo pra mim mesma, pra focar em uma coisa só. E aí, o que aconteceu? Quando veio a pandemia eu tava finalizando o mestrado, já quase defendendo, e a pandemia foi um divisor de águas. Foi eu me reaproximar da minha família, das minhas filhas, aprender com elas duas num momento em que elas tavam muito fragilizadas. E eu pude reconstruir o meu diálogo com elas. Eu não tinha tempo realmente pras minhas filhas, eu viajava demais, eu passava pouco tempo em casa. Então eu vejo que esse período em que eu fiquei em casa, trabalhando off [risos] online, eu vi que eu pude me conectar com elas, com minha família, com meu pai, com minha mãe. E eu vi a diferença, sabe?

E aí eu comecei a dizer não para outras propostas, eu tô aceitando poucas coisas. Inclusive nessa questão de aceitar o desafio de dar aula na igreja, também foi resultado da pandemia, que eu já queria muito, mas eu não tinha coragem de me aventurar. E aí quando veio a pandemia eu falei assim “eu vou aceitar” e eu aceitei. Mas pra mim em relação às perdas de vidas que tivemos do povo Manchineri e aos anciãos, foi doloroso. Perder, porque são conhecimentos que eles levaram pra outra vida e que a gente não tem como recuperar. Isso foi doloroso, mas em relação à minha vida, da minha família, que são as minhas filhas, melhorou 100%. E eu pude me refazer como pessoa, principalmente como mãe, enquanto mulher, indígena, enquanto trabalhadora. E eu aprendi a trabalhar com esse novo conceito, com a internet. Eu aprendi a trabalhar com outras ferramentas. Tudo que eu tinha dificuldade, nesse período eu fui tentando suprir, através das minhas debilidades, através de experimentos, fui suprindo. Mas não foi 100% bom, porque eu tive vários problemas financeiros, mas mesmo assim eu tive uma orientadora que foi a professora Maria de Jesus [professora de História da UFAC, pesquisadora do Laboratório de Interculturalidade], que me ajudou muito, sabe, nesse período. Ela investiu muito em mim, pesado.

Então eu agradeço muito, porque nesse período eu pude reconhecer quem são as pessoas generosas, amigas. Então pra mim foi um aprendizado. Eu sei que a pandemia não acabou, mas ela tá menos intensa, em relação à pressão mental do que no início, quando ela surgiu. Hoje eu já estou sabendo lidar com essa situação de prevenção, de cuidados e tudo mais. Mas tem que tomar cuidado, principalmente quando se vai pra aldeia. Lá em Assis Brasil, que foi um lugar que eu fui recentemente, no mês passado, e eu vi criancinha de um mês com covid, dois meses com covid, e eu me senti impactada com essa situação. Não sabia o que fazer, me senti completamente fragilizada com isso, e fiquei pensando em como que a gente poderia ajudar a população a se prevenir, se eles acham que o covid não é real. O covid é real, é invisível, e nos fragiliza. Mas com a minha família tá tudo bem, graças a Deus.

ANA: então você poderia contar um pouco como é que está sendo a rotina de cuidado na sua casa, no dia a dia. O que que mudou no jeito de lidar com as coisas do dia a dia, de antes da pandemia para depois? Tem alguém da sua família que precisa de cuidado especial? Como é isso?

SOLEANE: Então nós estamos tomando todos os cuidados necessários. Usando máscara, álcool gel quando sai, quando chega tira a roupa, lava tudo direitinho. Depois que minha mãe tomou… pegou covid, a gente percebeu que o covid tem consequências, a pessoa não fica 100% saudável, de vez em quando tem recaída, então eu vi que minha mãe precisa de cuidado. Ela não come mais carne vermelha, ela tá fazendo uma dieta rigorosa: come mais frutas, carne branca, procura comer comida mais líquida… não vai pra todos os lugares em que a gente tá, porque ela falou que de vez em quando ela tem impressão de que o covid tá voltando. Mas a gente toma esses cuidados, até porque os vizinhos aqui da rua, teve famílias inteiras que pegaram covid, e eles saíam na rua sem máscara, não avisavam ninguém. E a gente sabe que não pode sair sem máscara e tem que avisar pros vizinhos que tá doente, porque se não contamina as outras pessoas. Mas enfim, acho que é a consciência de cada família, mas aqui na minha rua tem uma vizinha que não se prevenia, saía sempre, e agora ela tá com covid. E eu tô orientando as meninas a se prevenirem, porque de vem em quando as filhas dela vão lá em casa pedir pra brincar com as meninas, então eu peço pra elas se prevenirem. Mas criança tá sempre achando que não tem nenhum perigo, mas tem muito perigo. Mas a gente tá tomando esses cuidados pra não pegar nenhuma doença, porque não é só covid, tem outras doenças por aí. Então a gente está se cuidando.

ANA: E como é que é o dia a dia da sua casa? Quantas pessoas moram com você? Eu nem sei quantos filhos você tem. Como é a composição familiar?

SOLEANE: Então, aqui em casa moram seis pessoas. Eu, meus três irmãos, a Larissa e a Lavínia, que são as minhas duas filhas. E a gente passa o dia em casa, já que não tem muita coisa pra fazer fora. Só quando os meninos começarem a trabalhar que eles vão começar a sair. Mas o nosso dia a dia, a gente passa o dia em casa.

ANA: E como é que está a divisão tanto de renda, de quem tá trabalhando, sustentando a casa, e de quem tá organizando as coisas, cuidando da casa, cuidando das crianças?

SOLEANE: Então, quem sustenta a casa sou eu. E os meninos fazem as coisas. O Renato e a Carol cuidam da casa e das meninas quando eu tô trabalhando, e quando eu viajava. Mas agora como eu não tô trabalhando fora, eu que estou organizando tudo em casa, com ajuda deles. Mas nessa questão de ir pra aldeia, vai só eu e minhas duas filhas, porque eu acho que vai ser importante elas aprenderem a falar a língua materna, então em janeiro a gente tá indo, passar uns quatro anos por lá.

ANA: E essa decisão de voltar pra aldeia com as meninas teve a ver também com a pandemia? Como é que foi? Como é que você decidiu sair da sua vida urbana pra voltar pra sua comunidade?

SOLEANE: Meu sonho é aprender a falar a língua materna. Então, quando o pessoal da aldeia me procurou, quatro anos atrás, eu tinha medo. Daí quando eu fui pra aldeia com o Marcos [professor de Antropologia da UFAC, pesquisador do Labinter], eu superei esse medo, porque também o Marcos me deu uma super força em relação a voltar. E meu pai voltou, eu voltei pra aldeia com ele. Então eu pude me encorajar. Então, quando eu recebi o convite pra poder voltar, eu aceitei de primeira, porque eles ficaram de me ensinar a falar na língua materna. Então eu tô super feliz. Mas não tem nada a ver com a pandemia não, eu já queria ir antes da pandemia. Era pra eu ir já em janeiro, o início do ano de 2020, mas acabou que não deu certo, porque eu estava esperando sair o processo seletivo. E quando saiu veio a pandemia, tudo junto. Esperei também defender a dissertação. Então, nesse meio tempo veio a pandemia, que eu nem tinha noção do que ia acontecer. E aí agora saiu o resultado, fui aprovada, e eu tô indo super feliz. Mas é mais por essa questão de aprender a falar a língua materna e poder fazer um projeto de doutorado muito bom, pra eu submeter e ser aprovada.

ANA: Poxa, que legal, Sol. Eu não sabia da sua aprovação no processo seletivo. Parabéns. Bom, eu vou mudar um pouquinho de assunto. Eu queria que você contasse um pouco como é que foi a sua experiência de ser mãe. Como é que foi pra você descobrir que tava grávida, ter o neném, as duas? E como é que foi criar elas durante esse período, suas experiências na cidade, depois quando você passou um tempo na aldeia. Quais são suas expectativas em relação a isso? Como é que foi a experiência da maternidade para você? Como é que está sendo?

SOLEANE: Então, quando eu descobri que ia ser mãe… eu nem sabia na verdade, eu descobri com dois meses, porque eu comecei a emagrecer. E eu era gordinha, na verdade ainda sou gordinha. E eu comecei a pesar 50 quilos, e vomitando, tinha enjoo de tudo. E aí minha mãe olhou pra mim, olhou algumas características no meu corpo [risos], e disse: “tu tá grávida? “Não, mãe, tô menstruando”. Foi difícil porque eu tava fazendo teatro, tava fazendo balé, tinha acabado de entrar na universidade, praticamente. E a sensação de ser mãe, de encarar um outro mundo, é difícil. Inclusive, me juntei de última hora, fui passar três dias na casa do pai das minhas filhas e acabei ficando por lá durante o tempo que vivi com ele. Mas foi desafiador. Eu chorava de saudade da minha casa. Eu chorava porque ao mesmo tempo que eu queria ser livre, eu queria estar vivendo aquela vida de casada, tal. E eu era muito imatura. Quando a Larissa nasceu, eu tinha medo de tocar nela, pra mim foi tudo novo. Eu cresci junto com ela. E hoje olhando que ela tem doze anos, já tá quase do meu tamanho (risos), e vendo que a gente passou uma série de coisas juntas… eu aprendi com ela. Então, amadureci com ela. E aí veio a Lavínia quando ela tava com quase três anos e aí eu falei “puxa, tenho que encarar de novo”. Quando veio a Lavínia, eu já estava um pouco mais madura. Eu já tinha um caráter mais resistente, já tinha aprendido a ser mãe. Com a Larissa eu ainda me sentia imatura, mas com a Lavínia eu já ganhei uma resistência e aprendi a lidar com a situação de ser mãe, de ser mulher, esposa e tudo mais. Aí veio a separação, eu tive que voltar pra Rio Branco e me recuperar enquanto pessoa que estava vivendo todo esse mundo cheio de muitas novidades.

ANA: E como é que está sendo com as crianças dentro de casa? Elas tão tendo aula? Você está tutorando? Como é que está sendo essa organização?

SOLEANE: Elas têm aula, mas eu ajudo elas em meio termo. Em matemática quem ajuda elas é o meu irmão. Mas as meninas são muito estudiosas, tanto a Larissa quanto a Lavínia, elas procuram sempre fazer o trabalho delas. Só a Larissa que quando tem internet, ela se desliga. Mas elas tão tendo aula virtual, faltam mais do que comparecem, mas eu tô ajudando na medida…(risos) ela tá até rindo aqui do lado. Eu ajudo no que é preciso, mas elas são muito maduras pra idade delas, elas são muito responsáveis com trabalho, a Lavínia já até passou de ano. Da Larissa a gente ainda não tem as notas, porque os professores não mandaram. Mas a Lavínia já foi aprovada no primeiro semestre, então a gente está esperando. Vamos esperar as notas da Larissa também, até porque na aldeia eu acho que elas vão estudas em uma sala multidisciplinar [multisseriada], que são várias séries com idades diferentes, então eu não sei como elas vão se adaptar. Mas aqui a gente tá se virando, pela internet, pela tv, assistindo às aulas. E as meninas gostam muito de internet, então pra elas não teve nenhum problema. Elas fazem os questionários de acordo com o que os professores estão mandando. Mas enfim, Ana, a gente tá levando mesmo. Elas de vez em quando esquecem, mas eu vou lá no pé delas, “tão fazendo o trabalho? Tão fazendo as aulas?”. Aí elas vão estudar, passam o dia estudando. A gente tá se virando, Ana.

ANA: Pra fechar a entrevista, eu queria que você contasse um pouco… você já falou um pouquinho de que você vai pra aldeia. Como é que você imagina que vai ser o futuro, daqui pra frente, seu das meninas, da sua família?

SOLEANE: Então, eu imagino que a gente vai aprender a falar a língua materna. E quando eu voltar eu quero falar pessoalmente com meu avô e ver o brilho nos olhos dele, ouvir ele me ensinar as histórias dos antigos na própria língua materna. Além disso, saber que minhas filhas vão aprender, vão aprender coisas dos antigos. Eu acredito que a nossa vida vai ser muito boa. Eu não tenho nenhuma dificuldade em mudar de cidade pro interior. Eu achei até mais tranquilo. Eu gosto da simplicidade e gosto de pensar que vai dar tudo certo. Eu sei que as meninas talvez tenham saudade da cidade. Mas eu acho que agora elas não percebem que vai ser muito bom pra vida delas no futuro. Mas eu já vejo isso, que vai ser muito bom pra elas. Porque a Larissa quer ser médica, e eu tenho certeza que quando ela entrar em contato com o povo dela por parte de mãe – que o povo do pai dela é Apurinã – eu acredito que ela vai se tornar uma pessoa mais humilde, mais humana e generosa, a partir do momento que ela entrar em contato. Entendeu? Assim como a Lavínia, quando também crescer, ela quer ser juíza. Então eu acredito que ela vai olhar de uma outra perspectiva para os povos indígenas, ajudar, tentar compreender, vai ser mais humana. Então eu acho que vai ser muito bom pra nós três. E eu quero ir pro doutorado, quero ir com uma outra visão, mais direcionada em relação aos conhecimentos indígenas, as teorias indígenas no caso, tanto de cuidados, quanto de leis e tudo mais. Eu quero ver essas coisas. Eu quero mergulhar nesse mundo Manchineri, que eu nunca vivi de forma tão demorada. Eu tô empolgada. Já fui e voltei e foi bem legal os dias que eu passei lá, todo mundo me recebeu muito bem. É claro que tem pessoas que não gostam também da minha ida, mas no mais a maioria gostou, e eu ajudei a fazer uns projetos, foi bem bacana. E eu tô indo empolgada.

ANA: Então tá, Sol. Eu queria mais uma vez te agradecer e me colocar à disposição pro que você precisar, se quiser entrar em contato ainda aqui, depois quando você tiver lá na aldeia com ideias, eu tô à disposição pra te ajudar. Eu só precisava que você mandasse o áudio dando a sua autorização para fazer a transcrição dessa nossa conversa, publicar o texto, e se você autoriza também publicar o áudio.

SOLEANE: Autorizo sim, Ana. Também quero agradecer, Ana, porque quando eu tava pensando em fazer o doutorado, você enviou todos os livros que eu tava precisando e aí eu comecei a ter outras ideias em relação ao que eu tava pretendendo fazer. Autorizo sim, mas eu acho que o áudio ficou cheio de vozes por trás da minha entrevista, então não sei. Mas pode usar sim. E agradecer. E eu com certeza vou te chamar, porque eu te admiro pra caramba e eu sei que você é uma pessoa super qualificada na área que está atuando. Eu até pedi pra ser orientada por ti quando eu tava na ciências sociais e estou super feliz por estar fazendo parte desse trabalho, e queria agradecer toda a generosidade que você tem. E dizer que assim que eu tiver qualquer ideia, eu te procuro sim.

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *