Beatriz tem 38 anos, nasceu no dia 15 de fevereiro de 1982, em Rio Branco, no Acre. Tem quatro filhos, mas mora com seu pai e uma filha, um dos filhos mora com a avó e outros dois já são casados e moram com suas famílias. Reside no bairro Aeroporto Velho. Estudou até a quinta série e atualmente trabalha como faxineira. Se autodeclara parda.

Na tarde do dia 18 de novembro de 2020, por meio de conversa em aplicativo de mensagem, Beatriz relata a mim, Aline Paiva, sobre os desafios de ser a provedora da família e ter que enfrentar o medo do vírus para continuar trabalhando. A apreensão pela vida dos filhos que foram contaminados pela Covid-19.

Covid19. Gravidez na adolescência. Maternidade solo. 

Beatriz relata que foi mãe muito jovem, ficou grávida de seu primeiro filho aos 15 anos. Nenhuma de suas gestações foi planejada, sendo uma próxima da outra e ainda era adolescente. Vivenciando a maternidade solo, apenas com a ajuda de seus pais no cuidado de seus quatro filhos, os registrando somente com o seu nome. Mas enfatiza o grande amor que sente por cada um. Para manter o sustento de sua família, Beatriz faz faxinas em casas, logo no início da pandemia ficou sem trabalho, mas em pouco tempo conseguiu outro. Ainda assim Beatriz relata que a quantidade de diárias de faxinas diminuiu, o que interfere diretamente no seu rendimento financeiro, causando grande preocupação a ela. Mas relata que nesse novo trabalho que conseguiu logo no início da determinação de confinamento, seu empregador continuou a pagar pelos seus serviços ainda que com dois meses sem ir até o trabalho, fato que Beatriz agradece muito. Mesmo que o pai tenha conseguido se cadastrar para receber o auxílio emergencial fornecido pelo governo federal no período pandêmico, Beatriz lembra que já está chegando ao fim o recebimento desse auxílio e ainda assim a rotina não normalizou. Ela explica que seu pai já é idoso e impossibilitado de trabalhar devido questões de saúde, sofreu um AVC no início de março, o que foi um susto, pois seu pai sempre foi muito ativo. A filha que mora com ela é menor de idade, então cabe a Beatriz a responsabilidade de manter financeiramente a casa e todas as despesas. Com relação aos afazeres domésticos mesmo que a maior parte fique sob sua responsabilidade, sua filha a ajuda e cuida do avô durante o período em que Beatriz está no trabalho.

Beatriz acreditava que a Covid-19 seria mais um vírus vencido rapidamente como outros que já ocorreram antes como, por exemplo o H1N1 e a gripe suína, com a rápida criação de uma vacina. Mas, infelizmente, ao contrário das expectativas, a pandemia está se prolongando mais do que o esperado e causando até mesmo um sentimento de pânico em Beatriz. O medo da contaminação pelo vírus ou até mesmo o falecimento de alguém da família a assombra, acreditando na fatalidade do vírus é real. A preocupação é diária, não apenas com seus filhos, mas com toda a comunidade, principalmente aquelas que não acreditam na veracidade da Covid-19, negligenciando os cuidados. Como está seguindo as recomendações de distanciamento social, saindo de casa apenas para trabalhar ou compromissos médicos, Beatriz tem se sentido muito isolada.

Esse ano iria matricular sua filha no CEJA [Programa Estadual de Educação para Jovens e Adultos], porém a pandemia interrompeu as aulas antes mesmo que começassem, fazendo com que a filha de Beatriz ficasse sem aulas.

Beatriz lembra que seus outros dois filhos foram contaminados pela Covid-19, explica que eles trabalham como mecânicos e que os estabelecimentos em que trabalham não fecharam. Agradece a Deus por terem se recuperado. Algumas amigas e conhecidas também contraíram o vírus, algumas se recuperaram, mas outras infelizmente faleceram. Então, Beatriz enfatiza os cuidados redobrados que vem tomando, até pelo fato de ter seu pai no grupo de risco e ela mesma ter problemas respiratórios. Quando sai para o trabalho ou qualquer outro compromisso fora de casa é sempre com o álcool em gel na mão, sempre com máscara, higienizando bem as compras do mercado e a si mesma logo que chega em casa, seguindo as recomendações dos médicos e autoridades sanitárias. No período em que seus filhos estavam doentes não teve contato com eles, ela se mantém sem receber visitas em casa e sem frequentar nenhum tipo de aglomeração social.

Beatriz diz que não consegue pensar ou fazer planos para o futuro, a não ser pedir a Deus para que ajude a vencer o momento turbulento. E finaliza dizendo:

“Peço a Deus que saia logo uma vacina, para resolver logo tudo isso e as pessoas voltarem ao normal, recuperarem suas vidas, voltarem ao trabalho. Correr atrás do prejuízo que algumas pessoas tiveram. Eu acho que as pessoas vão pensar melhor agora.”

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