Na noite do dia 18 de novembro de 2020, eu, Aline Paiva, conversei com Klavmary sobre a sua vivência de maternidade na pandemia. Nascida no Ceará no dia 25 de junho de 1985, ela reside no Acre desde 2006. Mora no bairro Cohab do Bosque com a filha de 13 anos e o esposo com quem tem uma união estável. Possui ensino médio completo e trabalha na secretaria de um curso preparatório da cidade. Se autodeclara branca.

Em seu relato, Klavmary compartilha as dificuldades de continuar sua jornada de mulher, mãe e esposa, enfrentando várias adversidades como o desemprego do marido e a sobrecarga de responsabilidades que se acumularam com a chegada da Covid-19 no Acre.

Gravidez não planejada. Maternidades na pandemia. Auxílio Emergencial.  

Diante de uma gravidez não planejada e num relacionamento de apenas dois meses, Klavimary, então com 21 anos, precisou encarar o término do relacionamento, pois seu esposo ainda não se sentia preparado para a paternidade.

Estava cheia de sonhos de contos de fadas insistiu para que o relacionamento com o pai de sua filha tivesse continuidade, mas não conseguiu ir adiante. Então, mesmo sem autorização médica, Klavimary viaja com oito meses de gravidez para o Ceará em busca de tranquilidade na reta final de sua gestação. Porém, por lá também encontra um ambiente turbulento, presenciando uma agressão de seu ex-padrasto a sua mãe, o que ocasionou um mal estar devido ao avanço de sua gestação. Depois de verificar no hospital que tudo estava bem com ela e sua filha, foi para a casa de sua avó onde se hospedou de maneira improvisada até o nascimento de sua filha.

Com a esperança de que a situação com o pai de sua filha mudasse, Klavimary volta para o Acre com sua filha nos braços para apresentar a todos por aqui, inclusive o pai. Ocorreu uma tentativa de ficarem juntos e formarem a família que Klavimary tanto sonhava, mas ainda não foi o momento de ficarem juntos.

Foram muitas idas e vindas na relação com o pai de sua filha até que chegasse o momento em que conseguiram ficar juntos, o que já fazem há oito anos.

“A maternidade me transformou de menina sonhadora medrosa para uma mulher guerreira não abaixa a cabeça em meio às provações. Os sonhos não acabaram, mas adormeceram.”

Sobre a relação com sua filha, Klavimary diz:

“Ela sempre foi minha parceira desde bebê, como falei, fiquei muito tempo separada, então era eu, ela e Deus, pois minha família mora toda em Fortaleza, não tinha ninguém pra contar aqui. E uma pessoa que ganhando um salário não poderia pagar uma babá, meus patrões, por observarem que ela nunca atrapalhou meu desempenho, permitiram que trouxesse ela para o trabalho. Até 2015 e 2016, ela, quando não estava na escola, estava comigo aqui no trabalho. Hoje, como pai dela está desempregado, ela tem ficado com ele. Ela sentiu minha falta porque era eu e ela para tudo e hoje de manhã quando saio ela ainda está dormindo e quando chego às vezes também está dormindo.”

Klavimary segue seu relato discorrendo sobre os desafios vividos na relação com seu marido e no dia a dia de seu lar, como desde 2015 ele não tem um trabalho formal; ele vinha obtendo sua renda de bicos como, por exemplo, motorista de transporte escolar. Mas com a pandemia e a paralisação das aulas, ele passou a ter dificuldades em encontrar outro trabalho, mas conseguiu se cadastrar para receber o auxílio emergencial que o governo federal disponibilizou durante a pandemia.

“Como ainda restava meu trabalho fixo, peguei todas as horas vagas e comecei a fazer extras e depois que termina meu expediente às 18 horas, faço uns bicos até 22h30min pra poder levar o sustento da casa.”

As atividades domésticas aumentaram para Klavimary. Antes da pandemia, ela se dedicava aos afazeres de casa apenas nos finais de semana. Como nos primeiros meses da pandemia as medidas de confinamento levaram à redução na carga horária de trabalho fora, Klavimary passou a ficar mais tempo em casa e, com isso, o comodismo do marido e da filha aumentou, passando a ser ela a responsável pela limpeza e organização. A rotina escolar da filha também mudou com a paralisação das aulas presenciais; o acompanhamento passou a ser virtual, mas Klavimary destaca que é muito difícil para a filha ter o mesmo compromisso que tinha nas aulas presenciais. Como ela voltou a sair de casa para o trabalho às 7 horas da manhã e retornar apenas por volta das 22 horas, fica complicado acompanhar a filha mais rigorosamente. Mesmo antes da pandemia já havia alguns alguns cuidados com a saúde:

“Eu e minha filha temos problemas respiratórios, então o cuidado é redobrado. Não fiquei isolada nenhum dia, reduzi minha carga horária, mas trabalhei todos os dias, porque além de ter só minha renda, parar ia complicar mais ainda a situação de casa. Então, como eu já tinha que sair para trabalhar de qualquer jeito, fiquei responsável também por entrar nos locais públicos quando fosse necessário, mercado, farmácia, porém, com todos os cuidados. Chegava em casa e ia direto para o banheiro. Também tratei o início de uma depressão sozinha, sem que ninguém soubesse, porque quem vive com essa doença está ciente que somos julgadas e eu já não estava legal emocionalmente e psicologicamente, preocupada com a situação caso a empresa que eu trabalho fechasse. Então não teria condições de enfrentar os julgamentos das pessoas, como por exemplo: “É frescura, falta de orar”. Já tive na gravidez, algumas crises antes. Mas com a pandemia a crise foi maior, choros involuntários, insônias, pensamentos bobos de querer desistir, de se sentir um nada, inútil. São coisas que não sei direito explicar, mas sei falar que percebo que estou em crise e tento ser forte e lutar. Mas não é fácil!”

.

As primeiras impressões de Klavimary com as notícias sobre a Covid-19 e a chegada do vírus ao Brasil foram:

“Achei que não ia chegar aqui e dia 17 de março quando surgiu o primeiro caso aqui no Acre eu achei que era o fim. Pensei: Vou pegar e morrer, minha filha não pode pegar porque nem conseguia imaginar perdê-la. E veio o pensamento também de como iríamos viver sem poder trabalhar, sem renda como iria dar o alimento para minha filha. Então comecei perder o sono, chorar sem parar, estava um zumbi em forma de gente. Até que meus patrões falaram que os professores iriam trabalhar online e eu viria para a secretaria em horário reduzido. Amenizou a preocupação, mas os bicos para sustentar a renda já não podiam mais. Tive que regrar despesas de casa onde já era regrado, tinha dias que eu chorava, dias que eu ria de nervosa e me derramava sozinha no banheiro pra minha filha não ver.”

Klavimary conta que alguns parentes e amigos contraíram o vírus:

“Minha cunhada pegou logo no início, mas passa bem, graças a Deus. Alguns vizinhos também pegaram. E um amigo, que é cunhado da minha irmã; alguns tios faleceram. Porém esse vírus é tão cruel que nem se despedir ou abraçar um amigo, ou um parente pra dar um colo não podemos. Então está aquele sentimento de que estão viajando pra longe.”

Sobre o futuro Klavimary diz:

“Hoje penso só no agora. Porque não sei se amanhã estarei aqui. Fiz tantos planos para esse ano e no final ficar confinada gastando mais do que planejei, pois tudo aumentou e a renda diminuiu. Então acordo e penso somente no que vai ter pra hoje. Que seja um dia abençoado. O que me dar vontade de fazer faço logo.”

Klavimary relata o que aprendeu com a pandemia:

“Aprendi a enxergar mais as pessoas e ver o quanto são egoístas, o quanto muitos não têm amor ao próximo. Porém aprendi também a ter mais cuidado e empatia com meu próximo. Não falo de parente, mas sim o ser humano.”

E sobre a vida após a pandemia, Klavimary acredita que:

“Vai ter de tudo, aqueles desesperados que vão passar por cima de todos se precisarem pra recuperar o tempo perdido e seu financeiro. E aqueles que vão procurar valorizar mais as pessoas cada segundo da vida.”

Como mensagem sobre esse momento turbulento Klavimary diz:

“Agradecer a Deus o quanto ele foi e é misericordioso e zeloso com minha vida e de minha família, dos meus chefes também nessa pandemia. Eu que tenho crise frequente respiratória nesses nove meses de pandemia nem espirro tive. Mesmo estando na linha de frente da minha casa e do meu trabalho, cuidando de todos com maior amor, Deus sempre me abençoando. Creio que quando temos amor e empatia ao nosso irmão, mesmo quando não somos correspondidos da mesma forma, DEUS vem e nos surpreende que o único amor que precisamos para nos manter de pé é o do nosso Deus.”

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *