Cecília Monteiro é paraense e nasceu no dia 02 de abril de 1980. Ela se reveza entre as aulas do mestrado, que iniciou recentemente, as aulas como professora de Hatha Yoga e o trabalho de consultora de marketing. É mãe solo: tem uma filha que já está na fase adulta e um filho ainda na pré-adolescência. Voltou a residir em Rio Branco em 2017 e atualmente mora no bairro Placas. Se autodeclara parda.

No dia 10 de novembro durante uma pausa em seu trabalho de home office, Cecília envia áudios em aplicativo de mensagem com seu relato de vivência da maternidade na pandemia, que eu, Aline Paiva, transcrevo a seguir.

Gravidez na adolescência. Trabalho autônomo. Home office. 

Cecília inicia seu relato contando como acontece a maternidade em sua vida e o desenvolvimento de sua relação com seus filhos:

“Vou iniciar respondendo como aconteceu a maternidade na minha vida: fui mãe adolescente, aos 17 anos, engravidei de um namorado, meu primeiro relacionamento longo. Nós ficamos seis anos juntos, mas não tivemos maturidade para casa e tudo o mais, e aí, depois desse tempo, nossa filha estava com 10 anos quando a gente terminou o nosso relacionamento. Mesmo nessa fase com ele e nessa primeira fase da minha filha eu tive o suporte financeiro dos meus pais, morei com a minha mãe e fui apoiada financeiramente pelo meu pai até terminar os estudos. Graduação e primeiros empregos eram simbólicos, essa coisa de estágios… até que, quando eu tinha 25 anos, eu casei, não com o pai da primeira filha, mas com o primeiro marido, que foi o pai do meu segundo filho. Nós passamos 10 anos juntos, que foi essa fase mais adulta e madura. Tornei-me adulta quando me tornei mãe, mas completamente imatura. Dos 25 anos para frente eu fui assumindo as responsabilidades de casa, filho, marido e profissional. Quando nós tivemos o nosso filho, eu tinha 30 anos e assim estou com dois filhos, uma de 21 para 22 e um menino que completou 11 anos em agosto.

A relação com os meus filhos: com a minha filha mais velha – eu era adolescente; foi não sei se problemático ou conflituoso, ou mais opressivo, porque foi uma gravidez impositiva, não foi uma escolha minha, foi totalmente do acaso, por conta da molecagem de adolescente, com iniciação sexual e sem orientação adequada, ainda bem que era com o meu namorado da época, mas, enfim, não foi uma escolha e foi numa fase em que eu não queria ter escolhas, eu queria ter uma escolha por dia, foi muito aos poucos essa entrega da mulher, aquela menina de 17 a 20 anos, aquela jovem mulher para essa passagem da maternidade. Demorei muito a me assumir como mãe, ainda que isso não diga respeito ao meu compromisso e a minha responsabilidade social com essa criança. Minha filha é uma maravilha de pessoa, uma mulher maravilhosa, inclusive ela já é mais velha do que eu quando a tive e é bem responsável [risos]. Então eu acho que deu tudo certo, apesar do meu conflito inicial. Tive um conflito entre o que eu precisei abrir mão e as obrigações que eu precisei assumir, que não foram escolhas. Então foi uma construção demorada de se fazer, como me entender como mãe da minha filha. 

E do meu filho, novamente, não foi uma surpresa agradável. Eu estava casada, mas não era uma opção engravidar. Eu não sei como é esse prazer de dizer: Ah, agora eu vou parar de tomar a pílula para ver o que acontece, nós queremos engravidar! Não sei o que é isso, aí nesse ponto, nesse início, é sempre um “baque”. As duas vezes foram “baques” me assumir como mãe dessas crianças [risos]. Esse projeto de curto, médio e longo prazo que é ter filhos. Aí depois tudo se assimilou, porque eu acho que a cronologia das minhas fases foi sempre adequada a eles, quando eu estava adolescente, eu tinha uma filha e precisava estudar e começar minha vida profissional. Depois, quando eu estava casada e me estabelecendo nessa vida profissional, dando os primeiros passos para a conquista de um resultado financeiro, de uma boa condição material, engravidei. Foi um passo atrás, porque engravidar exige dedicação, exclusividade e não sei como que isso se dá satisfatoriamente em todas as áreas, é muito complicado. 

Eu não sei o que é essa experiência de ser uma boa mãe, ser uma boa aluna e ser uma boa profissional. Essas primeiras fases do nascimento até os sete anos dos meus filhos foram sempre assim: eu precisei de abrir mão de muitas coisas por eles, para estar com eles. Não por eles, mas pela maternidade, então muita coisa que eu poderia ter ido adiante coloquei uma “marcha” lentíssima e um “freio de mão” puxadíssimo porque eu optei por me dedicar à maternidade”.

Sobre a distribuição das tarefas domésticas antes e depois da pandemia:

“Tem uma peculiaridade, porque eu voltei para o Acre em 2017 com as crianças, meu casamento acabou com o pai do meu filho e a gente estava nessa fase de adaptação ao Acre, ao retorno e eu estava muito atenta à condição emocional das crianças. A minha filha já era grandinha, mas rompeu com uma fase que ela estava curtindo viver em São Paulo, mas no final já não estava tanto, porque sofria com a separação, apesar de ser o padrasto dela, a separação é da família e não só do casal. E especialmente meu filho que naquela época estava saindo da primeira fase da infância, sete e oito anos… acho que ele já tinha nove, mas é muito apegado ao pai, então eu fiquei bastante contida de qualquer movimento, para ficar na empatia para com eles. 

A minha filha ficou bem instalada na casa da minha mãe, o meu filho não quis voltar para o apartamento que a gente morava antes de ir para São Paulo, pois remetia ao pai e eu entendo, então fiquei nessa fase um pouco sem saber, sem chão ou estrutura que fosse minha. Ficamos hospedados na casa da minha mãe de 2017 até o finalzinho do ano passado, que foi quando eu me mudei para a casa que estou. No final de 2018 comecei um novo relacionamento, a gente namorou 2019 todo e no final do ano resolvemos morar juntos, eu vim para a casa dele, que agora é nossa [risos]. Fui muito bem recebida, foi uma decisão que tomamos juntos; temos as minhas acomodações e as acomodações do meu filho. Eu e meu marido de agora, a gente se divide bem, não tem problema, porque demos sorte. Na véspera da pandemia a gente estava nessa fase inicial dessa decisão que tomamos de morarmos juntos. A gente se dividia bem, cuidávamos da casa, já que a casa era um símbolo da nossa união. Morar junto traz a casa como esse símbolo dessa aliança, então a gente cuidou bem da casa nessa véspera de pandemia e não tinha ainda esse peso das tarefas domésticas e das distribuições delas. Na primeira fase da pandemia continuamos em casa, nos relacionamos muito com a casa e pouco com o trabalho, não teve problema até que eu comecei a trabalhar. Somos autônomos, eu e meu marido, então a gente corre atrás de trabalho, aconteceu de ter trabalho primeiro para mim do que para ele, fui ficando menos em casa do que ele. Então assumi menos as atividades domésticas do que ele e hoje em dia ainda é mais ou menos assim, apesar de que ele já está trabalhando também. Como conciliamos as agendas uma coisa engraçada acontece, quando eu estou em casa ele não está, então eu assumo as atividades domésticas e quando ele está em casa revezamos isso, não tem muita pressão, acontece naturalmente, sem pressão na distribuição das atividades domésticas e não é bem distinguido, por exemplo, o homem lava a varanda e a mulher lava a louça, pegamos no pesado e no leve juntos conforme a necessidade”.

Com as notícias sobre a Covid-19 e a chegada do vírus no Brasil as primeiras impressões de Cecília foram preocupação e medo, os cuidados com a saúde antes da pandemia eram os básicos preventivos com a alimentação. Ela acredita que o convívio com a necessidade de isolamento e confinamento da família os deixou mais unidos.

Com relação ao trabalho dela e de seu marido, a rotina de sair ou não para trabalhar, ou até mesmo se houve perda de trabalho ou queda no rendimento financeiro, fala:

“Para mim melhorou, para o meu marido foi ruim. Eu trabalhei de casa e oportunidades surgiram a partir do home office”.

E sobre conciliar o home office com a rotina escolar do filho, ela conta que a experiência foi péssima, pois seu filho não se sente interessado pelas atividades remotas e relata que uma mudança de domicílio teve que ocorrer nesse período pandêmico:

“Então eu pedi ajuda para avó paterna dele, que é pedagoga, e ele foi passar um tempo com ela, está lá desde setembro. Se não fosse ela, ele ia voltar para o mesmo ano em 2021. Mas lá está funcionando”.

Se teria mais alguma mudança na vivência de maternidade durante a pandemia Cecília relata:

“O que mais noto é que por meus filhos já serem crescidos e com menos necessidade de atenção exclusiva, o isolamento permitiu que meu olhar para eles e para a maternidade mudasse. Aquele início impositivo de aceitar a maternidade se desfez. E eu quero preservar essa nova sintonia que despertou sobre a maternidade e o vínculo com eles para depois da pandemia. Ao me tornar mãe eu não tive escolha a não ser aceitar a maternidade. No isolamento a maternidade se tornou uma excelente escolha e até uma solução para amenizar os efeitos emocionais do confinamento e do medo”.

E sobre o futuro, como planos e aprendizados a ela e a sociedade:

“Estou com planos. Eu iniciei dois projetos profissionais na pandemia e um intelectual. Pretendo formar ano que vem a minha turma de instrutoras em Hatha Yoga, avançar no programa de mestrado e minha amiga de São Paulo me convidou para trabalhar remotamente com ela. Acredito que a sociedade já se modificou em questões de modelo de trabalho e estudo. Acho que piorou no aspecto de relações humanas, me sinto a exceção, mas ouço relatos e economicamente a fase posterior à pandemia será de pós-guerra. Escassez de recursos, aumento da pobreza para a grande maioria. Mas não é possível generalizar em nenhum desses aspectos”.

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