Eu, Jéssica Matias, entrevistei Bruna Maria Alencar de Carvalho. Bruna nasceu no dia 08 de julho de 1994 e completou o Ensino Superior. É casada, tem uma filha e se identifica como parda. Atualmente é dona de casa e mora no bairro Tucumã 2, em Rio Branco. A entrevista foi realizada por meio do aplicativo WhatsApp, no dia 18 de outubro de 2020. A entrevistada preferiu disponibilizar o seu relato de forma escrita, pois no horário da entrevista sua filha estava dormindo e deste modo não interromperia o sono da criança.

Maternidade na pandemia. Gravidez não planejada. Grupo de risco. Falecimento na família. 

Bom, me chamo Bruna Maria Alencar de Carvalho. Tenho 26 anos. Atualmente moro com o meu companheiro e minha filha. Tenho uma irmã e um cunhado, minha mãe já é falecida. Minha filha tem 10 meses, hoje em dia sou dona de casa e meu marido é agente de endemias.
Na quarentena ele continuou a trabalhar, pois o combate à dengue não poderia parar.

Nesse período de Corona, nós sentimos medo, porque a nossa filha ainda é bebê e como ele é agente de endemias, tem contato direto com as pessoas, infectadas ou não.
Quando ele chega do trabalho, já temos todo um cuidado com a higienização na varanda de casa para poder entrar, pois nossa filha possui um pequeno sopro no coração. E graças a Deus, nossa família não contraiu a Covid-19.

Quando começou a pandemia de fato, a minha filha estava completando 3 meses, ela era muito novinha, então no início foi bem fácil fazer quarentena com ela, pois ela era um bebê bem tranquilo. Em relação a minha gravidez, não foi planejada. Eu estava pagando o aviso prévio, quando eu descobri a gravidez. Por um acaso, fazendo o exame demissional para sair do emprego, fui questionada se a menstruação estava em dia, foi quando eu me toquei que estava a quase um mês sem menstruar.

Minha vida naquela época era uma correria, minha mãe estava internada no HC (Hospital das Clínicas) com pneumonia, então eu tinha que ficar com ela a noite no hospital, e aí juntou com a demissão. Eu estava saindo do emprego justamente para ajudar a cuidar dela, e foi desta forma que eu descobri a gravidez.

Meu sonho sempre foi ser mãe, porém, eu achava que não poderia engravidar, por sempre ter tido problema hormonal e ter a menstruação irregular. Quando eu vi o positivo no teste de farmácia, eu não quis acreditar. No dia seguinte eu fiz o exame de sangue, e só então que eu passei a acreditar no resultado.

O mais difícil foi contar para minha mãe e a minha irmã, porque toda vida, fomos apenas nós 3 morando sozinhas. E a minha gravidez foi um susto, por que ocorreria a possibilidade de sair de casa ou meu esposo – que na época era meu namorado – vir morar aqui e nós não éramos acostumadas com a presença masculina dentro de casa. Isso acabaria que tirando a privacidade das duas.

Então elas ficaram bastante assustadas. A minha irmã de início não aceitou, foi bem resistente, mas depois que a neném nasceu foi só amores.

Minha mãe também ficou assustada, mas depois ela ficou bem receptiva e feliz, acompanhou a gravidez inteira, na hora das contrações a gente fazia chamada de vídeo e eu lembro dela ter ficado muito ansiosa de conhecer a neta e saber se ia pode acompanhar o crescimento dela.

Antes eu não achava que a maternidade tinha vindo no momento certo, mas aí, Deus me revelou que a minha filha vinha para curar muitas coisas na minha vida e na vida do meu esposo. Depois disso, as coisas foram acontecendo, minha mãe a cada dia ia decaindo mais um pouco devido ao câncer, era um câncer raro e já havíamos tentados todos os tratamentos.

Quando a minha filha tinha dois meses e uns dias minha mãe veio a falecer, então eu passei a entender o significado da vinda da minha filha, porque foi a forma que Deus encontrou de não me deixar desamparada e isso passou a ter um significado especial na minha vida.

A minha rotina antes da pandemia se baseava em ficar em casa, ajudando minha irmã nos afazeres domésticos e nos cuidados da nossa mãe, e depois veio a neném.

Depois do falecimento da minha mãe, minha irmã decidiu se mudar com o namorado, vindo fazer visitas diariamente.

Passo o dia em casa com a neném e meu esposo sai para trabalhar. Mesmo trabalhando fora, nós dividimos as tarefas domésticas, eu limpo a casa, limpo o banheiro e faço a comida. Ele lava a louça, lava a varanda e todo dia em que há a coleta de lixo ele faz a varredura e coloca o lixo para fora. Ele sempre faz o serviço mais pesado, porque ainda sinto muita dor na região da lombar.

Em relação à nossa pequena, sempre dividimos os cuidados em relação a ela também, somos muito parceiros em relação tudo. Ele limpa, dá banho, eu dou de mamar, faço a comidinha dela, dou de comer. Sempre um ou outro está fazendo essas tarefas, se ele não sabe, eu ensino.

Com a pandemia a limpeza se intensificou, porque meu marido sai para trabalhar, então eu limpo tudo que vem de fora com álcool em gel. Coisa que antes a gente não fazia, só passava um pano normal para tirar a poeira.

O meu maior desafio da maternidade durante esse isolamento social é ter que ficar trancada dentro de casa junto com a minha filha, porque ela gosta de passear, de ver gente. Então a pandemia adiou a nossa liberdade de sair de casa, dar uma volta pelos restaurantes, sair para passear mais vezes com a minha filha pelo Horto Florestal, pela Gameleira, coisas que eu e o meu marido fazíamos antes.

Com o passar da quarentena eu vinha notando um comportamento diferente nela, ela tinha tudo para ser uma criança mais solta, justamente por ter mais contato com os primos, porém quando saíamos de casa, ela era uma criança medrosa, assustada. Ela não tinha rotina, era bagunçada, não tinha hora para dormir não tinha hora de banho, nada. A minha filha já é do grupo de risco por ser bebê.

Recentemente descobrimos que ela tem sopro no coração, então requer cuidados, mas segue tudo bem com ela, não precisou ir ao hospital, e estamos cuidando da nossa imunidade, ela toma vitamina D e ferro, e volta e meia, me levanto cedo e pego o sol da manhã, abro a casa toda e o quarto bem cedo, para que o sol entre pela casa.

No entanto, durante essa quarentena quem precisou ir ao hospital foi eu. Comecei a sentir uma dor na região do cóccix, que subia na região da lombar e se irradiava para a barriga. No início, a gente achava que era apêndice e fui para o PS (Pronto Socorro – Hospital de Urgência e Emergência de Rio Branco).

Neste dia, foi preciso minha filha ir comigo, pois meu marido teve que me acompanhar, mas, ao chegarmos lá minha irmã chegou em seguida e ficou com ela do lado de fora do hospital. A médica só olhou para a minha cara e me disse que era renal e que poderia ser pedra nos rins e que eu tinha que bater um raio X. Resolvi agendar por telefone uma consulta na Policlínica do Tucumã. No dia da consulta, minha filha ficou com o pai dela em casa. Lá a médica disse que pelas características não poderia ser rins e sim dor nos músculos, devido ao peso da minha filha e de afazeres domésticos, porque eu não tenho ajuda de ninguém fora meu marido.

Foi necessário entrarmos de quarentena antes de todo mundo, porque eu tinha ido na Bolívia na véspera do decreto de isolamento social. Minha mãe faleceu treze dias antes de entrarmos em quarentena, e eu fiquei resolvendo a parte burocrática, de banco, da certidão de óbito (porque deu problema), tive que ir no antigo emprego dela, tive que ir no município de Epitaciolândia, atrás do meu pai.

Enfim, a quarentena foi muito benéfica, porque eu pude me organizar em relação a casa, aos horários de rotina da minha filha e descansar depois de dias bem difíceis.
Eu não encaro o isolamento social como uma prisão domiciliar, encaro o isolamento social como forma de proteção, reorganização de vida, de pensamento, de atitudes e de descanso da mente e do corpo. Esses meses sem sair para quase nada me fizeram refletir sobre muitas coisas e valorizar muito a minha família.

Após a maternidade tudo mudou, porque tenho uma vida que depende de mim, completamente. A Isabel veio para mudar a vida de todo mundo ao redor dela. Antes eu não tinha muita responsabilidade e com isso eu usei a pandemia como benefício, usei para refletir sobre o antes e o depois de toda essa mudança na minha vida. E ser mãe é maravilhoso, o aspecto negativo é o cansaço que a maternidade promove.

Tudo para mim é muito novo e intenso. Então eu me sinto cansada da rotina que a maternidade impõe. Eu não tive que abdicar de nada ao me tornar mãe, hoje minha filha é minha prioridade, o resto é uma mera banalidade e coisas fúteis. Me sinto realizada com a maternidade, errando aqui e ali, mas minha realização é ver que ela está bem.

Durante essa quarentena alguns conhecidos faleceram, inclusive de Covid-19 e meu maior medo nessa pandemia é ter que me distanciar do meu marido e da minha irmã.

Eu tenho conseguido tirar um tempo para cuidar de mim, eu faço isso depois que a neném dorme, como ela dorme cedo, eu tenho tentado me cuidar mais. Depois que ganhei bebê, meu corpo ficou muito flácido, e por isso a minha autoestima ficou lá embaixo. Eu me anulei muito em prol de tudo que estava acontecendo na minha vida. Então eu estou indo aos poucos, me cuidando devagar.

Hoje meus planos para o futuro são voltar a trabalhar, reformar minha casa, comprar um carro, viajar, coisas do tipo. E com toda certeza, após a quarentena pretendo viajar com minha filha, eu só viajei uma vez na vida e quero proporcionar isso a ela, que ela conheça outros lugares, alcance novos horizontes.

Espero que depois da pandemia haja mais empatia, mais amor e um olhar mais voltado ao próximo e menos julgamento. Todas nós, mães, temos uma história, temos que ser solidárias conosco e com as outras. Juntas somos mais fortes. Eu agradeço a Deus em primeiro lugar, em segundo a minha mãe, que criou a mim e a minha irmã sozinha, com muita luta. Ela me fez ser a pessoa que eu sou hoje.

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