Eu, Keyth Melo, comecei a entrevista com Damiana no dia 27 de novembro e, apesar da correria, encerramos no mesmo dia. Damiana possui ensino superior e é empreendedora. Nasceu em Sena Madureira, no Acre, e se autodeclara parda. Moradora do conjunto Belo Jardim, é casada e mãe de uma filha de 10 anos.

Covid-19. Empreendedora. Realidade dura. Mãe jovem. 

Damiana exerce a maternidade há quase dois anos, quando a filha de seu esposo veio morar com eles. A criança tinha oito anos na época da mudança, sendo assim, a maternidade é uma novidade para Damiana. Sobre essa nova fase de sua vida durante a pandemia, Damiana diz: 

“Nesse período de pandemia, [ser mãe] tornou-se uma função muito delicada, uma função nova, porque é uma tarefa que precisamos conciliar, tendo em vista que a tarefa das mães, elas triplicaram por conta que as crianças não estão tendo aula presencialmente, fazendo com que [a relação] se desenvolva mais, podendo dar mais atenção para criança. E com isso você tem os seus trabalhos particulares. Sendo que quando seu filho está na escola, você mantém aquela rotina de trabalho cotidiano. Nesse período de pandemia houve um excesso de responsabilidades, acúmulos de serviços por conta que você ter que criar novos hábitos e rotinas para a criança não se estressar, já que a criança fica presa e não pode ter contato com outras pessoas, justamente por conta desse vírus. Então, nós precisamos nos desenvolver e nos capacitar a cada dia em meio a essa situação. E para nós, como mulheres, isso se torna uma rotina bem cansativa, bem estressante porque nós precisamos contornar a situação, visto que a criança quer brincar, não entende muito o que está acontecendo, tem suas cobranças e… nesse período a gente precisa ter paciência, como é o meu caso, ter paciência para lidar com essa circunstância que tem se tornado muito difícil para nós. Tendo em vista que as atividades infantis mudaram também, então, você tem que fazer toda uma adaptação para que a criança se sinta melhor e confortável no seu lar. Sem contar que isso afeta o psicológico tanto nosso quanto o da criança, por que a criança fica longe de amigos, da escola; isso é muito difícil para ela compreender. Então isso para mim tem se tornado uma tarefa bem complicada porque ela tem uma cobrança maior”.

Sobre a ajuda nos afazeres domésticos e ajuda com a criança, Damiana diz que procura envolver a criança tentando fazer receitas novas na cozinha, fazendo trabalhos em equipe, conversando e mantém uma boa comunicação. Mesmo assim julga não ser tão fácil: 

“ser uma mãe jovem, uma mãe com pouca experiência, a minha filha convive comigo há um ano e seis meses, então ainda é uma fase de adaptação também. Foi bem no período que chegou a pandemia e eu tento ao máximo estar envolvida e compreender essa situação e tento com que ela se sinta o mais confortável possível nesse período. Eu criei uma rotina para que ela possa ter mais responsabilidade nesse período para ela não ficar tão estressada como: hora para acordar, organizar o quarto, momento em família, de brincar, de fazer seus exercícios”. 

Sobre a relação familiar e psicológica nesse período, Damiana alega que sente falta dos amigos, da família, de pessoas que eram próximas. O distanciamento torna mais necessário o afeto e aumenta a preocupação. Em seu lar, especificamente, afirma que estão mais próximos. Quanto ao trabalho, relata o seguinte: 

“Na minha área profissional mudou bastante, porque eu trabalho com mais de 500 pessoas e não podemos ter contato direto com eles e isso gera tristeza. Houve um enfraquecimento no mercado, devido aos fechamentos causados pela pandemia. Algumas pessoas que trabalham comigo estão passando por problemas psicológicos bem graves. De repente tudo muda e afeta o nosso psicológico causando insegurança. Porém, devemos respeitar esse período de isolamento e distanciamento. Lidar com essa situação é um processo delicado. Mas confiamos em Deus e que Ele possa nos abençoar e ter misericórdia de nossas vidas, nesse período tão delicado no qual perdemos familiares, pessoas, trabalho e o nosso psicológico entra em colapso. Isso gera um impacto muito grande da nossa vida”.

Seu maior desafio nessa pandemia é o isolamento social e ver como os efeitos desse isolamento atinge as pessoas. Como ela trabalha com muitas pessoas, considera estar mais difícil manter o foco no trabalho. Entretanto, afirma que está sendo um momento de aprendizado e procura manter a mente saudável, buscando atingir suas próprias metas. Contudo, considera  difícil ver as pessoas que você gosta desistirem de seus sonhos, por conta da pandemia. Além disso, o desafio se estende ao manter a mente saudável e não ter tantas preocupações com o futuro. Acerca do que a pandemia trouxe de novo em relação à maternidade, Damiana afirma que a pandemia teve seu lado positivo por poder conhecer melhor sua filha, agora com 10 anos de idade, conversar, compartilhar dos momentos juntos e aprender mais com a criança. Tem sido um ano de aprendizado e conhecimento para ambas.

Quando perguntada sobre seus planos para o futuro, Damiana diz que pretende: 

Concluir mais um curso superior, finalizar minha pós graduação… Abrir a minha própria loja”.

Sobre como será o futuro da sua comunidade no mundo pós-pandemia, afirma que: 

“Apesar da relutância de alguns líderes políticos, especialmente nos Estados Unidos e no Brasil, a pandemia da Covid-19 é, infelizmente, uma realidade dura e devastadora como indicavam as advertências de tanta gente séria. No fim da pandemia, com certeza, o Estado brasileiro estará superendividado e com déficits enormes. Será preciso retornar a níveis mais normais de equilíbrio, ou seja, menos emprego público, salários congelados e oferta crítica de serviços. A não ser que a sociedade venha aceitar um Estado muito maior, com mais impostos e menos espaço para o setor privado”.

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