A entrevistada prefere não se identificar, então optei por chamá-la de Antônia. Ela tem 37 anos, nasceu em Brasília no dia 17 de fevereiro de 1983, mas mora há muitos anos no Acre. Atualmente reside no bairro Floresta Sul com as duas filhas. É engenheira florestal e nessa pandemia divide-se entre os cuidados com as filhas, o trabalho em home office e as aulas do doutorado, que iniciou no ano de 2020.

No início da noite do dia 09 de novembro de 2020 Antônia relata a mim, Aline Paiva, como a pandemia alterou o planejamento do ano nas vidas dela e de suas filhas: se, por um lado, ela pôde cursar mais disciplinas no doutorado, por meio do ensino remoto, por outro, sofre com o distanciamento dos familiares que moram em outro estado, que não pôde visitar devido ao momento delicado para viagens. Ela destaca que o confinamento proporcionou uma desacelerada no ritmo intenso de trabalho e uma aproximação das filhas.

Pandemia. Maternidade solo. Home office. 

A partir do dia 23 de março começamos a ficar nessa condição de confinamento. As aulas das crianças foram suspensas inicialmente e depois retomadas de forma remota e nesse meio tempo eu também me vi dispensada do trabalho presencial.
Trabalho na Secretaria de Meio Ambiente do Estado do Acre e fomos incentivados a ficar em casa nos primeiros meses. Por conta de uma coincidência de conseguir colocar uma internet de qualidade um mês antes da pandemia começar a tomar essa forma, senti de alguma forma facilitada pra continuar dando conta das atividades externas mesmo estando dentro de casa.

Sou uma mãe solteira, não moro com o pai das minhas filhas e então no dia a dia fico muito na função de estar fazendo os trabalhos com elas. Tenho uma pessoa que me ajuda em casa e me dá uma super força, mas no primeiro mês de pandemia, ainda naquela ausência de informações e um certo medo, cada uma ficou na sua casa, mas depois do segundo mês, em abril, começamos a retomar uma agenda mais interna de casa, quem me ajuda em casa voltou a vir e passou a ajudar nesse trabalho doméstico mais forte. 

O que acho que mudou muito nesse ritmo da pandemia é que agora tenho acompanhado muito mais de perto a demanda de trabalho das minhas filhas, mas por outro lado o meu rendimento profissional caiu muito porque a qualidade do meu trabalho executado no meu escritório era muito maior.

Agora, pela manhã, eu me dedico à dinâmica da casa, de ir ao mercado e fazer o almoço; no período da tarde, me dedico ao trabalho externo, que é o “ganha pão”. Mas sinto uma dificuldade muito grande de sentar e concentrar para fazer as coisas sem interrupções. Minhas filhas – uma com dez e outra com oito anos – ainda me demandam bastante na questão da alimentação, na tarefa da escola.

No final de setembro o governo do estado decretou que voltássemos para as atividades presenciais, mas abriu uma exceção para pais que estivessem acompanhando crianças em trabalho remoto, eles poderiam permanecer em home office e assim eu estou, sem previsão de voltar ao trabalho presencial esse ano, as crianças também sem previsão de voltar às aulas presencialmente.

Para o bem ou para o mal sinto que meu rendimento caiu muito, sinto uma dificuldade muito maior de me concentrar nas minhas questões profissionais, mas sigo com fé de que ano que vem uma vacina saia e o vírus perca um pouco da força.

Os planos para o futuro o lance da pandemia bagunçou muito porque eu entrei em um programa de doutorado no Rio de Janeiro e o ano que vem eu ia passar o ano lá para cumprir algumas disciplinas, e aí com a pandemia os meus planos que estavam previstos para acontecer com algumas atividades de campo agora em 2020 vão ficar para 2021. Então afetou bastante o meu planejamento. De um outro lado, a pandemia me deu oportunidade de fazer mais disciplinas do doutorado do que eu estava prevendo, pois agora com a modalidade remota eu consegui, como ponto positivo, fazer muito mais do que o triplo de disciplinas que eu faria se tivesse que estar presencialmente esse ano.

Eu estava com previsão de duas vezes ao ano ir lá para cumprir algumas disciplinas, mas sem a necessidade de me deslocar até o Rio eu consegui fazer várias disciplinas e isso foi bom.

Com relação a dinâmica com as minhas filhas eu acho que nos aproximamos muito, porque eu estava vivendo uma dinâmica muito intensa de trabalho até o ano passado e esse ano várias coisas aconteceram no trabalho, mas pude estar muito mais próxima e mais atenta à saúde e aos cuidados do bem estar delas e do meu em casa. Tenho tido essa oportunidade de continuar recebendo um salário, delas continuarem tendo aulas e mesmo assim a gente tem a possibilidade de se aproximar, de estar perto e de estarmos guardadas dentro de casa.

A dinâmica social foi mais difícil: os quatro primeiros meses ficamos bem confinadas mesmo, sem encontrar com pessoas de fora. Depois a gente foi lidando com a situação de que nossa família não mora aqui e que como temos alguns amigos que vivem a mesma situação e essas pessoas são nossa família aqui no Acre, e que também estão tomando as medidas como a gente de se precaver de adoecer. Então abrimos as exceções e hoje em dia está muito equilibrado, pois conseguimos manter uma vida social com as mesmas pessoas. Nos finais de semana [encontramos] com amigos e os filhos desses amigos eu considero como sobrinhos, então acabamos nos encontrando bastante, na medida do possível, aos finais de semana, um almoçando na casa do outro.

A maternidade na minha vida foi aos 27, 28 anos. Eu morava em Manaus, fazia mestrado. No segundo ano do mestrado engravidei da minha filha mais velha, com dez anos hoje. Estávamos vivendo uma fase muito bonita de sentimentos profundos de amor com o pai delas e o que me trouxe para o Acre foi essa relação de família, de formamos uma família pra cá. Terminei meu mestrado e vim para o Acre grávida de oito meses e aqui tive minhas duas filhas.

Com quatro anos de idade da mais velha e dois anos da mais nova, eu e o pai delas nos separamos, ele foi morar em Brasília. Boa parte de nossa família é de lá. Ele foi a trabalho e está por lá, e a gente continuou por aqui. Eu tenho um companheiro, a gente não mora na mesma casa, mas temos uma vida com uma cumplicidade muito grande, nos apoiamos muito, isso é algo positivo.

A maternidade mudou meus planos, se eu não tivesse engravidado no final do mestrado provavelmente eu [não] estaria no Acre. Chegando no Acre consegui um trabalho bom. [Fui] muito feliz ao longo dos anos que trabalhei na secretaria, esse ano está um pouco diferente, mas estou me reinventando com essa possibilidade de melhorar meus estudos e fazer um doutorado, então está tudo seguindo bem.

Com a saúde a gente sempre teve cuidados, temos plano de saúde, então anualmente fazemos checapes e sim, depois da pandemia fiquei um pouco a neurótica do limão com própolis, então foi algo que até o mês passado era diário, sempre fazia limão com própolis; eu e minhas filhas tomávamos, agora só estamos só no própolis, algumas gotinhas por dia só pra reforçar a imunidade.

Com certeza muitas mudanças, no meio do ano minhas filhas não puderam ver o pai e isso afetou muito o estado psicológico delas, de não encontrar com a família. Eu mesmo também sempre viajava muito, esse ano passei o ano inteiro em casa com elas, mas em dezembro vamos visitar a família para passar as festas de final de ano com a família.

Eu acho que o que vai vir é a torcida por uma vacina e aprender a conviver com esse vírus, não tenho mais tanto temor quanto eu já tive no início, hoje em dia estou muito mais segura das coisas que a gente pode fazer para minimizar as possibilidades de contágio e fazendo isso o coração muito mais tranquilo.

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