No dia 15 de outubro de 2020 Ana Keyla relata a mim, Aline Paiva, por meio de aplicativo de mensagem sua rotina de mulher casada, mãe de uma menina e estudante de química.

Ela nasceu no dia 21 de julho de 1996 em Rio Branco no Acre, onde mora até hoje no bairro Placas. Ana está desempregada no momento e se divide entre os cuidados com a filha e as aulas do curso de química na Universidade Federal do Acre. Ana se autodeclara parda.

Gravidez não-planejada. Desemprego. Estudante. 

Me chamo Ana, tenho 24 anos, nasci aqui mesmo em Rio Branco. Só tenho uma filha, a Sophia, ela vai fazer 2 anos de idade em novembro. Atualmente eu estou morando com o pai dela, e estou desempregada, só estudo.

Perguntada como aconteceu à maternidade em sua vida e seus momentos iniciais ela responde:

Não foi uma gravidez planejada, meus planos era ser mãe só aos 30. Já formada e com um emprego, com uma boa estabilidade financeira. Mas aconteceu, no começo foi um choque, principalmente por causa dos meus estudos, eu estava iniciando meu terceiro período. Então fui muito prejudicada, não pude fazer todas as matérias do terceiro, e acabei não fazendo nenhuma do quarto. Quando foi para eu voltar, foi pior ainda, eu tive que deixar minha filha recém nascida em casa, aos cuidados de uma estranha que eu sequer conhecia. Eu passava a manhã toda preocupada, louca para voltar para casa, mal conseguia me concentrar.

Em seguida explica como é a relação com a filha, mesmo a menina com pouca idade:

Olha, eu considero que a gente tem uma boa relação, na maior parte do tempo eu não gosto de tratar ela como um bebê, eu gosto que ela seja independente, mesmo ela não gostando tanto assim. Mas eu tento dar espaço para que ela aproveite cada fase da vida dela, com o máximo de liberdade possível, eu converso com ela como se ela tivesse uns 10 anos (palavras da minha mãe). Ela é muito inteligente e esperta, se ela me vê triste, trata de logo me abraçar e me encher de beijos, se ela acha estou com medo de uma formiga, ela trata logo de pegar a sandália e ir lá matar. Ela é minha melhor amiga, mas como amiga de vez em quando ela até me desafia, quer sair na “peia” comigo quando não, ela quer mandar em mim, eu deixo claro que não é assim, ela abaixa a cabeça, cruza os braços e sai de cabeça baixa chorando.

Ana continua seu relato agora explicando se havia ou não uma rotina familiar e se algo mudou após a pandemia. Também fala sobre cuidados com a saúde mesmo antes da pandemia:

Antes a gente tinha uma rotina, ela só ficava com a babá. Mas depois que começou a pandemia, isso não existe mais. Não temos hora para dormir, nem para acordar. Muito menos para comer. Ela [sua filha] acordava às 8 horas da manhã, tomava café, brincava e esperava o almoço as 11 horas; então depois do almoço ela dormia até às 3 horas da tarde e acordava para merendar e brincar comigo, que era o horário que eu chegava da faculdade. Então a gente ficava juntas até às 20 horas quando ela ia dormir e eu voltava a estudar. Mas hoje, ela acorda às vezes 11 horas da manhã, toma café nesse horário, almoça às 3 horas da tarde, merenda às 5 horas e janta às 21 horas e vai dormir às vezes 1 hora da manhã. Tá muito bagunçada a nossa rotina. Estou tentando arrumar agora, por causa do retorno das aulas [referindo-se ao retorno das aulas de forma remota].

E sobre cuidados com a saúde, eu sempre tive com ela. Mas nada de mais.

 

Com relação à divisão de tarefas em casa, como era antes da pandemia e como ficou, se mudou alguma coisa ou não e os cuidados com a filha, Ana relata:

Quem ficava com ela era a babá para eu poder estudar, como não estou estudando, estou cuidando dela em tempo integral, não tenho folgas nem para ir ao banheiro. O pai dela passa o dia todo fora, quando chega é noite e mesmo estando em casa só me dá trabalho, às vezes mais do que ela. Para mim não mudou em nada. Sempre foi só eu e ela praticamente e continua assim.

Sobre as primeiras impressões sobre a Covid-19 e sua chegada o Brasil, além das medidas de isolamento que foram tomadas, ela diz:

Eu fiquei indignada, porque eles demoraram muito para agir, muitas vidas foram perdidas por teimosia, achando que não era isso tudo. Desde o começo eu já comecei a ter cuidados, quando começou o isolamento, eu não visitava nem meus pais, não ia nem em mercado, enquanto as pessoas ficavam saindo, indo para resenhas e bares, isso me deixou muito chateada.

Com relação a rotina de trabalho fora de casa, se alguém precisou trabalhar de casa mesmo, ou perdeu o emprego por causa da pandemia:

Eu já estava desempregada antes da pandemia. Agora o meu marido não. Ele perdeu muito trabalho, passou um tempo em casa sem serviço.

Ana explica que seu marido é autônomo e relata se houve algum tipo de queda no rendimento financeiro da família e se conseguiram, ela e o marido, inclusão no auxílio emergencial oferecido pelo governo federal durante a crise sanitária ocasionada pela Covid-19:

A gente chegou a passar necessidades por uns meses. E infelizmente não, nem eu nem ele ganhamos o auxílio, mas minha mãe ganhou e me ajudou.

Sobre se algum familiar ou amigo teve Covid-19 ou faleceu, Ana fala:

Só meu tio pegou Covid-19. E graças a Deus, apesar da diabetes, ele ficou bem, nem precisou ser internado.

Por fim Ana fala sobre um possível aprendizado através do momento de crise que se vive atualmente e planos para um futuro:

Pra mim trouxe, aprendi que nem todo mundo é aquilo que aparenta ser. Essa pandemia mostrou quem realmente as pessoas são. Tanto afastando quanto aproximando elas. Às vezes você pensa que as pessoas se importam com você, mas elas só se importam com elas mesmo. Não sei ao certo, só de sobreviver esse ano pra mim já é uma vitória, após tantas mortes e perdas não fiz planos a longo prazo.

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