Eu, Jessica Matias, iniciei a entrevista com a Joyce Ramos no dia 19 de outubro de 2020 por meio do aplicativo Whatsapp. Joyce nasceu no dia 17 de maio de 1995. Ela vive em uma união estável e tem uma filha. Recentemente se graduou em Letras libras, reside no bairro da Paz e trabalha como auxiliar de limpeza no INTOACRE. Devido a sua rotina ser corrida, a entrevista só foi finalizada no dia 29 de outubro. Em alguns momentos houve uma interferência externa com o choro da criança que estava precisando da atenção da mãe. No decorrer da entrevista, Joyce disse que preferia dar continuidade quando estivesse no seu emprego, pois lá teria mais tranquilidade para responder. Então a entrevista seguiu-se nos dias em que ela estava trabalhando.

Pandemia. Covid-19. INTOACRE. Higienização. 

“Me chamo Joyce Ramos Pereira, me autodeclaro parda, tenho vinte e cinco anos, nasci em Rio Branco, terminei minha graduação em Letras Libras no final do ano passado, 2019. Juridicamente falando sou solteira, mas vivo em uma união estável com o pai da minha filha e moro no Bairro da Paz. Tenho uma filha que se chama Ana Flor e ela tem dois anos. Minha família é cadastrada no CadUnico (Programa do governo para identificar as famílias brasileiras de baixa renda). O meu companheiro é estagiário na área de TI e atualmente trabalho como Auxiliar de limpeza no Instituto Nacional de Traumatologia e Ortopedia (INTOACRE). 

Antes da pandemia me encontrava desempregada, recebi a proposta de trabalho durante a quarentena. No início, foi bem assustador pensar em  trabalhar em um local que atendia os pacientes com coronavírus, mas ao refletir melhor considerei uma proposta viável, não só pela parte financeira que eu precisava, pois eu e o meu companheiro só conseguimos receber uma parcela do auxílio emergencial, não sabemos o motivo, tentamos contestar mas ficamos em análise até hoje. Então por eu ser uma pessoa jovem, saudável e que pratica esporte, me senti segura em poder contribuir nessa missão de prevenção. Trabalhar na limpeza é algo de suma importância nesse período pandêmico, e me sinto feliz por poder contribuir na higienização e prevenção dos médicos que estão na linha de frente no tratamento das pessoas infectadas pela Covid-19. 

A rotina da minha família antes do isolamento social seguia dentro da normalidade, costumávamos sair com grande frequência e sempre íamos visitar amigos e familiares. Meu esposo estudava e estagiava, e eu estava finalizando os últimos detalhes para a minha colação de grau. Então veio a notícia que teríamos que entrar em isolamento social devido à pandemia. Entramos em quarentena uma semana antes da minha colação de grau; me senti frustrada, pois era um marco importante na minha vida, tinha muitas expectativas, era o momento de celebrar a conclusão de uma jornada de muita luta e  superação, tanto como mulher, quanto como mãe, e tive que adiar esse sonho. Também tive que adiar meus planos de fazer os concursos públicos. Mas, eu entendo e tenho consciência que foi a melhor medida adotada para todos.

Fiquei totalmente em isolamento com a minha família, pelo menos nos primeiros meses, só saía para realizar algo de extrema necessidade. Em seguida recebi a proposta de trabalhar, aceitei e tive que quebrar a quarentena. Trabalho um dia sim, o outro não, das seis da manhã às seis da noite; o meu companheiro vai para o estágio no período da tarde. A Ana Flor fica em casa com o pai, pelo menos metade do dia, pois a tarde, quando ele vai para o estágio, ela fica na casa da minha sogra até eu chegar. Moramos em casas distintas, mas no mesmo terreno. Tenho uma relação boa com a minha sogra então é bem mais prático deixar a Ana Flor com ela.

Minha filha tem uma rotina bem ativa, é uma criança com bastante energia. Ela gosta muito de brinquedos de montar, de desenhar, pular, dançar, passear, gosta de subir nas árvores… Com o passar da quarentena não saímos de casa, no máximo levamos ela para caminhar aqui na rua de casa, é uma rua um pouco deserta, então não temos contato com ninguém. Quando ela está com a minha sogra acredito que a rotina dela é um pouco devagar, minha sogra já é idosa e não tem como estar sempre ativa com a Ana Flor, então quando elas estão juntas assistem desenhos para passar o tempo.

Consegui um emprego durante a pandemia em um hospital que foi readaptado para atender casos graves de coronavírus. Mesmo tomando todos os cuidados, a exposição ao vírus era frequente e acabei contraindo a Covid-19 e transmitindo para o meu companheiro e para a minha filha. De certa forma, para nós foi tranquilo, não podemos dizer isso de todos os infectados, porque muita gente perdeu a vida, mas graças a nossa idade, a uma boa alimentação, e por não termos nenhum problema de saúde, o vírus não nos atacou agressivamente. Fizemos o tratamento em casa e após conseguirmos nos recuperar, não apresentamos nenhuma sequela evidente. Mesmo por já ter contraído a Covid-19, sempre tomo bastante cuidado, com a higienização, uso de máscara e distanciamento social, por trabalhar em um local de risco ainda há chances de carregar o vírus e contaminar as pessoas, então continuo a adotar todas as medidas de prevenção. Reflito muito quando escuto falarem em gravidez planejada. No meu ponto de vista planejar uma gestação requer vários fatores favoráveis, dentre os principais estão estabilidade financeira, rede de apoio e organização de tempo. No meu entendimento, as mães de baixa renda não possuem esses fatores favoráveis, tornando o planejamento da gestação impossível. A romantização da maternidade é algo que atrapalha a experiência materna, criam-se  expectativas e na prática descobrem que o universo materno é bem maior e complexo. As mulheres acabam não estando preparadas psicologicamente para enfrentar os desafios que acompanham o nascimento de uma criança, e isso se intensifica quando elas não possuem uma rede de apoio, quando são obrigadas a fazer o desmame da criança para voltar ao trabalho, quando é necessário ficarem por um longo período distante da criança, quando os genitores não assumem o papel na vida da criança e etc… Sendo a mulher a principal responsável pela criação do filho, como se já não fosse o bastante, ainda tem que enfrentar uma sociedade patriarcal que dificulta a empregabilidade de uma mãe.

Em relação a minha gestação, eu demorei um tempo para aceitar, pois não queria estar grávida, pelo menos não naquele momento. Foi em um período em que minha vida estava uma correria, eu estava na metade da minha graduação, praticava esportes, e com a gestação tive que desacelerar. Foi uma  gestação com muitos enjôos do início ao fim, mas com o desenvolvimento da gestação fui aceitando e me sentindo mãe. Depois que a neném nasceu tive que dar um jeito para conciliar a maternidade com a vida acadêmica, e foi bem difícil. A maternidade aos poucos transforma a nossa vida, permitindo um entendimento melhor sobre como é ser mulher e mãe ao mesmo tempo, alterando nossas responsabilidades e prioridades e nos redireciona para novos rumos na vida. Posso dizer que me sinto realizada com a maternidade, porque consigo me fazer presente na vida da minha filha e dou bastante prioridade para isso, apesar de querer passar mais tempo com ela e não poder por conta do trabalho.

Em relação às atividades domésticas e cuidados com a Ana Flor, é bem dividido. No início meu companheiro tinha um pensamento bem machista em relação a isso, mas era um pensamento enraizado da sua criação. Na sua perspectiva as tarefas domésticas não eram coisas que ele, homem, teria que fazer, mas com diálogo o fiz entender que teríamos que dividir as atividades e não sobrecarregar nem um e nem o outro. Hoje em dia ele se adaptou e melhorou bastante, e tentamos manter um equilíbrio na divisão das tarefas e nos cuidados da nossa filha. Tem coisas que ele realiza com mais frequência como: fazer as compras, fazer a comida, e em relação a Ana é ele que dá banho, leva para passear, ele cuida dela. Eu fico mais com a  parte da limpeza e organização da casa e lavagem da roupa. E o que ele puder me ajudar, ele ajuda.

Neste período de pandemia me preocupo muito com as pessoas, principalmente com as de baixa renda, se elas têm o que comer, como elas estão, fico refletindo se as pessoas têm consciência da gravidade do período que estamos vivendo… Entendo que é um momento complicado mas temos que olhar a vida de uma forma diferente, é momento de ficarmos unidos. Com o isolamento social devemos parar e refletir sobre como estamos conduzindo a nossa vida e principalmente como estamos tratando as pessoas ao nosso redor. Fico preocupada com a forma que está sendo tratada a questão do racismo, das queimadas, a falta de compromisso com a população, mas faço o que eu posso para poder melhorar a minha vida e a vida do próximo.

Apesar de ser um momento difícil, a pandemia trouxe um aspecto positivo para a minha família: desde que entramos em quarentena a minha filha pode ter uma relação mais próxima com o pai, pois antes ele não tinha muito tempo para ficar com ela, saía cedo para estudar e depois ia para o estágio e só voltava a noite, os dois quase não tinham contato, e agora a relação entre pai e filha é bem próxima e para mim isso é algo relevante.

Ao refletir sobre o futuro pós pandemia, a primeira coisa que pretendo fazer é levar a minha filha na biblioteca pública. Lá existe um espaço para crianças, já levei ela algumas vezes e sei que ela sente falta, então ela irá adorar retornar ao local. Também faz parte dos meus planos para o futuro ir morar em uma colônia bem distante da cidade. Quero ter um lugar para plantação, com todo tipo de frutas, eu quero poder plantar e colher a minha própria comida, quero ter o máximo de contato possível com a natureza.

Gostaria de poder dizer a todas as mães que aproveitem bastante os seus filhos, aproveitem cada segundo, cada risada, que guardem na memória todo o sentimento bom, que tentem criar um ambiente familiar agradável. Isso é algo extremamente importante para eles; não deixem os seus filhos de lado! São momentos únicos, então dêem prioridade a eles para que no futuro não sintam arrependimento por não terem dado o devido valor a esses momentos.

Para finalizar gostaria de dizer que fiquei feliz em poder compartilhar um pouco da minha rotina como mãe durante este período de pandemia. Gostaria de agradecer às professoras organizadoras do projeto e também a entrevistadora, que teve bastante compreensão e paciência para coletar o meu relato, muito obrigada.”

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