Preferindo ficar no anonimato, Maria, como optei em chamá-la, tem 21 anos e nasceu em Rio Branco, no Acre, no dia 22 de novembro de 1998. Maria reside no bairro Apolônio Sales com seu marido e um filho que está às vésperas de completar um ano. Ficou desempregada logo que iniciou a pandemia e atualmente dedica-se integralmente aos cuidados com o filho e as aulas do curso superior que tenta dar continuidade. Se autodeclara amarela.

No final da tarde do dia 17 de outubro, entre um choro e outro do pequeno filho, Maria relata a mim, Aline Paiva, seus desafios com a maternidade durante uma pandemia.

Gravidez Não Planejada. Desemprego. Estudante. 

Mesmo estando em um relacionamento de oito anos, Maria conta que sempre se preveniu com o uso de anticoncepcional – tentou a injeção, mas como o organismo não se adaptou passou a tomar a pílula. Devido à falta de informação e a estar desligada, fez uso de antibiótico. [Uma das contraindicações com relação ao uso da pílula como contraceptivo é quanto à ingestão de antibióticos, pois o seu uso anula o efeito contraceptivo da pílula]. Como resultado dessa desinformação, Maria é surpreendida com uma gravidez não planejada aos 20 anos e sente-se desesperada, pois não desejava ser mãe e não se sentia preparada para esse momento em sua vida. Ela admite que pensou na possibilidade do aborto, questionando se poderia seguir adiante com a gravidez e assumir a responsabilidade de uma criança em sua vida. Os dois, ela e seu marido, discutiram as possibilidades, mas ele não queria que ela interrompesse a gravidez. Maria passa a encarar a ideia de que seria mãe, mas ainda sentindo-se atordoada com sua nova realidade e com a sensação de que “a ficha não caiu”. Teve dificuldades de se identificar como mãe, porém diante do primeiro choro de seu filho constata que sim, agora ela é mãe! Ainda sentindo-se perdida sem saber ao certo o que fazer com aquela criança em seus braços a única ação que conseguia era chorar. Após o susto com a descoberta da gestação e ainda com dificuldades de aceitar a maternidade em sua vida Maria relata:

Me sinto exausta, cansada, quero sair e não posso, me sinto presa, eu perdi minha liberdade, minha independência. Eu me sinto completamente presa e responsável por uma criança indefesa. Não me sinto mãe, me sinto obrigada a cuidar de uma criança.

Pelo fato de estar desempregada, Maria está sempre em casa cuidando integralmente de seu filho, o marido só a ajuda após muita insistência de sua parte. Sente que os trabalhos domésticos aumentaram, não conseguindo desempenhar nenhuma outra atividade como, por exemplo, estudar, ou ler, pois a criança solicita sua atenção e cuidados a todo o momento. [Inclusive nossa conversa foi interrompida várias vezes pelo choro de seu filho, demonstrando a sua real dificuldade em não ter sua atenção totalmente voltada a ele].

Mas Maria explica que, antes da pandemia, quando ainda trabalhava fora, as tarefas domésticas eram mais divididas e seu marido a ajudava mais com os cuidados com o filho. Após a pandemia sente-se sobrecarregada com tudo, cuidados com a casa e com o filho, na verdade ela acha que tudo se agravou depois da pandemia, caso contrário as possibilidades de conseguir outro trabalho seriam maiores. Ela relata sua busca na entrega de currículos no mercado de trabalho, porém sempre tem como resposta que as contratações só ocorrerão após o momento pandêmico passar. Até mesmo a perda de seu último emprego foi justificada devido a pandemia pois, como ela naquele momento se encaixava no grupo de risco por ser lactante, teriam que encerrar seu contrato de trabalho.

Ao se deparar com as primeiras notícias sobre o vírus, Maria fala que logo pensou que em poucos meses a doença já estaria espalhada pelo Brasil com todos se contaminando rapidamente. Maria acredita que ela já se contaminou, pois sentiu todos os sintomas, mas não quis procurar a confirmação se estaria ou não com a Covid-19 pelo medo de sair de casa e aí sim se contaminar, no caso de ter sido apenas um alarme falso. E relata o que sentiu com as medidas de isolamento impostas:

Eu já tinha saído de uma quarentena da cesárea que foram quarenta dias, depois teve a licença maternidade. Então eu estava praticamente num isolamento, quase saindo de um isolamento e aí entrei em outro. Eu chorava muito e me desesperava porque eu não conversava com ninguém, eu não tinha tempo, era limpando tudo a toda hora.

Como seu marido não parou de trabalhar mesmo no que se acreditou ser o pico de contaminação na cidade, ela relata que era trabalhoso sempre que ele chegava em casa, tendo que higienizar bem as roupas e tudo o que ele trazia de fora. Mas conta que o excesso de limpeza sempre foi uma constante em sua casa, mesmo antes de todas as recomendações feitas pela OMS, ela e o marido já tinham o hábito de sempre higienizar tudo, ainda mais após a chegada de um bebê em casa.

Com ela desempregada, seu marido agora acumula dois empregos fora de casa e, com isso, sua sobrecarga de atividades domésticas aumentou. O marido, com medo de estar contaminado, alega ser melhor não cuidar da criança para não contaminá-la. Além de ficar pouco tempo em casa, nos momentos em que está em casa aproveita para dormir ou descansar, às vezes nem ao menos é visto devido ao conflito de horários em que ambos estão acordados. Maria ainda assim acredita que o início foi mais complicado e que agora estão conseguindo se adaptar melhor ao momento vivido. Maria explica que tentou ser incluída no auxílio emergencial oferecido pelo governo federal, mas por motivo de sua recém-demissão do último emprego ter acontecido justamente nos primeiros meses de pandemia, ela passou a receber o seguro desemprego, o que a desqualificava pelos critérios do auxílio. Mas após o término dos meses em que recebia o seguro desemprego, Maria conta que a renda da família caiu, pois seu salário ajudava muito com as despesas da casa e dela, limitando os gastos apenas para manter o necessário com a casa e as necessidades da criança.

Dividindo a atenção entre uma mamada e outra, o acalento do colo e nossa conversa, Maria fala que nenhum familiar seu foi contaminado pela Covid-19, mas que dois amigos e seus familiares se contaminaram com o vírus; sabe de casos de mortes entre parentes de algumas amigas e conta que mesmo sua mãe sendo uma das mais resistentes em seguir as medidas de prevenção não se contaminou.

Nesse momento da conversa Maria se lembra do susto que passou durante os meses de isolamento mais rigorosos, no dia em que precisou se encaminhar a uma UPA em busca de atendimento médico para seu filho, pois ele estava com uma febre que não cessava e como dias anteriores ela e o marido tinham se sentido mal suspeitando de Covid-19, acreditaram na possibilidade de terem se contaminado e assim passado o vírus para a criança. Como um dos trabalhos de seu marido é durante a noite, ele precisou sair do trabalho para ajudá-la no deslocamento com a criança e mesmo com muito medo de uma possível contaminação no lugar do atendimento médico, relata que o local estava seguindo rigorosamente as medidas de higienização. Ela diz ter sido muito bem atendida por todos, médicos, enfermeiros e equipe de apoio, depois de seu filho ser devidamente medicado houve melhora e puderam voltar para casa.

Por fim, Maria fala o que pensa sobre o futuro e mesmo nas incertezas que a maternidade lhe apresenta e não saber ao certo o que pode acontecer, fala:

Eu quero muito que tenha logo a vacina, que eu consiga um emprego, que as pessoas consigam se manter novamente, que esse caos acabe. E mais futuramente quero terminar minha faculdade, um dos meus maiores sonhos.

E sobre algum tipo de aprendizado para ela e para a sociedade nesse momento de crise sanitária que ainda está ocorrendo ela fala:

Percebi como as pessoas são burras, pois a gente poderia muito bem se prevenir e evitar que o número de contaminados aumentasse, mas ao contrário disso as pessoas não se preocupavam com os outros, com o próximo para ajudar a diminuir a curva de contaminação. Até mesmo minha mãe que não se preocupava para mim era um choque e eu não quero ela em contato com meu filho. Eu queria que as pessoas acordassem mais e percebessem, até mesmo nosso presidente que não deu exemplo nenhum a não ser fazer o que não era para fazer. Aprendi que não se deve ir pela cabeça dos outros, siga as instituições de saúde.

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