O contato com a Gerciani ocorreu no dia 27 de novembro e finalizamos no dia 29 de novembro de 2020. A entrevistada consentiu seguir com a entrevista pelo aplicativo whatsapp no período da noite, após as crianças dormirem. Para não interromper o sono das filhas, ela concedeu a entrevista de forma escrita. Gerciani nasceu em Rio Branco no dia 8 de dezembro de 1997. Casada e mãe de três meninas, está gestante pela quarta vez, na espera de um menino. Ela permitiu que eu, Jessica Matias, colhesse e transcrevesse o seu relato, e essa é a sua história. 

Gravidez na adolescência. Conselho tutelar. Cesárea. Anticoncepcional, parto prematuro. Antibióticos. Laqueadura. Covid-19. Problemas respiratórios. Autônoma. Bolsa Família.

Me chamo Gerciani Albuquerque, me considero parda, tenho vinte e dois anos, sou casada há oito anos e tenho três filhas: Nicolly de nove anos, Heloísa de cinco anos e Laísa de um ano, e no momento estou com seis meses de gestação, estou esperando um menino. Nasci em Rio Branco, resido em uma casa alugada no bairro Rui Lino lll, e não cheguei a concluir o ensino médio. Meu esposo é borracheiro e atualmente eu sou autônoma, vendo roupas para complementar na renda da família e também sou beneficiária do programa Bolsa Família. 

Sou uma pessoa bem família, tenho uma relação bem próxima com os meus pais, e sempre estamos juntos, mesmo morando em casas diferentes. A figura paterna que tenho na minha vida não é o meu pai biológico, mas é o melhor pai que alguém poderia ter. Ele me criou praticamente desde o meu nascimento, ele é simplesmente um ótimo pai e um ótimo avô, minhas filhas amam ele.

Tornei-me mãe ainda na adolescência e abdiquei de muitas coisas, o mais importante a ser citado foi o abandono dos meus estudos. Não consegui conciliar a responsabilidade de ser mãe e dona de casa com a rotina de estudos. Quando engravidei da minha primeira filha, eu tinha treze anos, então não foi uma gestação planejada, eu era muito nova e mal sabia me cuidar, só descobri que estava grávida quando estava com uns quatro meses, porque minha mãe desconfiou e me levou para realizar o exame. Mesmo com o meu consentimento, a gestação foi considerada um crime por eu ser menor de idade e o pai da criança ter completado a maioridade naquele mesmo ano, então o hospital acionou o conselho tutelar. Eu, ele e a minha mãe tivemos que passar por várias audiências para tentar solucionar a situação, pois não queríamos que ele fosse preso. No final do processo ele teve que assinar um termo em que se responsabilizaria por mim até a minha maioridade, e mesmo que não estivéssemos mais juntos ele seria o principal responsável por mim e teríamos que comparecer nas audiências mensalmente. Nos separamos um tempo depois que a Nicolly nasceu, mas ele continuou a dar todo o suporte a ela. 

Alguns meses depois, conheci o meu atual esposo. Nossa relação foi bem intensa e em algumas semanas já fui morar com ele. Naquele tempo ele ainda morava na casa da minha sogra, com as irmãs e sobrinhas dele, e só o que eu posso dizer nesse momento é que graças a Deus que não moramos mais lá. Foram anos de brigas e desentendimentos com a família dele, e até hoje não falo com uma das irmãs dele, nem em comemorações e reuniões da família eu compareço se ela estiver presente. Hoje em dia tenho uma relação boa com a minha sogra, mas tipo assim de longe nos damos bem, mas para conviver todo dia eu não quero nunca mais. Quando me mudei, meus pais não permitiram que eu levasse a minha filha. Como eu era muito nova naquele tempo eles não acreditavam que eu teria responsabilidade para cuidar dela. E até hoje a Nicolly mora com eles. O pai dela foi morar em outro estado há um ano, no início ela queria ter ido com ele, mas sempre falava que não queria ir para morar, só queria ir passar uns dias e depois voltar para a casa dos avós. Já pensei em trazer ela para morar comigo, mas meus pais são bem apegados a ela e vice versa, quando ela vem passar o fim de semana na minha casa, constato que ela não se adaptaria a morar definitivamente comigo, acredito que seja melhor ela continuar morando com os avós mesmo. 

Estava casada a alguns anos quando engravidei da minha segunda filha, também não foi uma gestação planejada. Acredito que engravidei devido a troca de anticoncepcional, meu organismo não se dava bem com eles e tive que trocar de medicamento por diversas vezes. A gestação foi bem difícil, tive um quadro de infecção urinária grave e foi necessário ficar um longo período internada na maternidade, até que os médicos decidiram por uma cesárea. A Heloísa nasceu quando eu estava com oito meses de gestação.  Nesse tempo me dei conta que meu círculo de amizades tinha diminuído, por eu não ter mais tempo para sair e conversar, algumas pessoas foram se afastando de mim, tem umas que nunca mais voltaram a falar comigo, mas é assim mesmo nossas prioridades mudam e as amizades também. 

Quando descobri que estava grávida da minha terceira filha, entrei em choque, não queria acreditar de maneira nenhuma. Eu tomava o anticoncepcional, mas por causa de alguns problemas de saúde tive que tomar antibióticos por algumas semanas e, de acordo com o médico, um dos antibióticos cortou a eficácia do anticoncepcional. Naquele tempo só o meu esposo trabalhava e estávamos em uma situação financeira bem difícil. Não tivemos condições de comprar ao menos o enxoval da neném, mas graças a Deus, as pessoas doaram tudo para auxiliar na chegada dela. Tivemos que ir morar na casa dos meus pais por alguns meses, para tentar juntar dinheiro para quitar algumas dívidas. Foi uma gestação tranquila, não tive nenhuma complicação, mas a bolsa estourou antes do tempo e minha filha Laísa nasceu quando me encontrava com oito meses de gestação por meio de uma cesárea.

Agora estou gestante novamente, talvez seja por culpa minha mesmo, por confiar na pílula do dia seguinte. Cheguei a comprar e tomar a pílula, mas não teve eficácia. Ainda me lembro quando fiz o exame de beta hcg e confirmou a gravidez, bateu um desespero, ainda estava com uma criança de colo, fiquei pensando no que as pessoas iriam falar e pensar a meu respeito. Pensei até em tomar um chá que dizem ser abortivo, chorava tanto, fiquei extremamente abalada, mas meu esposo conseguiu me acalmar e aceitar melhor essa gestação. Bom, com esta gravidez decidi que será a última, não quero mais surpresas, não pretendo ter mais nenhum filho. Iniciei o pré natal e já dei entrada no processo de laqueadura, só estou aguardando o bebê nascer para realizar o procedimento. 

Antes da pandemia aluguei uma casa no conjunto habitacional, e estava trabalhando como garçonete em uma pizzaria. Nas primeiras semanas foram difíceis para a minha filha Laísa, ela era muito novinha e mamava exclusivamente no peito, mas por necessidade de trabalhar tive que oferecer fórmulas para ela. Minha mãe que cuidava das minhas filhas até praticamente meia noite, horário que eu passava na casa dela para buscar as meninas. Elas ficavam até esse horário com a minha mãe, porque meu esposo precisava ir me buscar no emprego e não teria como levar elas tarde da noite, então ele esperava até a hora em que eu saía do trabalho para juntos irmos buscar as meninas. 

Sempre tive uma rotina bem corrida devido as meninas serem bem agitadas, acordava cedo para preparar o café e arrumar a menina para sair junto com o pai dela, no caminho para o trabalho ele a deixava na escola. Eu ficava em casa cuidando da minha filha mais nova e me dedicando aos cuidados da casa e ao preparo do almoço, pois às onze horas eu ia buscar a Heloísa na escola. No período da tarde preparava uma comida para meu esposo jantar quando ele chegasse do trabalho, arrumava as meninas e ia deixar elas na casa da minha mãe. De lá eu seguia para o trabalho, trabalhava das quatro horas da tarde às onze e meia da noite, e tinha folga às segundas-feira. Assim era a minha rotina.

Com o isolamento social, o restaurante teve que fechar, ocasionando a minha dispensa do serviço; minha filha parou de estudar e meu esposo passou uns dias sem trabalhar. Mas logo a oficina voltou a funcionar como serviço essencial e ele retornou ao trabalho. Com a pandemia, tive que me adaptar a uma nova rotina, na verdade talvez eu nem tenha conseguido estabelecer uma rotina ainda, com as crianças em casa o trabalho se intensificou, toda hora tenho que arrumar, limpar, lavar, fazer comida, tenho sempre que estar de olho nelas para não brigarem, não se machucarem, elas não param nenhum segundo. Quando meu esposo chega a noite do trabalho elas vão assistir vídeos no celular com ele, enquanto eu faço a janta. Aqui em casa sou a única responsável por cuidar das crianças e também sou responsável por todos os afazeres domésticos. Meu esposo vai para o trabalho às seis e trinta da manhã e volta para casa umas oito horas da noite, então não tem como ele me ajudar. A parte dele é trabalhar para sustentar a família e principalmente pagar o aluguel e a luz. Desde que entramos em isolamento social percebi que as meninas ficaram bem estressadas, e com dificuldades para dormir. Elas estão com bastante energia e não tem opção para extravasar, estão enjoadas e irritadas dentro de casa. Meu esposo sempre gostou de levar elas para fazer as compras no supermercado e elas adoravam, mas agora ele vai sozinho, e toda vez é um momento de estresse porque elas ficam chorando e fazendo birras querendo ir junto. 

A minha família é cadastrada no Bolsa Família e automaticamente fomos aprovados para receber o auxílio emergencial. Mesmo assim enfrentamos algumas dificuldades, com a elevação dos preços dos alimentos, as compras acabam sendo insuficientes para o consumo mensal da família, e por passarmos mais tempo em casa a conta de energia sofreu um grande aumento. Damos prioridade no pagamento em dia do aluguel e da luz, e só depois fazemos as compras para casa, com o que sobra da nossa renda. 

Está sendo bem difícil manter a quarentena com as crianças, elas precisam passear, se distrair um pouco, descarregar um pouco as energias, elas estão sempre irritadas e inquietas e acabam me deixando estressada, mas eu tenho bastante medo de flexibilizar o isolamento social e a gente contrair a Covid-19, principalmente por elas possuírem problemas respiratórios (asma e bronquite). Meu  esposo por ter que trabalhar e voltar para casa com a possibilidade de estar trazendo o vírus, ficou bem neurótico. Quando ele chega do trabalho não permite que elas cheguem no portão para vê-lo, ele já toma banho do lado de fora da casa para só depois ter contato com elas. Qualquer mudança no comportamento delas ele já pensa que as meninas estão com coronavírus, mas é compreensível, todo cuidado é pouco principalmente com elas que pertencem ao grupo de risco. Possuímos uma boa relação com as nossas filhas, na verdade ele é mais tranquilo com elas, e elas são bem apegadas a ele, já eu sou mais estressada, acho que pelo fato de estar sempre carregada de tarefas e sem tempo para descansar e cuidar de mim. 

Com o decorrer da quarentena tratamos logo de cuidar da nossa imunidade, tomamos vitamina C, chá de limão com mel e alho, chá de laranja e bastante suco, bastava um espirro e já estávamos tomando chás e mais chás. Quando soube que estava gestante parei de fazer consumo dos chás, só estou ingerindo os remédios receitados no pré-natal. Aliás, só comecei a tomar os remédios recentemente, pois no início da gestação encontrei dificuldades para encontrar um módulo de saúde que estivesse realizando o pré-natal devido a quarentena. Mas, graças a Deus, agora o módulo de saúde aqui do bairro já voltou a funcionar e estou fazendo o acompanhamento direitinho. Nos dias em que eu tenho pré-natal marcado, a minha mãe vem para minha casa ficar com as meninas até eu chegar. Para falar a verdade, essas últimas semanas ela tem vindo me ajudar com as meninas constantemente, além do mal estar ocasionado pela gravidez, me sinto muito sobrecarregada, estou sempre cansada e estressada e ela tem me ajudado. Tenho consciência que essa nova gestação irá dificultar ainda mais as coisas, mas estou tentando não pensar muito nisso. Há um mês resolvi investir em ser uma revendedora de roupas, preciso de uma renda para comprar o enxoval do neném, meu esposo é do tipo que deixa tudo para a última hora, só fica repetindo que vamos dar um jeito, mas eu não quero confiar nisso. Estou contando com a venda das roupas para providenciar o enxoval do neném o mais rápido possível, tenho medo de ter mais um parto antes do tempo e ele nascer sem nada. 

Mesmo com o cansaço que a maternidade exige, ser mãe é algo maravilhoso, só não esperava ser mãe de quatro, sempre me imaginei mãe apenas de uma criança, um menino. Não foi como planejei, mas agora vou ter o príncipe da família.

A pandemia me fez parar e dar mais atenção às minhas filhas, agora posso acompanhar e me fazer presente no desenvolvimento de cada uma. Gostaria de dizer às mães que aproveitem esse momento para intensificar o vínculo com seus filhos, as crianças precisam sentir o quanto são amadas. 

Quando penso no futuro pós pandemia me sinto insegura, pois não sei como vai ser a minha rotina com um recém nascido e uma criança ainda muito pequena, não sei se conseguirei me adaptar e se conseguirei voltar a trabalhar fora de casa. São tempos difíceis, mas só tenho a agradecer a Deus, por estar livrando a minha família desse vírus e por estar me dando forças para suportar todas as dificuldades até aqui.

 

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